{"id":10,"date":"2016-07-07T13:06:31","date_gmt":"2016-07-07T13:06:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.escritos.cristinaribas.org\/?p=8"},"modified":"2016-07-07T13:06:31","modified_gmt":"2016-07-07T13:06:31","slug":"loucura-analise-da","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/loucura-analise-da\/","title":{"rendered":"Loucura (An\u00e1lise da,)"},"content":{"rendered":"<p>Loucura (An\u00e1lise da,)<br \/>\nCristina Ribas<\/p>\n<p>Algu\u00e9m imagina-se sem laterais. Sem classifica\u00e7\u00f5es. Sem trilhos. Tudo o que tem a cuidar \u00e9 o seu pr\u00f3prio corpo. Alimentado com caf\u00e9 e muito a\u00e7\u00facar. Alimentado com o que sobra de afeto dos outros que passam. Ou, cuidado bem de dentro de casa, ou bem cuidado numa casa-coletiva que lhe produz junto, como engrenagem macia. Vida que borda, vida que compartilha, vida que aprende a cuidar do outro. Vida que se separa de si mesma, que imagina outras realidades, mais materiais e mais imag\u00e9ticas que essa convencionada aqui entre nossos corpos. Vida que n\u00e3o se separa da vida dos outros.<\/p>\n<p>Uma das loucuras do Brasil \u00e9 essa soltura de modos de gente que se acumulam nas cal\u00e7adas ou que se escondem e se misturam nas institui\u00e7\u00f5es manicomiais e nas casas compartilhadas. Que cantam por a\u00ed. Que fazem teatro. E que d\u00e3o discursos nos bancos corruptos.<\/p>\n<p>A loucura n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 do Brasil, claro. Mas alguma raz\u00e3o h\u00e1 por que tem tanta loucura aqui. E h\u00e1 algo que faz essa loucura vis\u00edvel, muito vis\u00edvel. Ou s\u00e3o meus olhos que v\u00eaem demais a soltura da loucura.<\/p>\n<p>H\u00e1 modula\u00e7\u00f5es da loucura, assim como h\u00e1 modula\u00e7\u00f5es do cuidado da loucura.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise da loucura, por sua vez, n\u00e3o deve ser uma que a abafa. Ou moraliza. N\u00e3o deve ser uma que medicaliza, uma que faz a loucura desaparecer. Nesse sentido, deve ser uma an\u00e1lise de cuidado ativo, produtivo, que n\u00e3o multiplica a loucura per se, mas que encontra com elas caminhos de efetua\u00e7\u00e3o da vida. A an\u00e1lise da loucura deve tornar-se an\u00e1lise do desejo.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise do desejo produz uma trama flu\u00edda, que comp\u00f5e com a liberdade da loucura. Mas com o fim da\u00a0 liberdade detecta-se a express\u00e3o de microfascismos. Ali a loucura &#8216;vira&#8217;, \u00e9 outra loucura. Que nos chama aos nossos limites. Olha pra isso. Olha que loucura! J\u00e1 n\u00e3o mais cremos no que vemos.<\/p>\n<p>O que \u00e9 que se concentrou no corpo daquele homem-policial? Que energia ou fraqueza foi transferida a seu gatilho que disparou e que matou o camel\u00f4 na cal\u00e7ada da Lapa? (S\u00e3o Paulo) O homem \u00e9 logo submetido a an\u00e1lises patologizantes &#8211; sua esquizofrenia, suas neuroses, suas psicoses, seus medos, suas n\u00f3ias, seus crimes anteriores. Arrisco dizer: sua loucura primeira e \u00faltima: ser policial. O mesmo se faz com aqueles que protestam, claro. Mas esses s\u00e3o classificados como loucos ou perigosos para que imediatamente seu potencial pol\u00edtico seja apagado. Arriscam dizer: sua loucura: o desejo de protesto. A personifica\u00e7\u00e3o dos casos n\u00e3o pode, contudo, interromper a compreens\u00e3o de como os eventos s\u00e3o sintom\u00e1ticos de modos sociais, de organiza\u00e7\u00f5es e institui\u00e7\u00f5es que nos formalizam. Ou \u00e0s quais resistimos.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que a an\u00e1lise da loucura n\u00e3o pode descansar. Ela vai perceber as sutilezas, as especializa\u00e7\u00f5es, as acopla\u00e7\u00f5es com o poder. A loucura higienista, que se torna controle da vida alheia. Que faz gente desaparecer, gente morrer de fome, gente vadiar sem casa, gente revirar-se em resist\u00eancia. A an\u00e1lise da loucura vai tentar ler aquilo que autoriza a express\u00e3o das linhas mais e menos vis\u00edveis de microfascismos que, por sua vez, revelam sua rela\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca com uma superestrutura. O fascismo na sua dimens\u00e3o macropol\u00edtica.<\/p>\n<p>Loucura j\u00e1 conhecida, disfar\u00e7ada de pol\u00edtica. Loucura que n\u00e3o \u00e9 o governo do navio dos malucos, daqueles soltos e libertos, daqueles exilados, e daqueles autonomizados, que criam e que diferem. Mas daqueles que marcham juntos diante de um altar, que desejam um porvir que n\u00e3o chegar\u00e1 em vida, que vendem suas almas.<\/p>\n<p>Entre a loucura do fervor religioso, do fascismo e da homofobia n\u00e3o h\u00e1 muita diferen\u00e7a. Elas se associam ao discurso do poder e de uma moral normalizante que autoriza o massacre \u00e0 luz do dia de casais gays, de povos ind\u00edgenas, de velhos e de pobres negros, de mulheres fortes e de prostitutas, e dos loucos libertos por eles mesmos, que anunciam sair de um tipo de mundo, de um mundo estritamente normal e economicamente produtivo.<\/p>\n<p>Eu olho para esse modo da loucura que produz uma moral maior sem \u00e9tica. S\u00e3o loucuras higienizantes que operam nos tribunais, nos conluios econ\u00f4micos, nos esquadr\u00f5es policiais. Sua fraqueza \u00e9 um desejo de poder. A loucura colada ao microfascismo e ao poder de estado produz uma realidade comum que se op\u00f5e a abrir qualquer negocia\u00e7\u00e3o social. Bolsonaro. Cunha. E talvez seja errado analisar desejo de poder chamando-o de loucura. Talvez seja uma tentativa de captar e isolar ao modo da patologia aquilo que j\u00e1 n\u00e3o mais podemos aceitar.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise da loucura n\u00e3o \u00e9, ent\u00e3o, detectar uma loucura boa e uma loucura m\u00e1. Nem isolar a loucura como sintoma de uma pessoa s\u00f3. A loucura, assim como o desejo, s\u00e3o produ\u00e7\u00f5es sociais. Analisar a loucura \u00e9 ir por outros lados: ir para al\u00e9m da domestica\u00e7\u00e3o da loucura e ao mesmo tempo estar atento a intervir na loucura da moral sem \u00e9tica que se facializa com o poder, que se expressa como controle, que \u00e9 esquadrinhada e cientificizada em planos de ordem e produtividade social.<\/p>\n<p>Da an\u00e1lise da loucura, da loucura solta, que n\u00e3o tem medo de destruir a si, pode emergir por meio de um escrut\u00ednio incontrol\u00e1vel, da abertura de um diagrama complexo, o poder que centraliza o fascista, e ele, transparente, isolado, neur\u00f3tico e f\u00f3bico, com medo da multid\u00e3o prom\u00edscua.<\/p>\n ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Loucura (An\u00e1lise da,) Cristina Ribas Algu\u00e9m imagina-se sem laterais. Sem classifica\u00e7\u00f5es. Sem trilhos. Tudo o que tem a cuidar \u00e9 o seu pr\u00f3prio corpo. 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