{"id":37,"date":"2010-08-07T18:53:57","date_gmt":"2010-08-07T21:53:57","guid":{"rendered":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/?p=37"},"modified":"2018-10-17T20:22:38","modified_gmt":"2018-10-17T23:22:38","slug":"camuflagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/camuflagem\/","title":{"rendered":"Camuflagem"},"content":{"rendered":"<p>Camuflagem: <\/p>\n<p>Reli um peda\u00e7o do Jacques Derrida: <\/p>\n<blockquote><p>(&#8230;) g\u00eanero daqueles que t\u00eam lugar, por natureza e por educa\u00e7\u00e3o. V\u00f3s sois, pois, ao mesmo tempo fil\u00f3sofos e pol\u00edticos. (&#8230;) estrat\u00e9gia (&#8230;) de S\u00f3crates (&#8230;) desnorteante (&#8230;) enlouquecedora (&#8230;) simula colocar-se entre aqueles que simulam (&#8230;) pertencer ao genos daqueles cujo genos consiste em simular (&#8230;) a pertin\u00eancia a um lugar e a uma comunidade (&#8230;) <\/p><\/blockquote>\n<p>Na atualidade, artistas n\u00e3o exatamente se caracterizam estritamente enquanto tais. Suas a\u00e7\u00f5es fazem migrar entre si fatos est\u00e9ticos da cr\u00edtica \u00e0 pol\u00edtica, desenvolvendo aprendizagens, tornando-se organizadores, educadores, gestores, historiadores, mediadores, entre outros. Novos corpos surgem nesses agenciamentos. Eventos recentes no terreno do Brasil exp\u00f5em a constitui\u00e7\u00e3o de uma especificidade na forma de \u201cesferas p\u00fablicas\u201d tempor\u00e1rias e fragment\u00e1rias, sem esquecer que se tratam de proposi\u00e7\u00f5es com especialidades pr\u00f3prias. Importam nas \u201cesferas p\u00fablicas\u201d as intensas trocas sociais instigadas entre participantes n\u00e3o identificados estritamente a um campo ou circuito comum de produ\u00e7\u00e3o cultural, mas a ele associados pela via direta das pr\u00e1ticas, que hoje se abrem entre art\u00edsticas, comunicativas e expressivas, para desenvolverem problem\u00e1ticas sociais vividas por todos. A esfera p\u00fablica se inscreve, necessariamente, em um \u201conde\u201d, como quest\u00e3o.<\/p>\n<p>A\u00e7\u00f5es neste \u201conde\u201d, que n\u00e3o est\u00e1 dado a priori, parecem produzir corpos diversos (mais que humanos). Se tornam, \u00e9 poss\u00edvel, elementos conectivos de um grande dispositivo novo, que converge ou diverge de um territ\u00f3rio em constitui\u00e7\u00e3o: a cidade. Analisando a\u00e7\u00f5es em conjunto, observamos a diversidade das pr\u00e1ticas e o corpo de uma coisa ainda disforme. Assumem exist\u00eancias sem finalidade dura. Outras pr\u00e1ticas, por\u00e9m, clamam direitos. Pensam essa cidade como territ\u00f3rio produtivo, lugar de enuncia\u00e7\u00e3o, emerg\u00eancia do protesto. Nela tornam expl\u00edcita a realiza\u00e7\u00e3o da vida. A cidade como territ\u00f3rio produtivo clama um posicionamento, mas qual ser\u00e1 o corpo que nela atua?<\/p>\n<p>H\u00e1 algum tempo me dedico a produzir formas de fazer pensar e des\/entender as motiva\u00e7\u00f5es pelas quais artistas e produtores culturais, nos anos mais recentes, se dirigem a algo que cambia e cambia de nome, mas que constantemente se reinscreve como \u201ccidade\u201d. Nela(s), pela promo\u00e7\u00e3o de esferas p\u00fablicas, a\u00e7\u00f5es entre pares e <i>des-<\/i>pares, provocam parcerias e desencontros, sustos e atropelos, coadjuvam uma s\u00e9rie de expressividades, comunica\u00e7\u00f5es e intrus\u00f5es. Nestas composi\u00e7\u00f5es, h\u00e1 media\u00e7\u00f5es e capturas. Nalgumas situa\u00e7\u00f5es, nada melhor do que ser estrangeiro e brincar nas cidades desconhecidas para deflor\u00e1-las. Noutras, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, e n\u00e3o se pode atropel\u00e1-las. Em alguns territ\u00f3rios n\u00e3o h\u00e1 sempre becos. N\u00e3o h\u00e1 esquinas poss\u00edveis. N\u00e3o h\u00e1 possibilidade sequer de escuta. Nada se captura. Em outros lugares, a\u00e7\u00f5es provocam alardes. S\u00e3o produzidas como em territ\u00f3rios neutros. S\u00e3o espet\u00e1culos desejados com promessas de sucesso. Mas, causam vertigem?<\/p>\n<p>Interessa pensar esse territ\u00f3rio descontrolado para autorizar-se, talvez, a uma camuflagem. Estrat\u00e9gia (&#8230;) enlouquecedora. Perpassamos o risco. N\u00e3o pode se tratar aqui de comercializ\u00e1-las. N\u00e3o podem ser nem tur\u00edsticas, nem hist\u00f3ricas, cidades inteiras. Mar\u00e9 e Alagados, territ\u00f3rios contextuais. N\u00e3o se pode pensar quantos isso ou aquilo. N\u00e3o se pode.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que eventos no Brasil t\u00eam promovido o uso de \u201cespa\u00e7os p\u00fablicos\u201d, acompanhados de pensamentos te\u00f3ricos que ancoram criticamente (em termos de linguagem) e afirma\u00e7\u00f5es (conquistas pol\u00edticas), aqui de fato ca\u00edmos na cidade do desmedido. Com isso, gostaria de suspender a certeza de que &#8216;sabemos o que estamos fazendo&#8217; (discursos do empreendedorismo) e chamar para a uma an\u00e1lise atenta das possibilidades pol\u00edticas dessas coopera\u00e7\u00f5es. Nem n\u00edtidas, nem verdade. Incita\u00e7\u00e3o de nascimentos, de coisas disformes informadas pelo protesto, que n\u00e3o podem se esquecer da presen\u00e7a pol\u00edtica de corpos, em que se pergunta: qual a disponibilidade desses novos, outros, \u201ccorpo\u201d e \u201ccidade\u201d?<\/p>\n<p>Publicado no <a href=\"https:\/\/corpocidade.files.wordpress.com\/2010\/11\/caderno_provocacoes1.pdf\">Caderno Provoca\u00e7\u00f5es<\/a> \/ 2010 \/ CorpoCidade, UFBA, Salvador<\/p>\n ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Camuflagem: Reli um peda\u00e7o do Jacques Derrida: (&#8230;) g\u00eanero daqueles que t\u00eam lugar, por natureza e por educa\u00e7\u00e3o. V\u00f3s sois, pois, ao mesmo tempo fil\u00f3sofos e pol\u00edticos. 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