{"id":226,"date":"2021-02-12T02:21:08","date_gmt":"2021-02-12T05:21:08","guid":{"rendered":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/?p=226"},"modified":"2021-02-12T02:21:08","modified_gmt":"2021-02-12T05:21:08","slug":"sob-uma-raiz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/sob-uma-raiz\/","title":{"rendered":"Sob uma raiz"},"content":{"rendered":"<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: large\"><i>Sob uma raiz<\/i><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Quando o cabelo inverte para o outro lado onde n\u00e3o estava eu acordo com as mulheres que n\u00e3o acordam suas filhas corpo contra a gravidade e elas d\u00e3o um beijo na testa de suas filhas e talvez uma delas seja a enfermeira e outra a cobradora e eu rolo no tapete da sala antes da hora do banho dessa vez sem o segundo tatame embaixo. O tapete \u00e9 felpudo um pouco gelado umidade de fora rolamos juntas eu e minha filha eu rolo um pouco mais procurando encostar o peda\u00e7o da nuca que nunca encosta e de novo vem pra mim quem acorda as filhas das mulheres que n\u00e3o acordam suas filhas? <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Construir sua pr\u00f3pria vida, construir algo de vivo, n\u00e3o somente com os pr\u00f3ximos, com as crian\u00e7as &#8211; seja numa escola ou n\u00e3o &#8211; com amigos, com militantes, mas tamb\u00e9m consigo mesmo, para modificar, por exemplo, sua pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o com o corpo, com a percep\u00e7\u00e3o das coisas.* Um homem escreveu surrupiei a sua percep\u00e7\u00e3o para a povoar com meu corpo exist\u00eancia de mulher e outro que disse de uma relacionalidade infinita. Ele, o de antes, pergunta se isso seria como diriam alguns desviar-se das causas revolucion\u00e1rias mais fundamentais. Preocupa\u00e7\u00e3o de quem e como as causas urgentes atravessando a escrita de um homem uma mulher se apropria das sensa\u00e7\u00f5es comuns como emoliente feita de toque e morna ao mesmo tempo em que ela desenvolve maneiras desenhadas na pressa de descascar batatas. Relacionalidade infinita dan\u00e7a improviso mutabilidade modula\u00e7\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Uma contagem da vida anonimicamente n\u00e3o sabemos muito bem quem produz os gr\u00e1ficos das vidas an\u00f4nimas que morrem diante da gente em gr\u00e1fico morrem diante das mulheres que n\u00e3o acordam suas filhas o meu medo a minha cama por cima de tudo meu sonho por baixo de tudo isso vivemos nas cidades das vidas an\u00f4nimas e os corpos dos outros s\u00e3o servi\u00e7os para os nossos. Mas agora as valas de terra solta corpos dos que nunca queremos ver chove e lava os corpos mortos penetr\u00e1veis superf\u00edcies que s\u00e3o fechadas em sistemas de corpos internos neurotizados a doen\u00e7a para dentro. Asfixia aumentada aliena\u00e7\u00e3o em gr\u00e1fico especialistas de mortes (homens de gravata).<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Posso respirar quando chove muito eu lembro que essa cidade \u00e9 charco e caminho nas ruas pisando em sementes secas para provocar um craca como aquela do sonho em que a chuva corrompia o cimento duradouro desse pr\u00e9dio onde me penduro como c\u00e9lula macia. Abrir a terra era inevit\u00e1vel eu dizia mas as pilastras estavam seguras o som de cada gota de chuva do lado de fora a chuva desenha um ritual em que o desaguar da nuvem \u00e9 o lugar de cada morte. Cada morte n\u00e3o posso respirar. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Uma nesga de sol um longo inverno disse outro homem que agora tem medo do fora se encastela para viver depois do inverno. Fecho os olhos e vejo pequenas sementes desperdi\u00e7adas nos len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos paredes de cimento que secam a terra por dentro uma cova para uma \u00e1gua brotada um teto que pinga tamb\u00e9m dentro da casa alguma coisa alguma comunidade imaginada de realidade comum de corpos quentes e n\u00e3o dos corpos que v\u00e3o ou dos corpos que se evitam. Na urg\u00eancia quer\u00edamos uma comunidade de parideiras de mulheres que gozam que abortam e que cuidam. Os filhos doentes do patriarcado s\u00e3o cuidados por quem agora? No abrigo-confinamento a crise dos cuidados a povoar a crise dos cuidados a povoar o invisibilizado em todo e qualquer canto, em toda e qualquer c\u00e9lula dom\u00e9stica alguns podem mais algumas sofrem mais algumas m\u00e3es chegam em casa e n\u00e3o podem beijar suas filhas. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Nas costas de mim, nos bolsos do macac\u00e3o, as cascas de frutas secas nos meus bolsos sun day s as cascas laranja a casa e as cores mornas a luz baixa e aquela pedra esculpida com um nome na lateral da igreja g\u00f3tica ao mesmo tempo introduzindo o cemit\u00e9rio todo no topo de Glasgow. In the memory of Sundays era um homem ou era um ritual pag\u00e3o que ocupava ali mesmo do lado da igreja um peda\u00e7o de ch\u00e3o terrenal proje\u00e7\u00e3o de tempos infinitos. Em casa eu viajo nas paisagens onde olhava para longe procurando quase como se conseguisse perfurar a nuca e expandir espa\u00e7o sem teto sobre a cabe\u00e7a onde eu nem sabia que precisaria tanto, agora.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Se eu molhar as cascas secas das frutas com as gotas das chuvas eu vou embora de mim mesma em mat\u00e9ria m\u00e1gica. Vai embora tamb\u00e9m um moi id\u00e9al e un id\u00e9al de moi impressa na tela de proje\u00e7\u00e3o virtual procurando olhar sem ser frontal (imposs\u00edvel). Something like that \u00e1gua por tudo \u00e1gua nos meus olhos \u00e1gua por tudo dizem que o v\u00edrus habitava as \u00e1guas sujas antes mesmo de brotar parasita em um pulm\u00e3o polu\u00eddo o v\u00edrus sem saber esperava uma brecha as condi\u00e7\u00f5es ambientais um ac\u00famulo de toxinas. Mas estou no lugar que deveria estar anoto coisas do tipo quando h\u00e1 tempo de anotar como mandalas em palavras. Rabiscos de ritual tra\u00e7os cascas. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Choveu tanto. As \u00e1rvores seguram o limite do len\u00e7ol fre\u00e1tico Domingos un hombre de mucos hablaba por abajo de las sabanas un operario preso na constru\u00e7\u00e3o do canal por all\u00ed h\u00famedo y aun vivo de manos verdes puro limo, algas y hongos el me llama a bajar al canal unos 12 metros abajo de mi ventana. Domingos para ver as formas incompletas de vida e de prote\u00edna que cruzam em alta velocidade os sub\u00farbios das \u00e1guas umedecem a carne da cama o len\u00e7ol toca por uma fina camada gelada faz uma ponte \u00famida do meu corpo com o len\u00e7ol fre\u00e1tico.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">A Canaf\u00edstula frondosa me conhece mais que eu habita toda a janela do quarto e carinha minha alma acompanho com ela as cores do dia e ela \u00e9 um filtro manso das transi\u00e7\u00f5es dos dias o silencioso canal aterrado entre as ruas que descem do Mont&#8217;serrat eu sou a mulher branca do 308 que enumera amorosamente as casas de madeira que existem ainda sobrevivem na vizinhan\u00e7a como hongos coloridos de um outro modo de habitar e os meus vizinhos negros que eu n\u00e3o conhe\u00e7o da hist\u00f3ria do bairro das cal\u00e7adas de arenito vermelho que eu queria lamber. Os meus vizinhos das casas de madeira n\u00e3o v\u00e3o subir para o quinto andar de um pr\u00e9dio de granito marrom que canalizou o len\u00e7ol Sun days um v\u00f4o no espa\u00e7o a\u00e9reo da Canaf\u00edstula. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Eu tenho outro sonho dessa vez com un hombre de la casa curativa habitava uma casa azul como nas paredes calcadas do Marrocos que nunca fui manchas azules es ahora y no el hombre de mucos que n\u00e3o pode acordar as suas filhas porque algumas delas nem podem acordar (ele est\u00e1 com os ouvidos tapados ele conversa comigo por gestos). O outro est\u00e1 muito ocupado sua vida entre decis\u00f5es talvez ele leia os gr\u00e1ficos eu espero que ele tenha um tempo entre tantas pessoas que lhe solicitam fecho a tela dos gr\u00e1ficos seguro no colo um beb\u00ea com rosto de menino-homem que me pede amamenta\u00e7\u00e3o como? Interpelada a casa curativa do homem o sonho ainda n\u00e3o \u00e9 a comunidade de parideiras de paredes calcadas de amoroso sangue.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"western\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\"><span lang=\"pt-BR\">Eu rolo no solo esticando um \u00faltimo estalo no pesco\u00e7o desejo sair do sonho vejo algumas plantas aqui em casa e entre as paredes de calc\u00e1rio na umidade as paredes fluxos de sangue fluxos de signo diante da tela evidenciam a vida mais como signo que como vida. Como podem se desfazer de vidas espero desenhando <\/span><\/span><\/span><\/span><span style=\"font-family: Arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\"><span lang=\"pt-BR\">diagramas transformativos olhando uma psych\u00e9 corrompida remendos de realidade os filhos adultos que n\u00e3o abra\u00e7aram seus pais. A minha filha a esperar no banheiro cerrado de n\u00e9voa amplio o peito para pegar um pouco mais de ar e ele est\u00e1 cheio molhado de \u00e1gua o dia acaba abra\u00e7o afago quente e \u00e9 noite de novo debaixo da Canaf\u00edstula.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"western\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\"><span lang=\"pt-BR\">* Sob uma ra\u00edz de uma \u00e1rvore Canaf\u00edstula (<\/span><\/span><\/span><span style=\"font-family: Arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Peltophorum dubium<\/span><\/span><span style=\"font-family: Arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\"><span lang=\"pt-BR\">) ou Ibir\u00e1-pit\u00e1 (Paraguai e na Argentina). \u00c1rvore da fam\u00edlia das Fabaceae. <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"pt-BR\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">**Escritor homem surrupiado: F\u00e9lix Guattari, em Revolu\u00e7\u00e3o Molecular. <\/span><\/span><\/p>\n ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sob uma raiz Quando o cabelo inverte para o outro lado onde n\u00e3o estava eu acordo com as mulheres que n\u00e3o acordam suas filhas corpo contra a gravidade e elas &hellip; <a href=\"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/sob-uma-raiz\/\" class=\"more-link\">Continuar lendo <span class=\"screen-reader-text\">Sob uma raiz<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[14,74,20,22,75,26,76],"class_list":["post-226","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria","tag-maternidade","tag-pandemia","tag-prosa","tag-publicado","tag-sonho","tag-tempo","tag-vida-vegetal"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7SdzS-3E","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/226","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=226"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/226\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":227,"href":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/226\/revisions\/227"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=226"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=226"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=226"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}