{"id":266,"date":"2024-07-17T03:31:59","date_gmt":"2024-07-17T06:31:59","guid":{"rendered":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/?p=266"},"modified":"2025-01-17T09:49:27","modified_gmt":"2025-01-17T12:49:27","slug":"a-lama-que-tudo-engole-ou-a-agua-que-busca-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/a-lama-que-tudo-engole-ou-a-agua-que-busca-terra\/","title":{"rendered":"A lama que tudo engole ou, a \u00e1gua que busca terra"},"content":{"rendered":"<p>Publicado originalmente em <strong>Di\u00e1rio da Enchente<\/strong> <a href=\"https:\/\/diariodaenchente.poa.br\/a-lama-que-tudo-engole-ou-a-agua-que-busca-a-terra-por-cristina-t-ribas\/\">https:\/\/diariodaenchente.poa.br\/a-lama-que-tudo-engole-ou-a-agua-que-busca-a-terra-por-cristina-t-ribas\/<\/a><\/p>\n<p>e em <strong>Des-bordes<\/strong> <a href=\"https:\/\/des-bordes.net\/no-07\/a-lama-que-tudo-engole-ou-a-agua-que-busca-terra\/\">https:\/\/des-bordes.net\/no-07\/a-lama-que-tudo-engole-ou-a-agua-que-busca-terra\/<\/a><\/p>\n<p>vers\u00e3o em <strong>espanhol<\/strong> em <a href=\"https:\/\/des-bordes.net\/no-07\/el-barro-que-se-lo-traga-todo-o-el-agua-que-busca-la-tierra\/\">https:\/\/des-bordes.net\/no-07\/el-barro-que-se-lo-traga-todo-o-el-agua-que-busca-la-tierra\/ <\/a><\/p>\n<p>Maio-Julho de 2024<\/p>\n<p>Chora um pouco todo dia, o que tamb\u00e9m \u00e9 \u00e1gua. Pesquisa a \u00e1gua, porque tudo que molha se torna, em parte, cumplicidade com essa inunda\u00e7\u00e3o. A \u00e1gua da l\u00e1grima cont\u00e9m \u00e1gua, mas \u00e9 mais.<\/p>\n<p>A calamidade \u00e9 um encontro de mundos, mundos que n\u00e3o se tocavam e passam a se atravessar, uns aos outros, a pedir colo, a pedir m\u00e3o, a demandar urg\u00eancia. A sociedade da informa\u00e7\u00e3o se reafirma, na verdade, como sociedade da aliena\u00e7\u00e3o e da desreferencializa\u00e7\u00e3o \u2013 como se j\u00e1 n\u00e3o habit\u00e1ssemos territ\u00f3rio nenhum. De repente, como se ningu\u00e9m estivesse prestando a aten\u00e7\u00e3o suficiente, somos engolidos pela for\u00e7a reintegrativa de Gaia, em suas enxurradas catastr\u00f3ficas.<\/p>\n<p>Os que correram da enxurrada do ciclone de Setembro, e mesmo antes daquela, sabem escutar a intensidade da chuva no telhado, escutam o rio e sabem que \u00e9 hora de sair de suas casas. Mesmo que seja no meio da noite, mesmo que a noite seja incerta\u2026 mesmo que n\u00e3o se saiba quantos dias \u2013 e quantas noites \u2013 tudo aquilo vai durar.<\/p>\n<p>\u00c9 come\u00e7o de Maio de 2024. A cidade onde vivo \u2013 Porto Alegre \u2013 e a regi\u00e3o metropolitana, recebem a \u00e1gua de tr\u00eas bacias hidrogr\u00e1ficas do estado do Rio Grande do Sul. Com chuvas recordes de mais de 300 mm em tr\u00eas dias, o n\u00edvel de diversos rios que alimentam esta bacia sobe tanto que varia de 25 metros em \u00e1reas de serra a cerca de 6 metros em \u00e1reas de plan\u00edcie.<\/p>\n<p>Observo incessantemente as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas porque trabalho a 300 km de dist\u00e2ncia, e numa destas noites viajei sob forte chuva de raios. Sim, o c\u00e9u est\u00e1 caindo, como nos alertam David Kopenawa Yanomami e Ailton Krenak. Um homem morre de raio na noite que viajo, perto do momento em que passamos ao largo da cidade de Santa Cruz do Sul; uma fam\u00edlia morre soterrada naquela mesma noite, a quil\u00f4metros dali, perto de onde me hospedo em Santa Maria \u2013 e os corpos s\u00f3 s\u00e3o encontrados 5 dias depois, debaixo de muita terra molhada. Em meio \u00e0 tempestade parcamente anunciada, o motorista do \u00f4nibus nos leva a Porto Alegre com a urg\u00eancia de salvar seu pr\u00f3prio corpo, como se a velocidade do \u00f4nibus garantisse acordar mais cedo daquele sonho-pesadelo.<\/p>\n<p>Chego em casa com a eletricidade impregnada no corpo. Acordo com a previs\u00e3o das chuvas chegando a Porto Alegre nos pr\u00f3ximos dias. As estradas por onde passamos na noite anterior come\u00e7am a ser sobrepostas por l\u00ednguas finas de \u00e1gua que avan\u00e7am rapidamente. E ent\u00e3o trechos de estradas desaparecem, engolidas pela \u00e1gua que tem tom de barro. A separa\u00e7\u00e3o entre estrada e campo tamb\u00e9m desaparece. Tudo se torna largo e cont\u00ednuo. Pontes come\u00e7am a rachar, e algumas se arrebentam, se quebram como biscoitos gigantes. Pontes que atravessei ca\u00edram.<\/p>\n<p>Poucos dias depois, na cidade da bacia onde vivo, a 15 minutos de bicicleta de minha casa, vou em busca do viaduto que, em meio urbano, se torna ponto de resgate de pessoas que ainda saem de suas casas inundadas ou tornadas inacess\u00edveis pela subida das \u00e1guas \u2013 ali chegam pessoas dos bairros Sarandi, Humait\u00e1, Vila Farrapos, S\u00e3o Geraldo. N\u00e3o, ningu\u00e9m foi alertado pelo poder p\u00fablico sobre a subida real e inundante das \u00e1guas. Me surpreendo com o cheiro de gasolina, os barcos infl\u00e1veis, as \u201cvoadeiras\u201d, as roupas de pesca, a mistura entre civis e policiais. A imensa quantidade de civis resgantando pessoas, animais, o que se conseguiu carregar. A \u00e1gua toma conta da cidade e faz desaparecer tudo o que depende de rodas. A percep\u00e7\u00e3o tenta se ajustar. Sou transportada para a Amaz\u00f4nia, mas falta a floresta. A \u00e1gua pede navega\u00e7\u00e3o, reverte uma territorialidade onde a domin\u00e2ncia era a da terra \u2013 na verdade, do cimento e do asfalto. Transforma\u00e7\u00e3o radical, reviravolta, intrus\u00e3o ou ira de Gaia, como diz Isabelle Stengers.<\/p>\n<p>A cabe\u00e7a viaja entre as proje\u00e7\u00f5es que viemos fazendo \u2013 a subida da temperatura global \u2013 e as cat\u00e1strofes que estamos j\u00e1 vivendo h\u00e1 10, 15 anos no sul do Brasil. O desequil\u00edbrio e a destrui\u00e7\u00e3o se tornam palp\u00e1veis, assim como a raz\u00e3o daquela separa\u00e7\u00e3o e aliena\u00e7\u00e3o entre humanos e o que passamos a chamar de natureza, como se fosse outrem que n\u00e3o n\u00f3s mesmos. N\u00e3o, n\u00f3s n\u00e3o escutamos suficientemente o alarde ora calmo ora desesperado \u2013 e sob extrema viol\u00eancia \u2013 dos povos origin\u00e1rios. <sup class=\"fn\" data-fn=\"49768e52-a489-4647-bd2e-f99625c2cca1\"><a id=\"49768e52-a489-4647-bd2e-f99625c2cca1-link\" href=\"https:\/\/des-bordes.net\/no-07\/a-lama-que-tudo-engole-ou-a-agua-que-busca-terra\/#49768e52-a489-4647-bd2e-f99625c2cca1\">1<\/a><\/sup><\/p>\n<p>Narramos entre n\u00f3s que est\u00e1vamos mas tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1vamos preparados para isto. Afinal sab\u00edamos a previs\u00e3o dada pela destrui\u00e7\u00e3o dos ecossistemas, a equa\u00e7\u00e3o triste resultante da facilita\u00e7\u00e3o das leis ambientais em detrimento da iniciativa privada, a emiss\u00e3o de gases que causam o efeito estufa. O Rio Grande do Sul j\u00e1 foi vanguarda de leis ambientais, agora somos vanguarda de destrui\u00e7\u00e3o catastr\u00f3fica. Meu corpo tenta se sustentar entre diversos futuros colapsados, colapsados em minha frente, comigo.<sup class=\"fn\" data-fn=\"b0039644-6cd1-4d6d-a3d8-321d630e5de7\"><a id=\"b0039644-6cd1-4d6d-a3d8-321d630e5de7-link\" href=\"https:\/\/des-bordes.net\/no-07\/a-lama-que-tudo-engole-ou-a-agua-que-busca-terra\/#b0039644-6cd1-4d6d-a3d8-321d630e5de7\">2<\/a><\/sup><\/p>\n<p>H\u00e1 anos vou meio obsessiva com as \u00e1guas, desenvolvendo cartografias aquosas ou molhadas, como forma de criar coordenadas de situacionalidade, de percep\u00e7\u00e3o territorial, de metodologias e pedagogias cr\u00edticas.<sup class=\"fn\" data-fn=\"fd6e17d6-9bad-4080-9c5f-d102b95b1f78\"><a id=\"fd6e17d6-9bad-4080-9c5f-d102b95b1f78-link\" href=\"https:\/\/des-bordes.net\/no-07\/a-lama-que-tudo-engole-ou-a-agua-que-busca-terra\/#fd6e17d6-9bad-4080-9c5f-d102b95b1f78\">3<\/a><\/sup><\/p>\n<p>Formas de desenhar, de partilhar percep\u00e7\u00f5es, de constituir exist\u00eancia. N\u00e3o consigo me desligar do fato de que a cat\u00e1strofe \u00e9 movida pela for\u00e7a das \u00e1guas \u2013 que v\u00eam do c\u00e9u, que v\u00eam do Oceano Pac\u00edfico, da Amaz\u00f4nia. Essas \u00e1guas \u2013 e aquelas que a floresta guarda \u2013 poderiam estar correndo no meio das matas, descendo sinuosas as corredeiras, umidificando devagar, molecularmente. (Sabedoria e gest\u00e3o das \u00e1guas que a floresta faz\u2026)<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2369\" src=\"https:\/\/des-bordes.net\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/timoteo-fumando-tratada-1024x576.png\" sizes=\"auto, (min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) and (max-width: 980px) 980px, (min-width: 981px) 1024px, 100vw\" srcset=\"https:\/\/des-bordes.net\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/timoteo-fumando-tratada-980x551.png 980w, https:\/\/des-bordes.net\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/timoteo-fumando-tratada-480x270.png 480w\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"576\" \/><\/figure>\n<blockquote>\n<p class=\"has-small-font-size\">Cacique Tim\u00f3teo fuma seu petengu\u00e1 na retomada da Ponta do Arado, \u00e1rea ind\u00edgena retomada por um grupo Maby\u00e1 Guarani, na borda do Rio Guayba em Porto Alegre, Brasil. Still do filme Guat\u00e1, 2022.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Cacique Tim\u00f3teo da etnia Mby\u00e1 guarani, em conversa para o filme Guat\u00e1<sup class=\"fn\" data-fn=\"6c969650-d1eb-4848-85d6-d12765779790\"><a id=\"6c969650-d1eb-4848-85d6-d12765779790-link\" href=\"https:\/\/des-bordes.net\/no-07\/a-lama-que-tudo-engole-ou-a-agua-que-busca-terra\/#6c969650-d1eb-4848-85d6-d12765779790\">4<\/a><\/sup> diz que guay de Guayba \u00e9 como seus av\u00f3s chamavam esse rio \u201cpara todos tomarem \u00e1gua\u201d, sendo \u201cygua\u201d, o lugar onde a gente toma \u00e1gua, onde a \u00e1gua fica concentrada\u201d. Em alguns lugares de Porto Alegre o Guayba veio subindo lentamente, quase que silenciosamente. Em muitos lugares as pessoas n\u00e3o tiveram tempo de sair, como em Canoas. E tamb\u00e9m bairros foram inundados pela absoluta falta de manuten\u00e7\u00e3o dos sistemas de bombas<sup class=\"fn\" data-fn=\"99b877bb-e92a-4c47-9468-55851a6d5714\"><a id=\"99b877bb-e92a-4c47-9468-55851a6d5714-link\" href=\"https:\/\/des-bordes.net\/no-07\/a-lama-que-tudo-engole-ou-a-agua-que-busca-terra\/#99b877bb-e92a-4c47-9468-55851a6d5714\">5<\/a><\/sup> . Nos damos conta de que a subida das \u00e1guas \u2013 do esgoto, e da lama \u2013 em certas regi\u00f5es da cidade n\u00e3o cabe em nossos sistemas cognitivos, naquilo que conhecemos da experi\u00eancia de cidade, e da separabilidade at\u00e9 ent\u00e3o semi-controlada com as \u00e1guas marrons do Guayba.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2370\" src=\"https:\/\/des-bordes.net\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/guata_still-lateral-02-1024x537.png\" sizes=\"auto, (min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) and (max-width: 980px) 980px, (min-width: 981px) 1024px, 100vw\" srcset=\"https:\/\/des-bordes.net\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/guata_still-lateral-02-980x513.png 980w, https:\/\/des-bordes.net\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/guata_still-lateral-02-480x252.png 480w\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"537\" \/><\/figure>\n<blockquote>\n<p class=\"has-small-font-size\">Jorge Morinico e Cacique Tim\u00f3teo caminham na retomada da Ponta do Arado, \u00e1rea ind\u00edgena retomada por um grupo Maby\u00e1 Guarani, na borda do Rio Guayba em Porto Alegre, Brasil. Still do filme Guat\u00e1, 2022.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>No fluxo das \u00e1guas, a terra toda se amolece, terra que se move. Em meio \u00e0 enxurrada e a \u00e1gua que chega por todos os lados, vou obsessiva com os mapas, com medi\u00e7\u00f5es e alturas de terreno, com mil\u00edmetros de chuva. Metro a metro, quarteir\u00e3o a quarteir\u00e3o, uma cidade que se reconhece em suas vizinhan\u00e7as \u2013 e, sobretudo \u2013 com as \u00e1guas lamacentas e, agora, tamb\u00e9m dos esgotos. Alguns de n\u00f3s com acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, apavorados, prescrevendo o horror, outros sem nem saber que estariam embevecidos do horror, sem saber nadar, sem poder fechar a porta de casa (a porta que j\u00e1 n\u00e3o precisar\u00e1 de chave, visto que logo mais ser\u00e1 devassada pela for\u00e7a das \u00e1guas \u2013 e do lixo). 600 mil pessoas tem que sair de suas casas.<sup class=\"fn\" data-fn=\"a6f5b1e8-2968-403c-98b7-1ca712daa46e\"><a id=\"a6f5b1e8-2968-403c-98b7-1ca712daa46e-link\" href=\"https:\/\/des-bordes.net\/no-07\/a-lama-que-tudo-engole-ou-a-agua-que-busca-terra\/#a6f5b1e8-2968-403c-98b7-1ca712daa46e\">6<\/a><\/sup><\/p>\n<p>As \u00e1guas carregam tudo mais, convulsionam. Penetram ora lentas ora violentas. Se tornam barrentas, lodosas, n\u00e3o conseguimos saber dos corpos que caem, que rolam, a galharia, os pl\u00e1sticos, os peda\u00e7os de carros, de concreto, de muros inteiros carregados, de a\u00e7o. O pl\u00e1stico desenha percursos, rastros de um modo de vida. O volume se agiganta, a sensa\u00e7\u00e3o de uma transforma\u00e7\u00e3o estrutural. O Gua\u00edba sendo o receptor imenso dessas \u00e1guas confusas, \u00e1guas que buscam terra, que correm como se procurassem um leito<sup class=\"fn\" data-fn=\"e4318550-f6c6-4bfb-abb1-b28cee80cffa\"><a id=\"e4318550-f6c6-4bfb-abb1-b28cee80cffa-link\" href=\"https:\/\/des-bordes.net\/no-07\/a-lama-que-tudo-engole-ou-a-agua-que-busca-terra\/#e4318550-f6c6-4bfb-abb1-b28cee80cffa\">7<\/a><\/sup> , algo que as contenha. Tememos a putrefa\u00e7\u00e3o de tudo o que \u00e9 vivo, que rec\u00e9m morre, o que desce a serra, ou a serra descendo. Tememos a \u00e1gua que beberemos.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2371\" src=\"https:\/\/des-bordes.net\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/20240613_142358-768x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"768\" height=\"1024\" \/><\/figure>\n<blockquote>\n<p class=\"has-small-font-size\">Imagem: Eduardo Seidl. Porto Alegre, Brasil.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Aquilo que as \u00e1guas carregam se torna mat\u00e9ria desconhecida, espectro de vida em transforma\u00e7\u00e3o. A enxurrada se torna monstruosa, \u00e9 lama antropoc\u00eanica \u2013 e antropog\u00eanica. \u00c9 lama de part\u00edculas, lama desconhecida, que tudo engulfa e a tudo encobre. Outra pandemia. Quando a \u00e1gua baixa, regorgita essa mat\u00e9ria estranha, irreconhec\u00edvel. \u00c9 uma lama indigesta de Gaia \u2013 ou ser\u00e1 que ela vai conseguir engolir tudo isto de novo?<\/p>\n<p>De volta \u00e0quele viaduto amaz\u00f4nico-em-porto-alegre, encontro uma cidade dos comuns.<sup class=\"fn\" data-fn=\"baf1f1b1-f191-400d-9462-55e6fb32adce\"><a id=\"baf1f1b1-f191-400d-9462-55e6fb32adce-link\" href=\"https:\/\/des-bordes.net\/no-07\/a-lama-que-tudo-engole-ou-a-agua-que-busca-terra\/#baf1f1b1-f191-400d-9462-55e6fb32adce\">8<\/a><\/sup> Uma cidade onde n\u00e3o \u00e9 preciso comprar nada, todos os bens foram exproriados, alimentos, roupas, rem\u00e9dios, acolhimento, gasolina para barcos. Transporte, telefone, l\u00e1grimas compartilhadas. Ali tudo \u00e9 comum, sem dono, sem etiqueta, sem cart\u00e3o de cr\u00e9dito. A recep\u00e7\u00e3o para os desabrigados inaugura um mundo que sempre evitamos instalar: um mundo onde dividimos tudo, onde j\u00e1 n\u00e3o somos donos de nada.<\/p>\n<p>A convuls\u00e3o das \u00e1guas e a f\u00e1brica irrefre\u00e1vel de lama exp\u00f5em e pedem uma reorganiza\u00e7\u00e3o de tudo, por isto exp\u00f5em a n\u00f3s mesmos nosso modo de vida explorat\u00f3rio e indigesto \u2013 para Gaia. Os mundos que s\u00e3o reorganizados pela revolta de Gaia apresentam todas as diferen\u00e7as \u2013 sobretudo da gritante riqueza que vivemos. Mas a abund\u00e2ncia n\u00e3o est\u00e1 para todos igualmente. H\u00e1 aqueles que t\u00eam carros 4 x 4 e podem resgatar quem precisa abandonar suas casas, h\u00e1 aqueles que n\u00e3o t\u00eam botas de galocha para se livrar da leptospirose. A lama confusa \u00e9, literalmente, a desorganiza\u00e7\u00e3o que impusemos a essa terra em comum.<\/p>\n<p>Debaixo do viaduto dos resgates, no abrigo tempor\u00e1rio, na cozinha solid\u00e1ria, quanto duram nossas utopias?<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2372\" src=\"https:\/\/des-bordes.net\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/20240530_112035-768x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"768\" height=\"1024\" \/><\/figure>\n<blockquote>\n<p class=\"has-small-font-size\">Imagem: Eduardo Seidl. Porto Alegre, Brasil.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Dormindo entre sons de helic\u00f3ptero que resgatam incessantemente, acordamos inc\u00f3gnitos de que calcularemos o impacto da chuvarada em perdas de capital. (Quem poderia estar lucrando, afinal\u2026?). E sim, evidentemente, h\u00e1 pessoas sem trabalho, sem renda, sem alimento.<sup class=\"fn\" data-fn=\"8dea0370-bb06-4cea-9ec7-108f00d8254c\"><a id=\"8dea0370-bb06-4cea-9ec7-108f00d8254c-link\" href=\"https:\/\/des-bordes.net\/no-07\/a-lama-que-tudo-engole-ou-a-agua-que-busca-terra\/#8dea0370-bb06-4cea-9ec7-108f00d8254c\">9<\/a><\/sup> Na cidade grande a barb\u00e1rie continua. Desenha-se uma cidade tempor\u00e1ria para os desabrigados de suas casas enlodadas e demolidas. Um verdadeiro campo de refugiados. Concebe-se que o lix\u00e3o ser\u00e1 tamb\u00e9m na mesma regi\u00e3o \u2013 zona norte de Porto Alegre. Multiplicam-se as cat\u00e1strofes. A calamidade para alguns \u00e9, afinal, mais um modo de afirmar poder. E a m\u00e1 gest\u00e3o p\u00fablica \u00e9 uma recalcitr\u00e2ncia do suprimento de direitos b\u00e1sicos. \u00c9 absoluta fal\u00eancia programada, estado neoliberal que facilita tudo para o lucro privado. O di\u00e1rio da enchente n\u00e3o p\u00e1ra de transbordar, e a inunda\u00e7\u00e3o \u00e9 tanta, a perda \u00e9 t\u00e3o profunda, que ira e a incorformidade demoram para se instalar.<\/p>\n<p>Olho ao redor e encontro meu corpo \u00edntegro, ainda, mas meus olhos, mais que embebidos em \u00e1guas, agora reconhecem o tra\u00e7o da lama em qualquer lugar \u2013 lama impregnada, paredes desenhadas, n\u00edveis de inunda\u00e7\u00e3o. A doen\u00e7a que somos, nosso modo de vida n\u00e3o-ind\u00edgena, somos engolidos por \u00e1gua-e-terra. As \u00e1guas baixam \u2013 mas nunca sem a amea\u00e7a de subir novamente a qualquer momento. A lama que tudo recobre nos asfixia. Devolve casas, bairros, f\u00e1bricas, ateli\u00eas, hortas, todas destru\u00eddas. O lodo nos gera repulsa, mat\u00e9ria amorfa e n\u00e3o desejada que \u00e9 o resultado da equa\u00e7\u00e3o que nunca quisemos encontrar.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2373\" src=\"https:\/\/des-bordes.net\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/20240602_141542-768x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"768\" height=\"1024\" \/><\/figure>\n<blockquote>\n<p class=\"has-small-font-size\">Imagem: Eduardo Seidl. Porto Alegre, Brasil. @fototaxia<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Desejamos que Gaia fa\u00e7a algo, que consuma esta lama. Que a reabsorva, mas ela \u00e9 lixo sem categoria, descarte descomunal daquilo que produzimos \u2013 e tamb\u00e9m das nossas vidas feitas em objetos, mem\u00f3rias, m\u00e1quinas, produtos, bens, conforto. A lama regorgitada por Gaia \u00e9 mat\u00e9ria desconhecida, artificial, miscigenada, indistingu\u00edvel. Dependemos de Gaia, de uma transforma\u00e7\u00e3o intensiva. Desejamos que reaproveite nossas sobras \u2013 e que nos devolva algo depois de atravessarmos essa camada espessa. Talvez uma terra seca e firme para pisarmos e habitarmos, uma \u201cterra sem males\u201d \u2013 yvy mara\u0303e\u2019y \u2013 como buscam e nos ensinam os Mby\u00e1 guarani. Mas Gaia sabe, apenas teremos direito se bem soubermos andar \u2013 ou ser\u00e1 navegar \u2013 por estas terras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*Para Hannah e Lucas, e muitos companheires com quem caminhamos nesta terra.<\/p>\n<p>Ref. Isabelle Stengers. <em>No tempo das cat\u00e1strofes. Resistir \u00e0 barb\u00e1rie que se aproxima<\/em>. S\u00e3o Paulo: Cosac &amp; Naify, 2015.<\/p>\n ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado originalmente em Di\u00e1rio da Enchente https:\/\/diariodaenchente.poa.br\/a-lama-que-tudo-engole-ou-a-agua-que-busca-a-terra-por-cristina-t-ribas\/ e em Des-bordes https:\/\/des-bordes.net\/no-07\/a-lama-que-tudo-engole-ou-a-agua-que-busca-terra\/ vers\u00e3o em espanhol em https:\/\/des-bordes.net\/no-07\/el-barro-que-se-lo-traga-todo-o-el-agua-que-busca-la-tierra\/ Maio-Julho de 2024 Chora um pouco todo dia, o que tamb\u00e9m \u00e9 \u00e1gua. Pesquisa &hellip; <a href=\"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/a-lama-que-tudo-engole-ou-a-agua-que-busca-terra\/\" class=\"more-link\">Continuar lendo <span class=\"screen-reader-text\">A lama que tudo engole ou, a \u00e1gua que busca terra<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[100,36,101,34,99,20,27],"class_list":["post-266","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria","tag-aguas","tag-heterocapitalismo","tag-hidrocartografia","tag-macropolitica","tag-mudanca-climatica","tag-prosa","tag-territorio"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7SdzS-4i","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/266","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=266"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/266\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":267,"href":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/266\/revisions\/267"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=266"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=266"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=266"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}