{"id":39,"date":"2010-10-07T19:03:54","date_gmt":"2010-10-07T22:03:54","guid":{"rendered":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/?p=39"},"modified":"2016-08-07T19:09:47","modified_gmt":"2016-08-07T22:09:47","slug":"para-exceder-uma-cidade-um-corpo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/para-exceder-uma-cidade-um-corpo\/","title":{"rendered":"Para exceder uma cidade, um corpo"},"content":{"rendered":"<p>*Inser\u00e7\u00f5es sobre a cidade de Guga Ferraz, que repete o homem<br \/>\n<strong>Peda\u00e7o de corpo.<\/strong> Este texto \u00e9 uma parte \u2013 um peda\u00e7o de pensamento-sensa\u00e7\u00e3o sobre a produ\u00e7\u00e3o de um artista. Surge, existe, se escreve, a partir de um corpo (o meu). \u00c9 lido em outro (o seu). Um texto \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o e um desnudamento. Escrito para voc\u00ea. Este texto \u00e9 uma resposta \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o que Guga Ferraz fez de seu trabalho em conversa realizada na Escola de Artes Visuais do Parque Lage no Rio de Janeiro. [1] Retirei alguns pontos para seguir atirando palavras. O texto refere-se \u00e0 parte do corpo (de produ\u00e7\u00e3o) do artista \u2013 bem por isto pe\u00e7o licen\u00e7a para agregar camadas de terra aos homens nus. Fazer considera\u00e7\u00f5es \u00e0s proposi\u00e7\u00f5es cr\u00edticas do artista a quest\u00f5es da cidade do Rio de Janeiro \u2013 territ\u00f3rio produtivo comum, onde vivo h\u00e1 alguns anos -, assim como aproveito para fazer observa\u00e7\u00f5es \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o propriamente dita e ao fato inalien\u00e1vel de que o lugar onde exp\u00f5e agora \u00e9 uma galeria comercial. O di\u00e1logo (do artista) extrapola a capacidade da cidade-da-arte, ou faz dela o limite da sua expuls\u00e3o, e o texto duplica o debate sobre as contradi\u00e7\u00f5es intensas que perfazem a cidade. O texto, como proposi\u00e7\u00e3o, \u00e9 s\u00f3 um fragmento do manifesto poss\u00edvel. Outras palavras ficam n\u00e3o ditas para que um pr\u00f3ximo corpo fale.<br \/>\n<strong>Troquei momentaneamente homem por corpo.<\/strong> Na exposi\u00e7\u00e3o \u201cA cidade repete o homem\u201d na Galeria A Gentil Carioca (onde estava exposto o trabalho de Guga Ferraz, entre Maio e Junho de 2007), h\u00e1 um \u00edndio com parte das pernas faltando \u2013 imagem apropriada. \u201cVeste\u201d arco, flecha e arma. Um \u00edndio \u00e9 um homem. Mas \u00e9 o mesmo que a cidade repete? S\u00e3o nove imagens de \u00edndios colados sobre uma superf\u00edcie plana e r\u00edgida. A pele do \u00edndio \u00e9 desenhada com ret\u00edcula. Faz um \u00edndio extirpado de seu contexto, que \u00e9 mais como um super-her\u00f3i em v\u00eddeo-locadora. Corpo de \u00edndio \u00e9 corpo de homem.<br \/>\nRepeti\u00e7\u00e3o por repeti\u00e7\u00e3o, voc\u00ea perguntou antes o que define um corpo e a cidade. O corpo n\u00e3o \u00e9 a cidade. Por\u00e9m tem rela\u00e7\u00e3o com ela. E pode ser ent\u00e3o que um corpo exista expulsando-se do corpo do outro, tomando espa\u00e7o, ocupando. Expulsando-se do corpo da cidade. O corpo (humano) \u00e9 uma superf\u00edcie sens\u00edvel, capaz de afetar e de sentir. Capaz de repetir e de diferir. Mas nunca existe na unidade. Existe contaminado, h\u00edbrido, modificado, incompleto. Corpos e territ\u00f3rios se mesclam, fazendo-se pela repeti\u00e7\u00e3o e pela diferen\u00e7a na proximidade de outro corpo sens\u00edvel, na dimens\u00e3o de um poder ou do seu assujeitamento. Agora, sobre o corpo que se faz por fora do medo, me parece que sobrevive por que na confus\u00e3o din\u00e2mica produz uma estrat\u00e9gia (nem sempre art\u00edstica). Esconde-se no escuro. Pula o muro.<br \/>\n<strong>Troquei, mas n\u00e3o sobrepus.<\/strong> O que define um homem e um corpo s\u00e3o perturbantes em aberto. Mensur\u00e1veis na medida da enuncia\u00e7\u00e3o e da experi\u00eancia. Na exposi\u00e7\u00e3o h\u00e1 outras imagens de corpos: \u00e0 esquerda h\u00e1 um exposto, desta vez o do artista. Transposto imenso foi feito para pisar em cima, emborrachado entregue, vers\u00e3o do \u201cRendido\u201d. Ali se chama \u201cPara saber onde se pisa\u201d. E h\u00e1 outro corpo leve na segunda sala. A imagem de um corpo-menino, rodopiando, trampolim invis\u00edvel (\u201cMortal\u201d). Estas s\u00e3o as imagens diretas de homens, ou de corpos. S\u00e3o tamb\u00e9m o que se compra, mas n\u00e3o objetivamente. Digo melhor, sendo ela uma galeria comercial, n\u00e3o se compra apenas a materialidade (a imagem), mas a intelig\u00eancia (do artista), e o interdito entre as imagens. \u00c9 necess\u00e1rio ver de longe, remontar. Ver do alto como num salto lento.<br \/>\n<strong>Vi num sonho. Era como uma vista a\u00e9rea.<\/strong> No topo de um morro \u2013 que era um parque \u2013 corpos-de-gente morta tinham sido descobertos, desfolhados de um embalsamado antigo. No sonho eu sabia que estavam sempre ali no parque, sob a grama, conservados em camadas finas de terra. Ent\u00e3o helic\u00f3pteros chegavam e, como uma cena de Antonioni amplificada (Blow up), revelavam cad\u00e1veres conservados de homens e mulheres em camadas de terra vermelha. Minha irm\u00e3 do meio chegava assustada e chorava, fui abra\u00e7\u00e1-la, mas eu tinha as m\u00e3os sujas de terra. Depois, no meu apartamento, era dali que olhava o parque. N\u00e3o podia abra\u00e7\u00e1-la e na minha casa descobrira tamb\u00e9m, assim como h\u00e1 nos parques, uma pequena por\u00e7\u00e3o de terra. Desconfiei da terra nas minhas m\u00e3os, era um pesadelo.<br \/>\n<strong>Corpos do tempo do sonho.<\/strong> Foi naquele tempo a ocupa\u00e7\u00e3o criativa das ruas pelos estudantes em 1968 em todo o mundo, e tamb\u00e9m os montoneros, os MR, a fuga, o Araguaia (corpos escondidos, homens, mulheres e crian\u00e7as). No anivers\u00e1rio de 40 anos da revolu\u00e7\u00e3o muitos atores acordam, uma infinidade de narrativas necess\u00e1rias emerge. Pode-se rever o trauma, analisar a\u00e7\u00f5es e devolver a pot\u00eancia aos corpos. S\u00e3o feitos descobertos \u2013 e porque n\u00e3o abertos \u2013 tal como os arquivos da ditadura. Para revelar um corpo pode-se dar a ele uma imagem. Contudo, \u00e9 necess\u00e1rio gerenciar as novas imagens, fazer delas um contexto pol\u00edtico menos do controle e mais de um espa\u00e7o de intera\u00e7\u00e3o comum, de contra-respostas, de perturbantes.<br \/>\nUm di\u00e1logo nunca se sabe onde come\u00e7a. (Quem atirou a primeira pedra?) Sem palavra nua, na cidade complexa um emaranhado bruto de informa\u00e7\u00f5es atravessa. Minha irm\u00e3 mais velha disse que uma crian\u00e7a s\u00f3 formula uma pergunta quando est\u00e1 pronta para receber a resposta. Num paralelo vi\u00e1vel, colocar um trabalho de arte na rua \u00e9 abrir-se para um di\u00e1logo, mas \u00e9 preciso pensar em como receber as respostas. Ele faz uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade da cidade, ao que aqui \u00e9 vis\u00edvel ou invis\u00edvel, tolerado ou intoler\u00e1vel. Guga se coloca em rea\u00e7\u00e3o, assim ele diz. A resposta, contudo, insurge na fus\u00e3o \u00e0quilo que a engendra. Muito dif\u00edcil separar a\u00e7\u00e3o e rea\u00e7\u00e3o. A resposta \u00e9 estrat\u00e9gia inerente \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de periculosidade que a gera. A rea\u00e7\u00e3o do artista que, antes no espa\u00e7o p\u00fablico da cidade, aqui \u00e9 modificada para o espa\u00e7o da galeria (adapta\u00e7\u00e3o contextual e formal). A vulnerabilidade da superf\u00edcie nas cidades, ao rev\u00e9s, n\u00e3o \u00e9 o resguardo do espa\u00e7o da galeria. Sem topar o todo da quest\u00e3o \u2013 separa\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel \u2013 sugiro posicionar seu corpo no espa\u00e7o entre as imagens. Ali ou nas ruas. Ali ou nos \u00f4nibus.<br \/>\nMultifacetada em camadas, a cidade e seus equipamentos s\u00f3 podem ser medidos tamb\u00e9m na experi\u00eancia do corpo. Traficar ser\u00e1 movimentar por fora dos instrumentos de controle, de constitui\u00e7\u00e3o da cidade funcional, maquinal, estado, poder. A arte pode ser uma linha de fuga, se souber mover-se. Assim tamb\u00e9m o texto em outra cidade-fluxo, n\u00e3o superf\u00edcie (primado do vis\u00edvel). Dever\u00e3o circular livres, traficados. Enunciar \u00e9 posicionar-se entre demais. Dizer o n\u00e3o dito. Um texto. Um texto sai de um corpo vivo que se desnuda com a escrita, e talvez por a\u00ed se entregue. A cidade n\u00e3o tem lugar para um corpo nu. T\u00e3o logo ele respira, outro corpo sobre ele cai.<br \/>\n<strong>Expor um corpo.<\/strong> Na exposi\u00e7\u00e3o percebo os homens e seus corpos nus. Expondo um corpo, n\u00e3o o dele mas pelo texto, vemos corpo-superf\u00edcie e vida feitos nus. Assim ele os fez: vulner\u00e1veis. Ret\u00edcula. Pixel. Recorte. Na fotografia (assim como na escultura) um tipo de poro dilatado revela uma estrutura sempre recoberta (gr\u00e3o de coca\u00edna, representa\u00e7\u00e3o nunca vista direta, sempre escondida no pl\u00e1stico preto \u2013 imagem p\u00fablica da morte). Imagens sem fundo, imagens sem contexto. S\u00e3o corpos mold\u00e1veis. Fr\u00e1geis n\u00e3o por sua imagem direta, sem sangue nem apelo, vitimizados pelos t\u00edtulos: \u201cCole\u00e7\u00e3o Bala Perdida\u201d, \u201cProjeto para cadeado de vidro\u201d, \u201cTroco de arrego\u201d, \u201cProcon do p\u00f3\u201d, \u201cDrug Bible\u201d. Perigo eminente, a bala perdida; perigo desejado, a \u201cpurpurina\u201d (\u201cC17H21No4\u201d).<br \/>\n<strong>Voc\u00ea v\u00ea ali que um homem se camufla de outro.<\/strong> Um corpo pode ser um encosto para um homem. Um corpo \u00e9 uma ferramenta na cidade. Usado sob a for\u00e7a do comando que o faz agenciar elementos, valores, mercadorias. Um corpo \u00e9 como um mapa para uma cidade: s\u00f3 uma ferramenta. Da mesma forma, ao rev\u00e9s indissol\u00favel, o espa\u00e7o da cidade \u00e9 para um corpo o local de sua produ\u00e7\u00e3o. S\u00e3o elementos de uma equa\u00e7\u00e3o nunca repet\u00edvel. Ou sim. Se assim se afirma. A cidade repete o homem porque suporta m\u00e1quinas de fazer o corpo do homem dentro da prote\u00e7\u00e3o e do medo.<br \/>\n\u201cPol\u00edcia \/ mil\u00edcia \/ traficante \/ outros\u201d. A indefini\u00e7\u00e3o dos atores \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o que significa o espa\u00e7o da troca. A pot\u00eancia de diferir de alguns \u00e9 a capacidade de camuflar-se um e outro, n\u00e3o um ou outro. Definir atores serve antes para defender do desconhecido. Produzir o medo. Do lado de fora, em excesso, sobra o civil \u2013 moeda de troca do jogo de adivinho. Civil para tudo o que \u00e9 \u201coutros\u201d, e que nem \u00e9 mais produto da cidade \u2013 utopia da arquitetura, que se desfaz. O corpo do civil \u00e9 s\u00f3 superf\u00edcie de bala, s\u00f3 se toma conhecimento porque a bala n\u00e3o perfurou o concreto da cidade (concreto em estado morto), mas um corpo vivo. A produ\u00e7\u00e3o do medo justifica as a\u00e7\u00f5es da pol\u00edcia, do estado, da imprensa (esp\u00e9cie de roleta russa em que a fun\u00e7\u00e3o circula sem parar). N\u00e3o se d\u00e1 fim \u00e0 guerra porque o inimigo est\u00e1 em qualquer parte e se faltar tamb\u00e9m ser\u00e1 produzido: d\u00e3o lhe as balas, o pacote, o tiro na cabe\u00e7a, quase sempre de costas. Para acabar a guerra s\u00f3 qualificando o inimigo, contradi\u00e7\u00e3o de que, ao determinar publicamente as caracter\u00edsticas do inimigo, aquilo que \u00e9 pol\u00edcia ser\u00e1 capaz, por fim, de prender a si mesma.<br \/>\n<strong>E o traficante n\u00e3o \u00e9 de sonhos.<\/strong> Seu corpo n\u00e3o se v\u00ea, a n\u00e3o ser como morto (jornais). N\u00e3o tem voz, ora porque n\u00e3o quer ser visto, ora porque n\u00e3o pode falar. (Guerra intransmiss\u00edvel.) Poderiam falar o indiz\u00edvel, desnudar a guerra onde se encaixam. Silenciam a bala. \u00c0 bala. Na cidade-do-asfalto, por outro lado, h\u00e1 corpos que se pronunciam. Ret\u00f3rica excessiva. Indetermina\u00e7\u00e3o proposital e irresolu\u00e7\u00e3o de sua finalidade \u00faltima. Mostram-se como afirma\u00e7\u00e3o de poder porque s\u00e3o o poder institu\u00eddo. Defendem ou driblam? Suas v\u00edtimas s\u00e3o os corpos que, se for\u00e7ados, se entregam. Estes n\u00e3o tem poder. N\u00e3o respondem. S\u00f3 repetem.<br \/>\nNossos corpos. Indefinida atribui\u00e7\u00e3o na nudez da vida, uma a\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 realizada pela pr\u00e1tica acoplada ao desejo do corpo. A nudez do corpo n\u00e3o \u00e9 ret\u00f3rica. A sua vulnerabilidade contempla a inexatid\u00e3o do seu uso. Para al\u00e9m da unidade de um corpo, s\u00e3o ag\u00eancias m\u00f3veis que os modulam. S\u00e3o movimentos r\u00e1pidos que desviam.<br \/>\nPartilha do mesmo (mundo) ou expuls\u00e3o for\u00e7ada dele. O \u00f4nibus em chamas \u00e9 um coletivo: ali se partilha o medo, que \u00e9 real (como disse Luis Andrade) [2]. O mapa em chamas mostra os pontos de conflito na cidade (\u201cRoma de Nero\u201d). Mapeia sobras do espa\u00e7o nomeado e conhecido. \u201c\u00d4nibus incendiado\u201d transbordou o desenho sobre as placas e penetrou na outra cidade, aquela das marcas e das capas, contradi\u00e7\u00e3o daquilo que ora se instrumentaliza, ora diverge no caminho necess\u00e1rio do protesto, e que faz pensar: \u00e9 poss\u00edvel confiar na fortaleza gr\u00e1fica da imagem, ou \u00e9 preciso sempre contextualiz\u00e1-la? Esta \u00e9 a m\u00e3o dupla da multiplica\u00e7\u00e3o da imagem da interven\u00e7\u00e3o, que o artista atualiza quando o \u00f4nibus vira \u201cLimosine\u201d. A gr\u00e1fica imprime uma informa\u00e7\u00e3o estrita. O medo \u00e9 coletivo. Ou comum. Assim tamb\u00e9m sua produ\u00e7\u00e3o. E o assalto a m\u00e3o armada \u00e9 repetido tal como os equipamentos da cidade. Guga imprimiu 100 adesivos para \u00f4nibus (\u201cem caso de assalto, n\u00e3o reaja\u201d). Na repeti\u00e7\u00e3o pelo excesso pode ter lugar uma manifesta\u00e7\u00e3o indireta: a multiplicidade de superf\u00edcies da cidade \u00e9 ocupada densamente por imagens suavemente estranhas a seus sinais.<br \/>\nFazer arte na rua \u00e9 despertencer da arte. Cidade-da-arte que repete um homem. Mas o que se prop\u00f5e? Plottar um corpo \u00e9 domin\u00e1-lo? E a cidade? Mapeando, n\u00e3o oferece lugares aos corpos. Mostra na verdade a indefini\u00e7\u00e3o destes lugares, pela nudez dos corpos. No jogo da dissimula\u00e7\u00e3o importa perguntar que quer quem na cidade? Pergunta que trar\u00e1 a seguinte: a quem \u00e9 poss\u00edvel se aliar na cidade? A cidade s\u00f3 existe com os usos que se produz sobre ela. Tal como os usos do corpo.<br \/>\n<strong>Para se reconhecer dois corpos gritam.<\/strong> Quando gritam entrev\u00eaem um territ\u00f3rio comum. Demoram a se entregar pode ser ora por que tardam a decifrar seus sinais, ora porque n\u00e3o querem entregar-se ao contexto comum (n\u00e3o te vejo, miragem, temo). A n\u00e3o ser que gritem antecipando a imagem. Se todos t\u00eam armas, como saber quem \u00e9 aquele que defende? Gritar requer um corpo exposto, posicionado. \u00c9 uma rea\u00e7\u00e3o (n\u00e3o \u00e9 a bala perdida, proj\u00e9til no escuro). Em outro contexto, resposta se torna expl\u00edcita, na (anti)t\u00e1tica da galeria de arte trata-se de fazer arte em certa medida periculosa. Entregar-se, para quem?<br \/>\nEm outros trabalhos do artista, o di\u00e1logo fora com a imprensa (produtor do contexto insens\u00edvel, simultaneamente f\u00e1brica da imagem do medo, pronunciante da seguran\u00e7a comercializ\u00e1vel no espa\u00e7o da cidade). Naquele meio, em geral, a difus\u00e3o da arte encontra mutismo e descontrole do discurso sobre a arte. Mas alguns aspectos s\u00e3o interessantes no caso de Guga, como a camuflagem na p\u00e1gina policial e uma repotencializa\u00e7\u00e3o do trabalho a partir do lugar de conversa desejado (forjar um discurso policial, ocupando seu espa\u00e7o). A imprensa ora confunde, ora entrega, e se torna mais um discurso na diversidade de falas palp\u00e1veis da cidade. Mas, no caso do artista, como ele deixa em aberto um espa\u00e7o para receber outras interven\u00e7\u00f5es? Rea\u00e7\u00f5es?<br \/>\nNo espa\u00e7o cr\u00edtico de enuncia\u00e7\u00e3o o que se deseja \u00e9 uma difus\u00e3o dispersiva \u2013 contaminar corpos. N\u00e3o debelar. Na conversa no Parque Lage Guga fala a partir de um vocabul\u00e1rio estranho. Eventualmente policial. Eventualmente traficante. Palavras estranhas ao campo das artes, a n\u00e3o ser agora, onde entrevemos um espa\u00e7o de resposta que n\u00e3o o senso comum da (in)seguran\u00e7a. Outras palavras revelam outros corpos. Periculosidade. Do que se protegem os corpos na cidade? Ser artista \u00e9 desnudar a si. Diferente do trabalho na rua, na galeria tudo tem identidade, assinatura, autoria. Institui-se. Retira o artista do anonimato e insere sua produ\u00e7\u00e3o numa resposta formalizada e por isso mesmo perigosa. Ser\u00e1 que o desnudamento nomeado \u00e9 uma entrega ao campo da arte? A comercializa\u00e7\u00e3o de sua esperteza? Ali a nudez do artista \u00e9 tamb\u00e9m toda sua vulnerabilidade. Mas a palavra \u00e9 necess\u00e1ria. Ou mesmo o falso mutismo da imagem.<br \/>\nEntre a percep\u00e7\u00e3o do contexto sens\u00edvel e a pertin\u00eancia a um contexto pol\u00edtico, jogo tornado expl\u00edcito por Paolo Virno [3], um corpo que se pronuncia se torna um corpo sem medida. Pela via da arte, n\u00e3o retil\u00ednea estrat\u00e9gia ao estado da inseguran\u00e7a, um corpo-de-artista pode se tornar imprevis\u00edvel se suas respostas s\u00e3o desvios aos medos hip\u00f3critas da cidade. Incendiar a limusine denuncia o j\u00e1 sabido: a partilha ao territ\u00f3rio comum da periculosidade e da incapacidade de a\u00e7\u00e3o, ou a afirma\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o h\u00e1 segrega\u00e7\u00e3o social que n\u00e3o seja resultado da manuten\u00e7\u00e3o de alguns controles. Guga desenha um mapa. Ningu\u00e9m est\u00e1 \u201cde fora\u201d da guerra, seja porque esquiva-se dela, seja porque a consente. Mas, na galeria os patu\u00e1s compr\u00e1veis n\u00e3o defendem da cidade-sem-estado. Miss\u00e3o difusa. O desafio de fazer arte nos termos da objetividade de uma rea\u00e7\u00e3o \u00e9 a ousadia de destituir a finitude da vida mensurada pela m\u00eddia, pela pol\u00edcia, tornando-a da mesma forma uma ferramenta coletiva, de muitos. Na unidade-multiplicidade da equa\u00e7\u00e3o, est\u00e1 tamb\u00e9m o desafio de fazer do corpo do artista um corpo sem medida. Flex\u00edvel tal como aquele jogo do erro para assinalar um colchete dado a cada personagem real: pol\u00edcia, mil\u00edcia, traficante, outros. Ao que adiciono: artista, p\u00fablico, voc\u00ea. Desafio desejado de n\u00e3o repetir a si como elemento na cidade mercadoria, mas encontrar o lugar da a\u00e7\u00e3o potente. N\u00e3o da resposta reconhec\u00edvel. Fazer-se corpo coletivo, corpo partido-com o corpo do outro. Entregar-se \u00e0 incerteza da constitui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u2013 imprevis\u00edvel constitui\u00e7\u00e3o indecente frente a um estado escuso.<br \/>\n<strong>A morte \u00e9 indecente.<\/strong> (Palavras sem sentido. Palavras sem corpo voam como balas perdidas, caem onde?) Assim Guga disse ao final da fala no Parque Lage. A morte \u00e9 indecente. Ao que eu respondo que o n\u00e3o comando sobre a vulnerabilidade da vida \u00e9 que \u00e9 indecente. (Ou esta \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o \u00faltima da vida e do vivo?) Para saber onde piso, tateio se aquele corpo exposto \u00e9 realmente um corpo vulner\u00e1vel. Um corpo, n\u00e3o uma unidade de corpo, s\u00f3 existe na medida da sua experi\u00eancia. Da\u00ed que atos passionais excedem os corpos. Revoltas excedem corpos. Colocam-nos novamente em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade. A viol\u00eancia os violenta. Voc\u00ea responde. Excede a um corpo. Doa-se a si dispon\u00edvel para sua desmesura. Ousa, esquiva-se. Improvisa. Salta no vazio. Mortal. O que \u00e9 homem, e por contig\u00fcidade humano, vai se refazer de uma desordem. A dimens\u00e3o da n\u00e3o-repeti\u00e7\u00e3o de um corpo \u00e9 a dimens\u00e3o de sua pot\u00eancia \u2013 de diferir.<br \/>\n[1] A Conversa foi realizada dia 13 de Maio de 2008.<br \/>\n[2] Este texto estabele um di\u00e1logo com o texto de apresenta\u00e7\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o de autoria de Luis Andrade.<br \/>\n[3] Refiro-me aos textos de Virtuosismo e revolu\u00e7\u00e3o, de Paolo Virno. Ed. DP&amp;A, Rio de Janeiro, 2007.<br \/>\nPublicado na Revista <a href=\"http:\/\/www.corpocidade.dan.ufba.br\/redobra\/r8\/jogo-e-catimba-8\/a-cidade-repete-o-homem\/\">ReDobra<\/a><\/p>\n ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Inser\u00e7\u00f5es sobre a cidade de Guga Ferraz, que repete o homem Peda\u00e7o de corpo. 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