{"id":130,"date":"2015-01-10T12:09:37","date_gmt":"2015-01-10T14:09:37","guid":{"rendered":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/?p=130"},"modified":"2018-10-17T20:05:14","modified_gmt":"2018-10-17T23:05:14","slug":"infraestrutura-maternidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/infraestrutura-maternidade\/","title":{"rendered":"Infraestrutura: maternidade, paternidade, economia do cuidado, trabalho"},"content":{"rendered":"<p>Infraestrutura: maternidade \/ paternidade \/ economia do cuidado \/ trabalho<\/p>\n<p>Cristina Ribas | ((com par\u00eantesis de Barbara Lito))<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Estamos dispostos a fazer algo pelas futuras gera\u00e7\u00f5es? Ent\u00e3o resolvamos nossa dor infantil e coloquemos nosso corpo a disposi\u00e7\u00e3o dos que s\u00e3o crian\u00e7as hoje.&#8221;<br \/>\nLaura Gutman<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A maternidade desacelera o mundo. Ensina ele que s\u00f3 h\u00e1 uma economia: a economia do cuidado.<\/p>\n<p>Acordo num dia sem saber, que horas s\u00e3o? A contagem \u00e9 do est\u00f4mago pequeno daquele serzinho iluminado que ao lado me diz, tenho fome, ou \u00e9 que foi perturbada por um sonho de monstro, de coruja noturna como j\u00e1 me disse uma vez. A hora \u00e9 tamb\u00e9m equa\u00e7\u00e3o: contagem das horas de sono, se \u00e9 hora de acordar mesmo, ou se \u00e9 hora de ficar, fazer estender o sono, aumentar a pregui\u00e7a cair em sonho novamente. Acordar, posso tentar s\u00f3 eu, posso, preciso trabalhar (aquele tanto de coisas acumulado, a demanda constante), e arrisco 20 minutos nessa manh\u00e3 silenciosa, quase segredo, s\u00f3 minha. 20 minutos \u00e0s vezes me d\u00e3o tempo para entrar, de novo, na trama do irresolv\u00edvel (do que foi deixado na noite anterior, arquivos abertos, anota\u00e7\u00f5es esparsas). Ela acorda logo depois de mim, vem caminhando pessoa pequena, choraminga, mama no peito. Estamos juntas, colo e chamego. A contagem da hora enquanto olho para ela segue projetiva, planejando o dia por vir. Dia de qu\u00ea? Dia de trabalho, dia de creche, dia de entrar na linha do tempo de fora, de um tempo grande e irrespons\u00e1vel com a nossa temporalidade pequena. I n t e r r o m p e r . Arriscar cortar e acelerar esse tempo da pessoa pequena, que n\u00e3o sabe das raz\u00f5es, e as quais lhe explico. \u00c9 hora disso, de creche e de trabalho, de meias e de roupas, qual \u00e9 o clima l\u00e1 fora, de fazer caber o que se precisa na mochila, de conferir as coisas todas na bolsa, se h\u00e1 bilhete da creche, \u00e9 fraldas que pedem. Preparar o caf\u00e9, alimentar, conversas, rimos juntas, nem sempre d\u00e1 tempo. N\u00e3o estamos s\u00f3s, o pai est\u00e1 junto, dividimos tarefas, criamos um sistema. Temos, afinal, nossa estrat\u00e9gia (temos?). As manh\u00e3s s\u00e3o organizadas num tempo conciso, e tempo de despedida: deixo-a no port\u00e3ozinho de sua sala <i>catterpillar<\/i>, abandonada saio eu para meu <i>playground<\/i> da vida adulta, vida essa a ser reinventada.<\/p>\n<p>Eu sou daquelas que se permitiu estranhar ao m\u00e1ximo na gravidez, deslocar e ouvir as sensa\u00e7\u00f5es de um corpo hormonoturbinado, hipersexualizado, e ao mesmo tempo que sens\u00edvel e fr\u00e1gil, forte e mutante&#8230; E me permiti continuar, da maneira como a pr\u00f3pria biologia do corpo continua, um estado de mutabilidade que se estende ap\u00f3s parir, percebendo incorporar-se em todo espa\u00e7o\u00a0 atmosf\u00e9rico da casa a mudan\u00e7a molecular da chegada de uma nova pessoa. Como \u00e9 que o mundo a recebe? Eu e seu pai acendemos a aten\u00e7\u00e3o extrema na sua dimens\u00e3o pequena, na sua delicadeza e imprevisibilidade, uma aten\u00e7\u00e3o que \u00e9 sobretudo <i>i n t u i \u00e7 \u00e3 o<\/i>. Com isso adentramos tamb\u00e9m a comunidade-de-todas-as-cores de pais e m\u00e3es que se constitui ao nosso redor, e da qual passamos a ser como membros natos, aprendizes e consultores de amigos que v\u00e3o entrando naquela mesma sensibilidade do mundo, eles tamb\u00e9m tiveram beb\u00ea. Na dimens\u00e3o pequena e misteriosa, silenciosa e sem linguagem (s\u00e3o grunidos) daquele corpo e realidade pequenos, de pot\u00eancia molecular, o que vai ficando estranho, mesmo, s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es de um \u201cmundo adulto\u201d. Contrastam as tarefas, as responsabilidades (?), os compromissos, os conte\u00fados.\u00a0 Saltam aos olhos os sistemas de valorac\u00e3o, comunica\u00e7\u00e3o e significa\u00e7\u00e3o que criamos. Com a chegada de uma filha, de um filho, o mundo que reproduzimos nos percal\u00e7os da vida como naturalidade primeira (ainda que cada um na sua cartografia particular), \u00e9 subitamente freado, cortado, interrompido.<\/p>\n<p>((\u2026 <i>Essa semana que entra o Davi faz 38 semanas. J\u00e1 tem o mesmo TEMPO do lado de fora que passou do lado de dentro. A quest\u00e3o do tempo \u00e9 muito doida, porque eu n\u00e3o sinto que desacelerou&#8230; Eu me sinto teletransportada mesmo pra uma outra temporalidade, espec\u00edfica dessa nossa d\u00edade. Claro que a Hannah j\u00e1 ta maiorzinha, e a gente acaba tendo que fazer um <\/i>rehab<i> pra voltar pro tempo da vida da onde a gente foi radicalmente arrancada quando nasce a cria. Mas tenho a impress\u00e3o de que nunca vou conseguir voltar com o CORPO todo&#8230;))<\/i><\/p>\n<p>Algumas quest\u00f5es, d\u00favidas e enfrentamentos aparecem. Algumas que assumimos, e outras que n\u00e3o assumimos (para si ou para os outros ao nosso redor). A dire\u00e7\u00e3o de\u00a0 nossos movimentos no mundo anda t\u00e3o concentrada nos fazeres do trabalho que viver com a filha e cuid\u00e1-la contrasta imediatamente com o que quer que tenhamos hoje por trabalho, visto que, num crescente, o trabalho se mistura ao tempo da vida. Trabalho imaterial, trabalho prec\u00e1rio. Quando digo \u201ctrabalho\u201d digo uma mistura de trabalho com milit\u00e2ncia, um tipo de produtividade que toma conta dos nossos dias, noites, afetos, emo\u00e7\u00f5es, e que gera renda, mas que muitas vezes tamb\u00e9m n\u00e3o gera renda. Quando falamos em trabalho hoje em dia necessariamente falamos em precariedade, visto que o emprego formal est\u00e1 em franca derrocada, e muitas vezes os contratos tempor\u00e1rios, na verdade, se fazem valer da n\u00e3o regula\u00e7\u00e3o trabalhista, sem a garantia de muitos direitos, ou seja, na precariedade. Ent\u00e3o aqui devemos levar em conta &#8211; para equacionar com os pensamentos sobre\u00a0 <i>c\u00a0 u\u00a0 i\u00a0 d\u00a0 a\u00a0 d\u00a0 o\u00a0<\/i> que seguem no texto &#8211; sob quais condi\u00e7\u00f5es trabalhamos, se somos auto empregados, se temos emprego, se somos bem remunerados, se esperamos um aumento, se tememos a demiss\u00e3o, se criamos uma institui\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Quero embarcar aqui brevemente em duas quest\u00f5es ligadas a trabalho x cuidado. A primeira quest\u00e3o a perda da autonomia do tempo, ou de um tipo de tempo (tempo produtivo?), e a politiza\u00e7\u00e3o do trabalho dom\u00e9stico; a segunda a perda da certeza, de algumas convic\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao que se faz (relacionadas mais ou menos \u00e0 no\u00e7\u00e3o de trabalho, milit\u00e2ncia, etc). No final fa\u00e7o um ensejo de como podemos pensar no cuidado dos adultos eles mesmos, aqueles que tiveram filhos, e como pensar na participa\u00e7\u00e3o dessa assunta\u00e7\u00e3o nos nossos vocabul\u00e1rios cotidianos, e na reprodu\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos, de n\u00f3s mesmos mais ou menos como movimento.<\/p>\n<p><b>A perda do tempo, ou a ideia de&#8230;\u00a0<\/b><\/p>\n<p>Embarcando na primeira quest\u00e3o: a d\u00favida se coloca assim: se tomar conta da filha toma meu tempo, como n\u00e3o opor a filha ao trabalho (aquilo que eu fa\u00e7o para ganhar dinheiro) visto que preciso seguir trabalhando? Essa oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 simples demais, contudo, sobretudo porque ela separa em duas din\u00e2micas o trabalho e a vida com a filha. A invers\u00e3o dessa oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 exatamente a raiz da mudan\u00e7a&#8230; Visto que o tempo do cuidado da filha pode ser intensivamente lento, prazeiroso e imprevis\u00edvel, posso pensar ent\u00e3o que o tempo, no cuidado, \u00e9 mais de ordem subjetiva. ( ( \u00c9 porque o tempo \u00e9 lento que essa entrada-voc\u00e1bulo <i>s a i<\/i> demasiado devagar? ) ) E o tempo da produtividade do trabalho seria aquele que eu posso controlar? Mais objetivo? Ser\u00e1? Ou doutra maneira, da produ\u00e7\u00e3o do tempo. Ou seja, o tempo atomizado da crian\u00e7a sempre vai contrastar e empurrar a ideia de produtividade requerida pelo tempo do capital, tempo esse que por sua vez, ao requerer uma implica\u00e7\u00e3o da vida num tempo produtivo, ele mesmo atomizado, por sua vez,\u00a0 com a precariedade das condi\u00e7\u00f5es de trabalho e pelas novas condi\u00e7\u00f5es do trabalho imaterial que se torna toda uma quest\u00e3o de tempos descont\u00ednuos em coopera\u00e7\u00f5es virtuais. Cruzamentos&#8230; Ramifica\u00e7\u00f5es&#8230; Desvios&#8230; Impossibilidades?<\/p>\n<p>((<i>\u2026 Nem sei se eu vou ter TEMPO de te responder como eu gostaria. Acabei de conseguir colocar o tourinho pra dormir (depois de 1h e 30), que agora resiste resiste, quer ganhar o mundo. Uma das primeiras impress\u00f5es que tive foi que o Davi era um marcador temporal implac\u00e1vel, trazendo ele pra esse tempo cotidiano capitalista. Mas ele relativiza esse tempo o tempo todo, porque simultaneamente me leva pra eras e eras ancestrais (primitivas, geneal\u00f3gicas, gen\u00e9ticas&#8230;) e de salto eu j\u00e1 estou no futuro. Nesse primeiro ano, me pego vendo fotos antigas dos meus av\u00f3s, tios, pais, minhas e de meus primos, e vejo o quanto de vida a nossa linhagem j\u00e1 caminhou, at\u00e9 chega no Davi, que carrega com ele coisas deles (e dos bisos, tatarav\u00f3s, etc) que eu desconhe\u00e7o. E pisco, ele j\u00e1 est\u00e1 com 8 meses, engatinhando, ontem mesmo tava com c\u00f3lica, chorando&#8230; E come\u00e7o a sentir nostalgia dele como t\u00e1 agora. Agora sinto saudade dele como t\u00e1 agora, porque n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel frear esse tempo com ele, que \u00e0s vezes passa arrastado, mas \u00e9 implacavelmente veloz, que \u00e9 pr\u00f3prio do espa\u00e7o de maternar. Centr\u00edfugo e centr\u00edpeto. Tempo de \u00e1timo e n\u00e3o de <\/i>cronos<i>&#8230;<\/i>))<\/p>\n<p><b>\u2026 E o trabalho dom\u00e9stico<\/b><\/p>\n<p>Essa quest\u00e3o do tempo traz consigo outra: a possibilidade de que uma remunera\u00e7\u00e3o \u2013 o fragment\u00e1rio e temporalizado sal\u00e1rio-maternidade, o sal\u00e1rio social ou renda m\u00ednima, ou a bolsa fam\u00edlia por exemplo \u2013 seja o reconhecimento da fun\u00e7\u00e3o social do cuidar, o que se chama mundialmente de \u201ctrabalho dom\u00e9stico.\u201dA remunera\u00e7\u00e3o \u00e9 um aspecto pol\u00edtico da economia do cuidado, imprescind\u00edvel numa realidade contempor\u00e2nea em que o cuidado ainda n\u00e3o tem o espa\u00e7o devido junto aos fluxos econ\u00f4micos da sociedade.<\/p>\n<p>Essa remunera\u00e7\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 conta, contudo, e talvez nunca vai dar, de aquietar a quest\u00e3o da percep\u00e7\u00e3o e da produ\u00e7\u00e3o do tempo no cuidado. Me refiro aqui n\u00e3o tanto ao cuidado como profiss\u00e3o, o trabalho feito pelos cuidadores, mas \u00e0 percep\u00e7\u00e3o do cuidado como ocupa\u00e7\u00e3o primeira dos pais e m\u00e3es, nas rela\u00e7\u00f5es familais. Ser\u00e1 que receber algum tipo de remunera\u00e7\u00e3o (uma licen\u00e7a maternidade, por exemplo) acomoda de alguma maneira, por um tempo, o conflito que uma m\u00e3e e um pai podem passar, ao liberar seu tempo (de trabalho) para a rotina de intui\u00e7\u00e3o e cuidado?<\/p>\n<p>Observando o aspecto subjetivo do tempo do cuidado, cada m\u00e3e e cada pai tem que encontrar a maneira suave como a passagem de um a outro se d\u00e1 (do cuidado ao trabalho), a transi\u00e7\u00e3o de cuidadores prim\u00e1rios de seus filhos para (voltarem a ser) trabalhadores num mercado (ainda que prec\u00e1rio) de trabalho. H\u00e1 diferen\u00e7as nessas temporalidades, e elas dependem tamb\u00e9m da situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de cada configura\u00e7\u00e3o familiar.<\/p>\n<p><i>(( \u2026 (pausa pra dar de mamar) Toda vez que eu t\u00f4 acoplada no Davi, ou ele em mim, especialmente quando fico com o corpo ali e a cabe\u00e7a nas trocentas outras coisas do tempo cronol\u00f3gico ordin\u00e1rio, eu escuto a voz que ele ainda n\u00e3o tem me dizendo: &#8220;vem mam\u00e3e, se entrega aqui comigo, olha como \u00e9 gostoso e quentinho aqui, fica aqui, aqui e agora.&#8221; \u2026 Voltei a pensar no corpo. Nessa temporalidade outra da exist\u00eancia infante que em tr\u00eas meses cronol\u00f3gicos tem um corpo que dobra de tamanho (nunca mais nosso corpo passa por isso, olha s\u00f3 a Alice a\u00ed). N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que esse momento \u00e9 muito aflitivo para as rec\u00e9m paridas, ainda com vest\u00edgios da temporalidade ordin\u00e1ria nesse corpo materno ainda deformado. Esse: &#8220;vem pro \u00e1timo que eu quero mamar, mamar e crescer, mamar sem pensar no amanh\u00e3, no ontem, ai que del\u00edcia&#8221;. \u2026 E esse discurso patriarcal, que separa a temporalidade trazida pela crian\u00e7a do corpo da m\u00e3e e do mundo ordin\u00e1rio, de onde ele vem? porque? pra que serve? \u2026 (Ai, tenho que fazer a mochila do Davi pra sair, tomar banho, separar a comida, etc) \u2026 ))<\/i><\/p>\n<p>Ent\u00e3o h\u00e1 a licen\u00e7a maternidade, e quando h\u00e1, o trabalho dom\u00e9stico remunerado regulamentados diferentemente em cada pa\u00eds (ou ausentes, no caso do segundo, no Brasil), e h\u00e1 tambem o trabalho \u201cde rua\u201d, o trabalho como instrumento\/ferramenta de sociabilidade e participa\u00e7\u00e3o em redes, rela\u00e7\u00f5es, contratos, v\u00ednculos&#8230;<\/p>\n<p>Mundialmente o cuidado \u00e9 atividade relegada \u00e0s mulheres, na grande maioria dos casos. Seja o cuidado dentro de rela\u00e7\u00f5es parentais ou o cuidado como trabalho (cuidadores, enfermeiros, professoras, cuidadoras de crian\u00e7as&#8230;). (L\u00e1 em casa \u00e9 um pouco diferente&#8230;, ou seja viemos construindo uma rela\u00e7\u00e3o em que o cuidar \u00e9 tarefa amorosa de ambos, pai e m\u00e3e, mas isso \u00e9 outro par\u00eantese.)<\/p>\n<p>O cuidado, a cria\u00e7\u00e3o dos filhos, foi politizada enquanto trabalho por lutas feministas que apontaram: se o capitalismo se beneficia desse cuidado, dessa procria\u00e7\u00e3o e consequente cria\u00e7\u00e3o, visto que eles ser\u00e3o tamb\u00e9m \u201cfor\u00e7a-trabalho\u201d, o cuidado das filhas e dos filhos \u00e9 tamb\u00e9m trabalho, por\u00e9m n\u00e3o remunerado! Das lutas feministas por uma valora\u00e7\u00e3o social do cuidado surgem as demandas por uma remunera\u00e7\u00e3o direta, estatal e por benef\u00edcios por se ter filhos, e ponto. Aqui gostaria de separar o benef\u00edcio da licen\u00e7a maternidade (depende no Brasil de contribui\u00e7\u00f5es j\u00e1 feitas \u00e0 previd\u00eancia social) por um (projeto de) sal\u00e1rio social (n\u00e3o deveria depender de contribui\u00e7\u00f5es j\u00e1 feitas, *) ou ainda do benef\u00edcio por filho. Na Inglaterra por exemplo o benef\u00edcio por filho se chama \u201c<i>child care credit<\/i>\u201d, e pode ser recebido at\u00e9 18 anos de idade. O benef\u00edcio se destina \u00e0 provis\u00e3o de bens que a crian\u00e7a demande na sua pequena exist\u00eancia, at\u00e9 sua puberdade e adolesc\u00eancia, comida, fraldas, roupas, rem\u00e9dios, lazeres, &#8230;<\/p>\n<p>No Brasil o Bolsa Fam\u00edlia foi criado com o objetivo de beneficiar fam\u00edlias abaixo do n\u00edvel de pobreza e em n\u00edvel de pobreza, cuja renda familiar n\u00e3o ultrapasse os R$ 154,00 por pessoa, provendo recursos m\u00ednimos para garantir a alimenta\u00e7\u00e3o dessas fam\u00edlias. (**) A contrapartida \u00e9 que todas as crian\u00e7as da fam\u00edlia em idade escolar devam estar matriculadas e frequentando escola, recebam vacina\u00e7\u00e3o, tenham acompanhamento m\u00e9dico at\u00e9 7 anos de idade, n\u00e3o trabalhem, e no caso de gr\u00e1vidas que fa\u00e7am acompanhamento pr\u00e9-natal.<\/p>\n<p>Ainda que uma perspectiva feminista n\u00e3o seja muito conferida nos benef\u00edcios do Bolsa Fam\u00edlia, acredito que o programa deva ser compreendido tamb\u00e9m na perspectiva da luta das mulheres (e dos cuidadores), visto que \u00e9 um benef\u00edcio que incrementa a renda da fam\u00edlia para cuidar dos seus filhos.\u00a0 Segundo pesquisas recentes, o programa tem car\u00e1ter emancipat\u00f3rio para muitas delas, que se sentem encorajadas a se libertarem da trama familiar, quando poderiam estar presas em rela\u00e7\u00f5es que j\u00e1 n\u00e3o querem (muitas mulheres se divorciam, por exemplo), e s\u00e3o estimuladas a cuidarem mais de si. Ou seja, nos casos em que o homem representa a fonte de renda financeira prim\u00e1ria, o incremento do Bolsa Fam\u00edlia encoraja as mulheres a tomarem o rumo de suas vidas, quando antes poderiam depender da confusa rela\u00e7\u00e3o amorosa misturada \u00e0 depend\u00eancia econ\u00f4mica. (***) Em outras situa\u00e7\u00f5es, em que o homem j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 mais em casa complementando renda (porque muitos se separam e vivem sozinhos, sem a responsabilidade de cuidar das filhos e dos filhos) as mulheres tamb\u00e9m s\u00e3o beneficiadas pelo recurso, mas o valor do benef\u00edcio n\u00e3o remunera, de nenhuma maneira, o tempo do cuidado dedicado por elas no crescimento dos filhos, visto que \u00e9 um valor extremamente baixo, e n\u00e3o configura uma renda m\u00ednima.<\/p>\n<p>A maternidade nos seus come\u00e7os, \u00e9 assistida, para aquelas que tem emprego formal, por uma curta licen\u00e7a maternidade de quatro meses.\u00a0 (O pai tem licen\u00e7a de uma semana!) Esse seria o tempo para cuidar de nossos filhos, sem trabalhar, e preparar-se para a dolorosa transi\u00e7\u00e3o de terceirizar o cuidado! Os quatro meses, por sua vez, n\u00e3o fecham com os seis meses de amamenta\u00e7\u00e3o exclusiva recomendados pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. O que n\u00e3o faz muito sentido&#8230; Mas muitas mulheres conseguem negociar isso com seus empregadores, e ficam mais tempo em casa. Mas muitas, muitas mudam de planos&#8230; E colocam em quest\u00e3o o modelo anterior de trabalho que tinham.<\/p>\n<p><i>((\u2026 Fiquei pensando tamb\u00e9m na quest\u00e3o do corpo nesse jogo, que \u00e9 o espa\u00e7o onde ele \u00e9 jogado. Logo que a gente come\u00e7ou a passar os perrengues de c\u00f3lica (acho que bem antes at\u00e9, quando tava contraindo, antes de parir, e tive que ficar de repouso) eu me liguei que a dor trazia o corpo pra esse agora infinito. Lembrei da Laura Gutman nesse livro \u201cAmor o dominaci\u00f3n, los estragos del patriarcado\u201d.\u00a0 \u2026 N\u00e3o sei bem se o trabalho n\u00e3o est\u00e1 englobado numa estrat\u00e9gia maior de domina\u00e7\u00e3o dos corpos, que evita mesmo o contato intimo entre pais e filhos (e velhos moribundos, e doentes, e loucos). Evita a presen\u00e7a deles no espa\u00e7o cotidiano. Segrega. Fico pensando naquelas imagens antigas, algumas at\u00e9 recentes, das m\u00e3es trabalhando com seus filhos pendurados, de boa, lavando, colhendo, plantando, aboiando&#8230; Acho que o corpo desvitalizado e congelado, moldado para um trabalho cada vez mais est\u00e1tico (no corpo, n\u00e3o na cabe\u00e7a) \u00e9 incompat\u00edvel com a pot\u00eancia de vida de uma crian\u00e7a. Ta\u00ed as milh\u00f5es de vistas da galinha pintadinha comemorando n\u00e3o sei quantas crian\u00e7as quietinhas. (****) O trabalho est\u00e1tico no corpo, mas n\u00e3o na mente, tamb\u00e9m \u00e9 incompat\u00edvel com essa temporalidade \u00e1tmica da crian\u00e7a, sem passado nem futuro. pra gente \u00e9 muito df\u00edcil morar nesse eterno agora. \u2026 ))<\/i><\/p>\n<p>Ora, sabemos que a falta de benef\u00edcio para o cuidado ou a prec\u00e1ria remunera\u00e7\u00e3o \u00e9 reflexo de uma s\u00e9rie de modos culturais arraigados e naturalizados, que se baseiam na divis\u00e3o dos tipos de trabalho que homens e mulheres fazem (e o sal\u00e1rios diferentes que recebem), na cren\u00e7a da naturalidade do cuidado como coisa feminina. Esse ponto \u00e9 um dos mais importantes para as lutas pela legaliza\u00e7\u00e3o do aborto, visto que socialmente o cuidado \u00e9 entendido como uma continuidade inquestion\u00e1vel do ato de gestar e parir. Quantas de n\u00f3s j\u00e1 abortaram ou evitaram ter filhos pelo temor de n\u00e3o conseguir conciliar o cuidado com o trabalho? Pelo medo de n\u00e3o conseguir ou por n\u00e3o conseguir mesmo ter condi\u00e7\u00f5es financeiras de cuidar de uma crian\u00e7a? Por temer reproduzir a sociedade machista enquanto tal em que o cuidado est\u00e1 relegado determinantemente \u00e0s mulheres, e que portanto deixa a mulher em condi\u00e7\u00f5es de trabalho menos favor\u00e1veis? Ali\u00e1s: quantos abortos mal sucedidos s\u00e3o necess\u00e1rios para mudar as condi\u00e7\u00f5es sociais do abortar? Para legalizar o aborto?<\/p>\n<p>Silvia Federici, feminista italiana conta como as feministas dos anos 70 apreenderam que compreender o \u201ctrabalho reprodutivo\u201d no regime da explora\u00e7\u00e3o (o capitalismo acumula tamb\u00e9m em cima disso) permitiu o reconhecimento de uma luta comum das mulheres:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cUma vez vimos que ao inv\u00e9s de reproduzir vida n\u00f3s est\u00e1vamos expandindo a acumula\u00e7\u00e3o capitalista e come\u00e7amos a definir trabalho reprodutivo como trabalho para o capital, n\u00f3s tamb\u00e9m abrimos a possibilidade de um processo de recomposi\u00e7\u00e3o entre as mulheres.\u201d\u00a0 (*****)<\/p><\/blockquote>\n<p>O cuidado reconhecido como um trabalho, como uma ocupa\u00e7\u00e3o que serve \u00e0 sua maneira \u00e0 complexidade de um sistema de produ\u00e7\u00e3o\/reprodu\u00e7\u00e3o, acaba se tornando o <i>t e r r e n o \u00a0 d e \u00a0 l u t a <\/i>, usando as palavras de Federici, e esse terreno de luta se estende \u00e0s vidas daqueles que cuidamos. Ela pergunta: como lutar sem entrar em conflito com aqueles que amamos? (Falarei disso mais adiante.)<\/p>\n<p><b>A perda do sentido. Havia um antes?<\/b><\/p>\n<p>A outra coisa que pega que \u00e9: faz sentido? Fazer as coisas da maneira como se fazia?<\/p>\n<p>Desde o come\u00e7o eu resisti em n\u00e3o colocar a filha de um lado (a vida com ela, o cuidado), e o trabalho. Isso quer dizer que quando eu pensava em trabalho eu pensava em algum tipo de movimento, de fazer, que, menos do que pudesse inclu\u00ed-la, pudesse se fazer\u00a0 <i>c o m<\/i>\u00a0 ela. Ou seja, em que ela estivesse presente, conferindo sentido \u00e0quilo. Mas n\u00e3o sabia bem o que nem como&#8230; Organizar uma resid\u00eancia-projeto para artistas-etc com filhos? Talvez&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 claro que quando se come\u00e7a a questionar isso, se est\u00e1 questionando o que \u00e9 que entendemos por trabalho e com o que \u00e9 que nos comprometemos em um mundo capitalista-produtivista em que cada vez mais o produzir toma espa\u00e7o. Ent\u00e3o arrisco uma defini\u00e7\u00e3o que expressa, na verdade, a raiz prec\u00e1ria da minha experi\u00eancia de trabalho: qualquer atividade que traga remunera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o necessariamente que se tenha como profiss\u00e3o, que construa um comprometimento com algo que \u00e9 ligado ao que se compreende como trabalho em si, mas que se conecta numa linhagem de a\u00e7\u00f5es e regularidades, que mant\u00e9m aceso um certo v\u00ednculo, seja com as institui\u00e7\u00f5es com as quais nos associamos, as parcerias, a participa\u00e7\u00e3o na atualidadede de um debate, os discursos e posi\u00e7\u00f5es que adotamos. Pois bem, na mudan\u00e7a de sentido das coisas, \u00e9 essa ideia de <i>r e g u l a r i d a d e<\/i> que se quebra quando um filho ou filha nasce (ou mais de um!). Essa \u00e9 definitivamente uma quebra no sentido de um fazer que poderia estar muitas vezes automatizado, tecnicizado, dessubjetivado. Vou deixar umas perguntas soltas, sobre o sentido do trabalho: para quem e para o qu\u00ea eu trabalhava? fazia? me mexia antes?;\u00a0 ou com que velocidade, com que dedica\u00e7\u00e3o, com que efetividade, com quanto de mim?\u2026<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de continuidade \u00e9 quebrada pois a temporalidade do filho \u00e9 caoticamente outra, e isso reflete os sentidos que ela ou ele for\u00e7osamente vem sacudir. Cada um ou uma de n\u00f3s percebe isso distintamente, claro. Para quem se conhece de um jeito, a quebra vem destituir uma s\u00e9rie de convic\u00e7\u00f5es. Acredito que essa quebra acontece porque o que aparece \u00e9\u00a0 <i>i n t u i \u00e7 \u00e3 o<\/i>\u00a0 como a chave do cuidado. A intui\u00e7\u00e3o como um tipo de escuta, um cuidar com, que requer tempo para entender modos e ritmos&#8230; Um imensamente-cuidado, essa aproxima\u00e7\u00e3o-aten\u00e7\u00e3o e fus\u00e3o quase-org\u00e2nica e por vezes quase-estrangeira que descobrimos quase-inata em n\u00f3s, que tiramos da caixola, da cartola, que vestimos quando seguramos a filha no colo, quando sentimos seu cheiro que ativa nossos horm\u00f4nios mam\u00e1rios. Para outros essa quebra n\u00e3o acontece t\u00e3o claramente, e a filha ou filho entra mais rapidamente na composi\u00e7\u00e3o de um mundo mais perto eu diria de um \u201ccomo era, como eu fazia\u201d. Ou \u00e9 que aquela zona de atravessamento grav\u00eddico eu diria, de intensidades hormonais, dura menos e \u00e9 enquadrada tamb\u00e9m na temporalidade da produ\u00e7\u00e3o. (Ai!) Cada uma de n\u00f3s vive uma configura\u00e7\u00e3o diferente, ora similar, de retorno ao ritmo de trabalho depois de parir.<\/p>\n<p>A filha o filho ao desprogramarem o sentido das coisas, pedindo intui\u00e7\u00e3o e cuidado, demandam tamb\u00e9m o descobrir, o inventar, o brincar, \u2026 virar ao avesso, sujar, desfazer, rimar, mimar, molhar, montar, desmontar, destruir&#8230; E olhar bem bem de perto. Estressar ou intensificar o tempo do cuidado me parece que \u00e9 parte da resist\u00eancia ao nivelamento de nossas a\u00e7\u00f5es num tempo \u00fanico e produtivista, \u00e9 parte da pluraliza\u00e7\u00e3o dos tempos, e da recomposi\u00e7\u00e3o, ou de uma inclus\u00e3o, como diz Federici, na luta por uma liberta\u00e7\u00e3o das amarras do mundo pr\u00e9-concebido da produtividade do capital do qual as filhas e os filhos n\u00e3o precisam automaticamente fazer parte&#8230; Um arco grande, mas vamos l\u00e1.<\/p>\n<p><i>((&#8230;E sim, acho que isso tudo tem muito a ver com o cuidado. E acho que trazer tudo isso de volta pro corpo, prum corpo hiperafetado e atravessado pela temporalidade infante \u00e9 sim revolucion\u00e1rio. A micro-revolu\u00e7\u00e3o que eu escolhi me engajar. <\/i>\u2026 <i>No Mignolo(******) que eu te mandei, a simples exist\u00eancia infante j\u00e1 \u00e9 por si s\u00f3 uma desobedi\u00eancia epist\u00eamica radical.))<\/i><\/p>\n<p>\u2026\u00a0 uma desobedi\u00eancia epist\u00eamica radical<\/p>\n<p><b>Individualidade e reprodu\u00e7\u00e3o do movimento\u00a0<\/b><\/p>\n<p>Voltando ao relato da minha experi\u00eancia, nos primeiros tempos em que a coisa foi pegando, em que j\u00e1 n\u00e3o podia procrastinar o fato de que estava na hora de trabalhar (de recuperar algo dessas linhas de continuidade, de v\u00ednculo, que nunca se perderam, mas que definitivamente se enfraqueceram, era hora de fazer dinheiro) eu produzia uma esp\u00e9cie de estresse incontrol\u00e1vel. O estresse vinha de tentar evitar a sensa\u00e7\u00e3o de negar, por n\u00e3o poder estar com a filha por ter que trabalhar, como se eu tivesse negando ela mesma&#8230; O estresse e o sofrimento que surgiu teve que assumir uma individualidade necess\u00e1ria. Afinal, na interrup\u00e7\u00e3o de um modo de ser em vias de recomposi\u00e7\u00e3o nessa transmuta\u00e7\u00e3o para uma m\u00e3e-que-trabalha ficamos pescando sapo, comendo mosca, movendo-se sem saber por onde. Aqui apareceu para mim algo importante: a recomposi\u00e7\u00e3o da invidualidade faz parte da maternidade\/paternidade, visto que n\u00e3o \u00e9 um abandono da filha, e \u00e9 o cuidado em si de si, que tampouco \u00e9 diretamente um \u201cvoltar ao que se era\u201d (como eu resisto a essa imagem!).<\/p>\n<p>Exemplo disso: em Londres a artista Andrea Francke transformou, como parte de seu trabalho final de Mestrado, a galeria da faculdade de artes em uma creche. Um espa\u00e7o aberto portanto aos pais e \u00e0s crian\u00e7as. Queria eu que essa creche seguisse dispon\u00edvel, como espa\u00e7o de pesquisa e de produ\u00e7\u00e3o, em que potencialmente pud\u00e9ssemos compartilhar nossas quest\u00f5es maternais? (E materiais!) Preocupa\u00e7\u00e3o: ainda que radical a proposta, eu n\u00e3o poderia, por exemplo ancorar naquela viv\u00eancia a produ\u00e7\u00e3o do que me cabe agora, minha responsabilidade, minha auto-explora\u00e7\u00e3o, minha \u201ccontribui\u00e7\u00e3o ao conhecimento\u201d, meu doutorado. Eles dependem de um certo isolamento, e dessa ressignifica\u00e7\u00e3o-recomposi\u00e7\u00e3o em curso.<\/p>\n<p><i>H a n n a h<\/i>. Eu s\u00f3 escrevo porque ela est\u00e1 longe de mim, na creche, outro lado da rua (ou ali dormindo, sono bom de crian\u00e7a a crescer). Se escrevo junto com ela escrevo outro texto. Fazemos desenhos e desenhos, bolinhas, pontinhos, perseguimos linhas, e <i>around<\/i> e <i>around<\/i>. Se fa\u00e7o carinha, ela j\u00e1 completa com pernas e bra\u00e7os, e boca, se n\u00e3o tiver. E cabelos, como dizcab\u00ea\u00ea\u00ealo!<\/p>\n<p>Quando escrevo, escrevo junto com ela aqui, como parte da minha realidade, claro. Quero escrever junto com ela, com ela em mim, mas temo que escrevo para o mundo adulto, esse mundo estranho, esse mundo cuja seriedade me faz rir. A filha vem de um hiper\u00edntimo, um hiperjunto, e ajuda a estranhar o mundo, com o qual copulo depois; mundo com o qual me identifico, e que tamb\u00e9m desejo. Voltando \u00e0quela recomposi\u00e7\u00e3o, percebo que o cuidado, portanto, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 com a filha, mas com a m\u00e3e e o pai nessa nova passagem de mundo, com o mundo que se recomp\u00f5e. Da m\u00e3e se fala bastante da depress\u00e3o p\u00f3s-parto, esse mist\u00e9rio que n\u00e3o est\u00e1 nas cal\u00e7adas, que \u00e9 calcado aos espa\u00e7os \u00edntimos, e ao indiz\u00edvel, visto que se torna indecifr\u00e1vel se n\u00e3o assumimos a dimens\u00e3o m\u00e1gica e espiritual da maternidade. Mas e depois, como cuidamos uns dos outros, pais, m\u00e3es, crian\u00e7as? Seguimos&#8230; A economia do cuidado na luz do dia se torna um diagrama a puxar linhas e linhas de subjetiva\u00e7\u00e3o, friccionando superf\u00edcies de singularidade, abrindo companheirismos num comum (aquela comunidade imprevis\u00edvel de pais e m\u00e3es, e av\u00f3s, e tios, e cuidadores, claro).<\/p>\n<p>A gravidez, assim como a maternidade e a paternidade s\u00e3o, afinal, coisas ordin\u00e1rias. O comum, por sua vez, n\u00e3o pode ser o comum s\u00f3-dos-que-tem-filho. Como informar, como passar, como recompor o mundo dos-que-tem-filho com o mundo dos-que-n\u00e3o-tem? Ser\u00e1 que \u00e9 dessa maneira que o problema se coloca? Ou \u00e9 mais como fala Federici, uma capacidade de colocar em linhas de liberta\u00e7\u00e3o e composi\u00e7\u00e3o social um modo de reprodu\u00e7\u00e3o social (todo movimento precisa encontrar a maneira de se reproduzir, diz ela). Politizar a maternidade e a paternidade, nesse sentido, \u00e9 um trabalho vocabular, depende de muita conversa, depende de muita troca. Depende de abrir frentes com o mundos alheios vizinhos, as outras forma de copular e de familiar, de lesbicar, de prostituir e de multiplicar. Depende de fazer cuidar, de fazer pensar no cuidar. Mas como? Num estado de mundo em que tudo se acelera, n\u00e3o sei se \u00e9 poss\u00edvel n\u00e3o se posicionar e dizer, olha, a temporalidade aqui \u00e9 outra. E n\u00e3o s\u00f3 tempo linear (como dito antes, para que n\u00e3o sejamos escravos da produtividade), mas a fun\u00e7\u00e3o ou a significa\u00e7\u00e3o. A filha muda molecularmente o mundo porque ela est\u00e1 junto tamb\u00e9m nessa nova forma de ver o mundo, ela \u00e9 processo est\u00e9tico, estetizante, ela desacelera a produtividade de um por fazer, e repolizita outras urg\u00eancias. Quando se diz que \u00e9 tempo de cuidado, \u00e9 tempo de para endere\u00e7ar (e soltar) uma produ\u00e7\u00e3o do mundo. Um chamado a recompor a est\u00e9tica de um mundo (pol\u00edtico, sobretudo), do que faz parte fazer\/trazer esse texto para c\u00e1: vocabular, brincar, vocavulvar, vocavular.<\/p>\n<p>Vou busc\u00e1-la no final da tarde na creche. Meu corpo atravessado pelas leituras, pelos mundos que me desvelam e me desconstroem, fica meio desconcertado. Acho que vivemos como pais uma constante reintegra\u00e7\u00e3o e desintegra\u00e7\u00e3o da identidade&#8230; Na porosidade dos movimentos adultos que me constituem, o movimento de ir busc\u00e1-la acopla e desacopla peda\u00e7os sem nunca dar tempo de lavar tim tim por tim tim cada anota\u00e7\u00e3o feita. O dia faz-se fragmentado. O corpo tamb\u00e9m. E de alguma maneira essa emo\u00e7\u00e3o de t\u00ea-la silencia tantos outros atravessamentos! J\u00e1 n\u00e3o me importo. Descortina-se de novo o mundo adulto&#8230; Encontro seu corpo pequeno e aparentemente fr\u00e1gil, ora mais feliz e suado, ora mais saudoso e manhoso. Ela me leva para o buraco do coelho (coisa que encontramos no gramado ao lado do jardim da creche). Enfia o p\u00e9 no buraco. Eu evito n\u00e3o dizer o que me vem logo \u00e0 boca: \u201ccuidado com a cabe\u00e7a do coelho!\u201d, ela, afinal, n\u00e3o teme pisar nele ou numa minhoca. Ali mora a touperia, ela diz. Ela quer ver a toupeira! <i>I wanna see the mole! <\/i>E sorri.<\/p>\n<p>Vou busc\u00e1-la no movimento integrat\u00f3rio <i>puzzle like<\/i> que n\u00e3o consegue complementar uma coisa e outra, mas que vai me encontrando de novo com ela no caminho &#8211; eu me encontrando comigo e com ela &#8211; , diante de outras crian\u00e7as, cuidores, pais. A filha puxa um fio terra-cora\u00e7\u00e3o, e devires, e devires&#8230; Quantas das minhas inseguran\u00e7as, das minhas d\u00favidas incompletas silenciam n\u00e3o porque perdem o sentido por completo, mas porque ganham outra configura\u00e7\u00e3o no cuidado que ela me traz, como parte da suavidade mesma de sua pequena exist\u00eancia?<\/p>\n<p>(*) Situa\u00e7\u00e3o do projeto do Renda M\u00ednima Sal\u00e1rio Social no Brasil hoje<\/p>\n<p>(**) O programa Bolsa Fam\u00edlia existe no Brasil h\u00e1 dez anos. Hoje em dia cerca de 20,6 bilh\u00f5es (0,5% do PIB) de reais s\u00e3o pagos a 14,1 milh\u00f5es de fam\u00edlias (o Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Social estima o benef\u00edcio direto de cerca de 50 milh\u00f5es de pessoas).<\/p>\n<p>(***) Entrevista com Walkiria Le\u00e3o Rego, que publicou um livro junto a Alesandro Pinzani sobre o Bolsa Fam\u00edlia (\u201cVozes do Bolsa fam\u00edlia\u201d, 2013)<\/p>\n<p>(*****) Silvia Federici, <i>Precarious Labor: A Feminist Viewpoint.<\/i><\/p>\n<p>(******) Walter D. Mignolo. <i>Desobedi\u00eancia epist\u00eamica. A op\u00e7\u00e3o decolonial e o significado da identidade em pol\u00edtica<\/i>.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p>Federici, Silvia. <i>Precarious Labor: A Feminist Viewpoint<\/i> (2008). Variant e The Journal of Aesthetics and Protest. <a href=\"http:\/\/www.variant.org.uk\/37_38texts\/Variant37.html#L9\">http:\/\/www.variant.org.uk\/37_38texts\/Variant37.html#L9<\/a><\/p>\n<p>Federici, Silvia. <i>Feminism And the Politics of the Commons<\/i>. (2010) The Commoner.org<\/p>\n<p>Hirata, Helena; Laborie, Fran\u00e7oise; le Doar\u00e9, H\u00e9l\u00e8ne; Senotier, Dani\u00e8le. (org.) <i>Dicion\u00e1rio Cr\u00edtico do Feminismo. <\/i>(2009)<\/p>\n<p>La C\u00e9lula Armada de Putas Hist\u00e9ricas. <i>Primer comunicado de la C\u00e9lula Armada de Putas Hist\u00e9ricas<\/i> <a href=\"http:\/\/vimeo.com\/91641696\">http:\/\/vimeo.com\/91641696<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.diagonalperiodico.net\/andalucia\/23274-la-brigada-informacion-como-mortadelo-y-filemon.html\">https:\/\/www.diagonalperiodico.net\/andalucia\/23274-la-brigada-informacion-como-mortadelo-y-filemon.html<\/a><\/p>\n<p>Precarias a La Deriva. <i>A la deriva por los circuitos de la precariedad femenina<\/i>. (2003) Madrid: Traficantes de Sue\u00f1os<\/p>\n<p>SOF \u2013 Sempreviva Organiza\u00e7\u00e3o Feminista, <i>Cuidado, Trabalho e Autonomia das Mulheres<\/i> (2010). Cadernos Semprevida.<\/p>\n<p>Este texto \u00e9 parte do livro-projeto Vocabul\u00e1rio pol\u00edtico para processos est\u00e9ticos. Para ver esse texto no Livro e para acessar o site do projeto clique [aqui]<\/p>\n ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Infraestrutura: maternidade \/ paternidade \/ economia do cuidado \/ trabalho Cristina Ribas | ((com par\u00eantesis de Barbara Lito)) &nbsp; &#8220;Estamos dispostos a fazer algo pelas futuras gera\u00e7\u00f5es? 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