{"id":76,"date":"2016-09-12T20:31:17","date_gmt":"2016-09-12T23:31:17","guid":{"rendered":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/?p=76"},"modified":"2021-06-01T01:00:06","modified_gmt":"2021-06-01T04:00:06","slug":"trampas-de-adultos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/trampas-de-adultos\/","title":{"rendered":"Trampas de adultos"},"content":{"rendered":"<p>Enquanto nossas crian\u00e7as dormem se armam trampas. Trampas de adultos. Adultos se enamoram, se perdem em planos, criam lios, e planejam viagens, gozam, riem, est\u00e3o b\u00eabados. Adultos trocam de g\u00eanero, maquiagens, corpos nus, se fazem grandes e pequenos, se inmiscuem uns nos outros, sofrem e desejam, piamente, mais do que podem. Sonham que entram e entram um no corpo do outro. E sonham pol\u00edticas, e sonham que a passagem dum plano a outro \u00e9 mais poss\u00edvel, que os militares cair\u00e3o, e planejam ataques, armas, bandeiras negras. Entre boleros e dramas, cervejas ruins e an\u00e1lises inacabadas ralam os corpos nas ruas, paredes sujas, e fumam o que lhes queima.<\/p>\n<p>Enquanto nossas crian\u00e7as dormem voamos longe, fazemos atropelos, brigamos. Quando nossas crian\u00e7as despertam, acordam nossos olhos secos, e come\u00e7a uma jornada. Na manh\u00e3 fresca a revolu\u00e7\u00e3o da verdade, libidinal de outra era. Diante dos olhos nost\u00e1lgicos daqueles sonhos e gozos, diante do corpo demolido da noite anterior, pequenos corpos, sutis, e leves. Cheios de planos. E nos tornamos para eles &#8211;\u00a0 absolutamente &#8211; agigantados na manh\u00e3. Vem a\u00ed outras provas para as trampas que nos afligiam. Corpos sutis e leves que pedem cuidado, mais pequenos que os nossos, e nos provam, talvez, menos capazes para nossos planos. Os desafios que trazem s\u00e3o doutra escala. Nosso olhar de ressacas \u00e9 atento, contudo, \u00e0 sua dimens\u00e3o maravilhosa, fantasiosa, energ\u00e9tica. Nosso olhar carrega um pouco de temor, alimentado pela pequena-grande impress\u00e3o de que n\u00e3o daremos conta da dimens\u00e3o escalonada, \u00e0s avessas, das semi\u00f3ticas infantis. Crian\u00e7a pequena, igual a: presente inventivo. No corpo do adulto, por outro lado, um pouco de morte, \u00e1lcool flotando, quest\u00f5es de ordem, gozo que n\u00e3o cessa, gan\u00e2ncia de uma noite mais longa.<\/p>\n<p>Titubeiam os planos de ataque da noite anterior. O mundo das trampas adultas se perde na porosidade da manh\u00e3. Olhos ver\u00eddicos e doces, a usurpar. Usurpar os planos de passagem, de travessia, a fazer tardar para a noite seguinte aquele mundo de dramas, de del\u00edrios, de err\u00f4neas sacanagens, aquele mundo de paix\u00f5es. Trampas de adultos. Se atropelam muito mais e pior que nas batalhas infantis. Claro. Gladiadores da noite. Corpos de desejo. Mas os outros, gladiadores pequenos das manh\u00e3s, fazem de n\u00f3s pura retaguarda. Corpos pequenos, n\u00e3o menos de transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando nossas crian\u00e7as acordam estamos rendidos. Deixando a cama dos lagos e gozos, sa\u00edmos na selvageria da casa, atravessando obst\u00e1culos reais, materiais, coloridos, mont\u00e1veis, falantes, quebr\u00e1veis, amea\u00e7adores. O rumo das paix\u00f5es adultas \u00e9 dragado no toque e no olhar. \u00c9 que quando nossos filhos despertam nos damos conta de que viajamos longe, a um mundo de gozos e medos, nosso apequenamento, e temos agora, diante de n\u00f3s ternura e calidez de sobra, risco e pura passagem.<\/p>\n<p>Quando nossas crian\u00e7as despertam ardemos de saudades das trampas que arrumamos, como se delas fosse mais f\u00e1cil desvelar-se, como se as trai\u00e7\u00f5es noturnas fossem o jogo limpo, aquele em que estamos em p\u00e9 de igualdade, aqueles em que batalhas n\u00e3o vencidas acendem mais luta. Adultos criam trampas como desvio, brincam consigo mesmos, embebedam-se de seus gozos, aliviam-se por puro ensejo de coisa maior.<\/p>\n<p>Acordam em terra arrasada (arrasados em si). Mas n\u00e3o, \u00e9 outro plano. Consist\u00eancia por car\u00edcia, consist\u00eancia por quebra daquela aparente soberania. Adultices. Trampas de adultos se perdem na manh\u00e3. Corpos pequenos desafiam e lideram a retaguarda. Rendidos, corpos de adultos abandonam os projetos e as trampas. Navegam por afeto sedoso, pois os pequenos (gladiadores, l\u00edderes, revolucion\u00e1rios) nos solicitam da maneira mais suave. Ainda assim nos convocam. Eles n\u00e3o sabem dos nossos corpos meio morto-vivos, de g\u00e9lidos arrepios, dos sofrimentos da pol\u00edtica, dos atravessamentos do afeto. N\u00e3o sabem que acordamos de s\u00fabito, e de del\u00edrio.<\/p>\n<p>Nos olham, a postos:<br \/>\n&#8211;\u00a0 Estamos prontos, estamos?<br \/>\n&#8211;\u00a0 Ou ainda estamos atrapados?<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Vers\u00e3o em ingl\u00eas [<a href=\"https:\/\/cristinaribas.org\/escritos\/2016\/09\/12\/adults-traps\/\">aqui<\/a>]<\/p>\n ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto nossas crian\u00e7as dormem se armam trampas. Trampas de adultos. Adultos se enamoram, se perdem em planos, criam lios, e planejam viagens, gozam, riem, est\u00e3o b\u00eabados. 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