A vida pública de uma mulher

O Brasil passa por um momento em que binarismos estão sendo rasgados, a torto e a direito. O crescimento de mídias sociais, uma produção semiótica incontrolável e a tomada das ruas desde 2013 produzem um contraste com as capas dos jornais das grandes mídias que repetem formas e headlines de 30 anos atrás. Para aqueles que como eu nasceram ao final da ditadura de estado e nos politizamos precoces no #ForaCollor, estamos tendo a chance de viver o gostinho do que foram os anos de chumbo, ainda que sabemos que práticas implementadas na ditadura nunca desapareceram das periferias do Brasil. (1) Uma nota: o perigo que incorro neste texto na afirmação de um genérico conceito “mulher” (e ou nas variações que vou abrindo) é parte do espaço para que outras vozes respondam.

A vida das brasileiras e dos brasileiros induzidos ao binarismo do pró ou contra o golpe é atravessada por uma diversidade de discursos: são as minorias que multiplicam os pontos do debate, minorias achatadas pelas porções que se comportam de maneira majoritária. O bloco “de oposição” que tem tirado (ou já tirou) Dilma do poder enseja destruir direitos básicos constitucionais e muitos direitos adquiridos nos anos de governo liderados por Lula e Dilma. Mas o primeiro impacto desse embate têm se dado diretamente contra as lutas das mulheres, contra as lutas das minorias e recentemente, pela repressão aos movimentos que demandam o cumprimento da democracia como direito. A luta por direitos e espaços comuns para além de uma “vida pública” está num embate encurralado contra vidas privadas – vidas ainda mais voluntariamente entrelaçadas com o capital e seus modos de semiotização. Mas por outro lado, nada de novo. Aquele espaço transversal de relação entre a sociedade e o poder representado já vinha sendo anulado no governo do PT e seus aliados, antes mesmo do “golpe”. Sem falar do esgotamento da forma-partido, exposto pelas alianças que se produziram há anos de maneira a tornar primeiro elegível e depois governável uma coalizão. Dilma – primeira mulher presidenta eleita, foi afastada do poder por aqueles que agora se tornaram, no ponto de vista dos que sofreram o golpe, “traidores”. Avaliando o balanço do “pró impeachment” e “contra o golpe” o que é, de fato, que precisamos defender agora? Por onde se movem as lutas? De onde extraem sua força?

Em meio ao binarismo pró ou contra o golpe, a “democracia” virou um sujeito, e porque não melhor, uma sujeita – sujeita ao seu reclame, à pauta em geral de uma sociedade que precisava rever o que se passava no Planalto Central, que precisava colocar nas vias de fato as transversais que conectam (ou não) os cidadãos a seu governo, precisava olhar para a cara de cada deputada e deputado, precisava conferir a austeridade que se implementa pelas forças de um capitalismo neoliberal, cuja primeira plataforma a quebrar são direitos básicos. O debate está, portanto, para além do duplo crise econômica e/ou crise política – é a articulação entre ambas que estamos vendo, é a produção de “crises”, que são matéria mesma do capitalismo financeiro associado à corrupção dos governos e enriquecimento de atores políticos. O que está em jogo são possibilidades de manobra da(s) esquerda(s) no governo, de manutenção de direitos adquiridos e a continuidade da implementação de direitos por vir. Em meio a quebras de contrato, interpretações forçadas de brechas da constituição, pedaladas legais assinadas tanto por Dilma como por Temer, e em meio a defesas que não causam nenhum impacto, “Tchau, querida” se tornou a meme daqueles identificados com a destruição verde-amarelo do governo de Dilma. Outras posições simpatizantes mas não absortas pelo “contra o golpe” se perguntam se “Tchau!” se refere à Dilma diretamente, ou à democracia ela mesma. O bloqueio do PT para fora do planalto central não se concentrou em afastar Dilma mas, nas mãos do vice Michel Temer, se tornou um redesenho homo-orquestrado que tem excluído e fundido Ministérios, entre eles o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos – que eu sugeriria chamar de um “golpe ideológico”, patriarcal, heteronormativo.

No curso do pró impeachment e contra o golpe, entre “Tchau!” e “Fica, querida!”, nos últimos meses vimos no Brasil a destruição midiática da figura pública de Dilma, uma destruição política, que passa pelo machismo estrutural e pela intolerância que cada vez mais tomam espaço na Câmara e no Senado. Esse machismo estrutural aliado à economia foi nomeado pelas lutas femininas de heterocapitalismo (2). O heterocapitalismo é regra em geral não só da sociedade brasileira, mas o sistema de reprodução social que se sustenta no trabalho não pago dos cuidados e trabalhos reprodutivos – pensando os trabalhos reprodutivos e sua relação direta com a reprodução social – ou seja, a maneira como nos “multiplicamos” e somos criados para aderir a um sistema de produção. O heterocapitalismo se especializa na dominação de um sistema político e econômico em que mulheres, mulheres negras, negros, indígenas, gays, transexuais, quilombolas, favelados e muitas minorias são diretamente objetificadas e oprimidas, em favor de modos de vida normativos, urbanos, … consumistas, e na grade maioria dos casos, em crescente débito. No caso brasileiro, o machismo estrutural se manifesta explícita e desavergonhadamente no discurso de Eduardo Cunha, Jair Bolsonaro, Marcos Feliciano e outros tantos deputados. O heterocapitalismo produz a mulher como um imediato do macho produtivo, mulher configurada sem direito de voz, de opinião, de luta, de vida pública. Além disso, o heterocapitalismo, na destruição da vida das minorias (ou na redução da vida das minorias à condição de sobrevivência), concebe o racismo como questão já resolvida, em que o silenciamento (à diferença) é apontado como solução das diferenças.

 

A dimensão pública das lutas, a emergência de novas subjetividades

 

Dilma como mulher pública nunca esteve fora do jogo de especulações, julgamentos, acusações. Uma mulher que, eleita presidenta, tem a todo o tempo sua capacidade de governo diminuída por seu gênero: feminino – julgamento que desencadeia outros tantos preconceitos que são associados pelo senso comum à imagem da mulher, entre eles o descontrole, a loucura, a histeria. Dilma também é julgada por sua luta política, desqualificada por sua radicalidade nos anos de resistência à ditadura, cuja história é combatida dentro da Câmara ou do Senado pela nomeação e homenagem a militares que a torturaram. Que relação a destruição de Dilma como mulher pública tem com a vida pública das mulheres, das outras mulheres?

Em meio à reeleição de Dilma em 2014 as ruas ferviam com protestos que acordavam a maioria e o senso comum (afinal, há muito mais do que O Gigante). Os protestos do ciclo que iniciou em 2013 escancaravam nas ruas o posicionamento dos movimentos organizados e de novas constituições políticas com demandas claras. A tomada direta das ruas explicitava o laborioso cotidiano das lutas nas assembleias, nas comunidades, nos grupos de estudo. Uma multiplicação de enunciados surge: desde a tarifa zero, contra os machismos, a educação como direito, contra a destruição dos ecossistemas e das terras indígenas, contra a violência policial e pelo fim da precarização da vida. A resposta negativa de Dilma para enunciados que criticavam diretamente seu governo foi entre outras a aprovação da lei anti terrorismo, que facilita a criminalização de militantes e de movimentos sociais e à aplicação inúmeras vezes da Lei de Segurança Nacional. As manifestações verde-amarelo que se posicionavam “contra a corrupção”, por sua vez, não foram reprimidas. Por que?

A opressão aos protestos no ciclo 2013-2015, analisada por inúmeras e inúmeros militantes, sociólogas e sociólogos, filósofas e filósofos, foi um sintoma claro do fechamento da máquina do PT-no-governo. A não escuta das ruas e a invenção de inúmeras conspirações para desqualificar o movimento inaugurava a ruína da relação entre governabilidade e democracia de direitos – que requer, por sua vez, a maior quantidade possível de transversais entre a sociedade e o poder representado, uma questão que não se esgota na noção de “representação”, mas que se qualifica na promoção de fluxos, ressonâncias, co-emergências. Ao passo que muitos programas sociais foram criados, a vida pública das brasileiras e dos brasileiros já vinha sendo achatada pela condução a um crescimento do país a qualquer custo, um modo de crescimento que trabalhava por processos de subjetivação pautado na precarização das condições de trabalho, endividamento e desenvolvimento industrial destrutivo, tal como o caso da construção de Belo Monte, como o rompimento da barragem de Mariana e a consequente poluição do Rio Doce e do mar. E agora, o que estamos vendo com Michel Temer, o temível presidente interino?

No ciclo 2013-2015 mulheres complexificaram os espaços de protesto, tornando explícitas uma série de demandas e lutas que ficavam sorrateiramente escondidas sob discursos de demandas políticas majoritárias. Entre as lutas das mulheres viu-se uma multiplicação de subjetividades, enunciados e interseccionalidades: muito além de feminismos brancos, em direção a feminismos negros, queerismos, prostitutas, mães lactantes, transexuais. A luta pela legalização do aborto, contra o feminicídio, e as nuances e estatísticas que separam aquilo que ameaça mulheres brancas e negras em escalas abissais tomaram o espaço público mais e mais, implementando e diversificando pedagogias radicais. O privilégio branco se torna também sujeito de debate. Como então relacionar a vida pública de Dilma (e a perda de seu direito de governar) à vida pública das mulheres, das outras mulheres, que já estavam ‘lá’ no ciclo de manifestações, nas Marchas das Vadias, nas Paradas Gay, na luta pela legalização do aborto? Como resistir na defesa da democracia de direito sem conciliar achatando sob um significante (“luta pela democracia”) a singularidade das lutas que já se faziam públicas a partir do ciclo de 2013?

Pois bem, o que se vê na escala da macropolítica na condução do processo do impeachment e no governo interino de Temer é exatamente a conexão entre a emergência das minorias com o apagamento político de Dilma. O seguimento do processo de impeachment de Dilma enumera causas inconsistentes, contestadas por deputados, promotores, advogados, entre muitos. O processo de impeachment arrasta consigo as vidas das outras mulheres e das minorias, entre tais as que emergiram como subjetividades possíveis pelas lutas e pelas políticas de distribuição de renda. O impeachment associa uma considerada inabilidade de governar de Dilma (por ser mulher, por seu histórico de luta) ao achatamento de modos de vida que, na perspectiva heteropatriarcal, não deveriam adquirir autonomia. A emergência de novos modos de vida, por direitos adquiridos, pelo ensaio de estado de bem estar social não é desejada por aqueles que operam esse “golpe ideológico” – fato comprovado na fala dos deputados heteronormativos e fascistóides no andamento das votações para o seguimento do impeachment no Congresso Nacional. Tais atores da macropolítica não economizam em afirmar que fazem parte de um extrato privilegiado da sociedade, reproduzindo binarismos crassos tais como poder do opressor sobre o oprimido!

 

Nós, dondocas? #Sóquenão

 

Uma matéria na revista Veja sobre Marcela Temer, a mulher do vice Michel Temer, com o enunciado de “bela, recatada e do lar” foi lançada no dia seguinte da votação na Câmara pelo seguimento do processo de impeachment (Junho/2016). A matéria foi suficiente para expor a mentalidade machista que se apresentou na condução do processo de impeachment. O binarismo com o qual o heterocapitalismo rege a vida da mulher ali estava explícito: a orientação da mulher à vida do lar, e a política como “assunto de homens”; ao que “mulheres públicas” responderam prontamente. A mulher cuja vida é “apenas do lar” é tão somente a dondoca, esposa do político corrupto. Há, entretanto, outros binarismos para serem quebrados: (a) os trabalhos domésticos e de cuidado feito por outras mulheres negras e de cor, trabalhos que por sua vez sustentam a vida pública das mulheres que tem o privilégio de ter vida pública; e (b) a vida das mulheres negras, de cor e indígenas, sujeitas à opressão de muitas ordens, cujas vidas não foram representadas na hegemonia branca agrupada pela resistência à “bela, recatada, e do lar”, mas sim no “bela, guerreira e da luta” (e infinitas variações). Mulheres negras e trans se posicionaram em contraposição a esse enunciado, trazendo no seu lugar imagens de pessoas que lutam, de mulheres brancas e não brancas cujas vidas são ameaçadas nas diversas formas de machismo e feminicídio que diariamente as molesta e oprime.

No heterocapitalismo, os enunciados do mundo patriarcal replicam a realidade das mulheres atreladas à vida privada, em que a sexualidade das mulheres é a todo o tempo equiparada a uma escala de modos e valores dos homens – o que chamo de modos de semiotização do modo de vida das mulheres determinados pelos homens. Esses modos machistas, patriarcais, heteronormativos, escondem por sua vez diversos modos de semiotização que incluem submissão, violência, sexualização e evidentemente trabalho precarizado, e não remunerado.

Quem viu a imagem de uma mulher sem consciência após uma bomba de gás em Brasília no dia da votação do impeachment no Senado? Ela tinha cerca de 20 anos, tinha vindo do nordeste e fazia parte do protesto contra a votação do impeachment. A imagem de Marcela Temer (no “bela, recatada e do lar”), por sua vez, foi produzida para funcionar como uma espécie de espelho que pretende operar como um espelho binário, engolindo as mulheres na sua diversidade. Ela deixa evidente que o machismo não é coisa apenas de homens, mas também daquelas mulheres que lutam contra o feminismo, e das mulheres protagonistas do “feminismo” que sujeita a mulher ao modo da vida pública semiotizada por homens. Naquela lógica do espelho, a vida pública de uma mulher que luta não é possível. “Do outro lado” do espelho da dondoca cosmetizada há, contudo, uma variação incontrolável de mulheres e minorias que lutam, que à sua maneira sustentam um país, no trabalho, nas universidades, nas escolas, nas casas, nas lutas sociais.

Eu, como mulher, branca, como militante, como acadêmica, como mãe de uma menina, como pessoa que anda em busca e ou em defesa da democracia, tenho cultivado um olhar para a vida das mulheres que mais e mais perturbam a “vida da normalidade”, a vida heteronormativa. Cavando dentro de mim o privilégio branco ainda não muito analisado, tenho aprendido que as militâncias feministas não brancas e não transfóbicas são essas que transformam pelas ações, pela proliferação de sentidos de ser mulher, mãe, trabalhadora, militante, pelo fazer política e preservando uma ética de preservação da vida contra o capital. A vida persevera ainda que oprimida, ainda que o fôlego seja roubado a cada dia.

 

Análises, análises, análises

Se reclamo a imagem e a força de Dilma como mulher agora – e ao mesmo estendo a significação feminina para as subjetividades que emergem e para a democracia ela mesma – , é para compor com as resistências que se levantam – resistências de diversas ordens, não apenas que se aliam diretamente à defesa das mulheres ou do partido das trabalhadoras, ou dos partidos dos outros trabalhadores – não incluídos na problemática identidade partidária que o PT replica. Hoje vemos que a luta pela vida pública de uma mulher afastada de seu poder de governar (Dilma ela mesma) não pára nesse feito, pois afunda o exercício de uma democracia, e achata as subjetividades emergentes em seus processos de luta. Como disse acima, a força que tirou Dilma destrói paulatinamente os direitos constitucionais (educação, saúde, previdência … ) e os direitos adquiridos (Bolsa Família como ícone, e um sem número de benefícios (3) ). As forças fascistóides que tomam o Planalto Central, tomando o lugar de protagonistas centrais, literalmente, não economizam em oprimir aqueles corpos que se distinguem na multidão que protesta, não economizam em oprimir aqueles corpos e modos de vida que fogem da normalidade binarista e da servidão ao trabalho como o primeiro ponto para a civilidade de direitos.

O desafio que aquelas e aqueles que não abrem mão de falar como mulher, ou como vozes a partir de suas minorias, daquelas e daqueles que não se identificam no binarismo do pró e contra o golpe, e que não se aquietam sob a defesa de “Volta, querida!” – pedindo a volta de Dilma – , têm sido buscar entender se é necessário produzir uma demanda comum. Por hora a luta pela democracia pode ser o ponto onde se concentra a força que faz perseverar movimentos… Li no livro Undercommons que “adquirir ‘governabilidade’ é colocar a democracia a trabalhar. (…) A governabilidade é sempre gerada, sempre orgânica a uma situação. A democracia [por sua vez] não se encaixa em muitas situações, e deve ser trabalhada (…)” (4). Não teria sido a “governabilidade” aquilo que o PT perdeu nos últimos anos? Diante da afirmação do co-trabalho entre democracia e governabilidade, pensando na singularidade dos movimentos que já estão em curso, vou contra a conspiração que achata os sonhos de que diante de um preâmbulo de uma crise econômico-política ainda maior ainda não conseguimos definir a “pauta do dia.” Basta um olhar não histérico porém talvez um pouco histriônico para o dia a dia das lutas. Basta encontrar mais pontos de análise do que #ForaTemer e “volta democracia”.

Duas perguntas para complexificar essa análise: (a) diante do teatro das representações da política no planalto central que articula o impeachment/golpe, será que os movimentos, na escuta de suas singularidades, se fortalecem sob o enunciado comum da defesa da democracia? (b) na relação democracia/governabilidade não seria o chamado por eleições gerais o ponto de concentração – temporal, contingente – das lutas pela democracia?

 

Singularidades em luta

 

Para que servem enunciados, imagens, memes quando circulam? Para desprogramar o dito que se afirma como verdade. Para desmascarar o óbvio (a objetividade da macropolítica e do heterocapitalismo na sua relação com a corrupção econômica, com o corporativismo, com a meritocracia) e trazer dispositivos que disturbam. Mas como é que a replicação desses enunciados, nessa semiótica incontrolável, interfere na normalidade heteronormativa e machista que vemos replicada não só na mídia, cada vez mais assustadoramente no discurso dos “nossos” deputados, senadores, interinos, ministros, mas dos nossos primos, vizinhos, amigos, …? As redes sociais e seus memes operam muitos endogenismos – o fato que na grande maioria das vezes falamos entre nós mesmas e mesmos. Como modular esse trabalho semiótico para que não corrobore ainda mais na reterritorialização do outro a partir de suas formas já concretas (anti-feminazi, anti-esquerdistas, anti-socialistas, anti-transgeneristas, anti-bolsista, anti-cotista…); e para que não opere, portanto, na contuidade da endogenia dos enunciados?

O heteronormativismo gera apenas duplos, duplos negativos de uma vida pública, duplos que são opostos: vida do trabalho e vida do lar. A vida pública, gerida na dobra democracia /governabilidade, fica a cargo dos privilegiados corruptos e meritocratas – todos homens. Nos modos normativistas, sem dúvida, a vida é controlada e cosmetizada, e se move cada vez mais longe da potência da vida ela mesma (potência de criar, e diferir). Nos modos normativistas a vida se torna potência de expressão de semióticas pré-codificadas. Não há imagem mais radical para o heternormativismo do que a das mulheres com seus peitos de fora, amamentando, vadias, lúcidas e luxuriosas; não há imagem mais radical que as transgêneres diante do espelho binário heteronormativo. Vidas, por sua vez, semiotizadas pelo desejo, não pelo desejo de poder identificado ao capital patriarcal, corrupto, corporativista e meritocrático.

A dimensão pública da vida de uma mulher só pode ser a dimensão que acolhe e que desgarra a luta. A dimensão pública da vida de uma mulher é o embate direto ao machismo estrutural, e também ao heterocapitalismo que tenta destruir os direitos da minorias. A luta das mulheres vai além da luta pela democracia, uma luta que não se esgota em demandar, em replicar enunciados, mas gerar condições para a vida ela mesma, construindo diversos comuns além do binarismo público / privado. Não é à toa que vários movimentos falam há décadas do “comum das lutas”. A singularidade das lutas, por isso, vai contra o aparelhamento que sofrem vários movimentos, entre eles, a sobrecodificação da luta pela democracia como eco de governismo PTista. A singularidade das lutas, que está para além da luta pela democracia é aquela que não deixa esquecer a constante dobra entre o indivíduo e suas formas coletivas, em que o subjetivo e o político fazem parte da mesma matéria, o subjetivo e o objetivo da vida e das lutas.

O que a democracia/governabilidade pode aprender da singularidade das lutas, do modo de lutar das mulheres e das minorias, é a ética de proteção à vida, o que merge (mistura, promiscui) a democracia com correntes do feminismo contra-heterocapitalista propriamente dito. Portanto, a democracia/governabilidade não se torna possível apenas quando fomenta um “estado educador”, implementando e apoiando pedagogias diversas, auto organizadas, de proliferação de sentidos e de semióticas a partir de uma ética de variação da vida, mas quando há uma permeabilidade mínima com o poder representado, aquele co-trabalho democracia-governabilidade. Se a democracia garante a vida, ela deve ser defendida. Mas se aqueles que estão em poder das transversais que estendem o governo à democracia operam em favor de interesses corruptos, corporativistas, fascistóides e meritocráticos, heteronormativos, seu poder deve ser destituído. A democracia no atrito com a governabilidade, como espaço de gestão e cuidado da vida só é possível se pode garantir a tomada de voz a partir das diversas singularidades que nos constituem. A democracia, como mulher pública e que luta, é efetiva quando acompanha os percursos éticos das mulheres, das mulheres de cor, negras, indígenas, das minorias, das crianças, das velhas e dos velhos, dos homens, das estudantes e dos estudantes, das grevistas e dos grevistas, das trabalhadoras e dos trabalhadores, para além da dicotomia público e privado e dos modos heteronormativistas que semiotizam, oprimem e isolam nossos corpos. É preciso seguir o movimento em direção às lutas comuns, mas preservar a singularidade, para que possamos lutar para além da vida pública da democracia.

Agradeço a leitura e comentários de Barbara Lito, Luciana Knijnik, Giuliano ‘Djahjah’, Guilherme Reis e Valdiria Thorstenberg.

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Notas

(1) Não posso deixar de fazer uma ressalva aqui: o texto se refere ao embate macropolítico em âmbito federal, porém procura estabelecer transversais com lutas de minorias e lutas locais. Populações historicamente oprimidas tem colocado ‘antes’ da demanda pela resolução do pró ou contra o golpe a demanda pelo fim da repressão policial, substituindo o “Primeiramente #ForaTemer” por “Primeiramente #ForaUPP”. Como exemplo, o movimento organizado recentemente #FomedeViver, no Rio de Janeiro.

(2) Referências para leitura são Amaya Perez Orozco (Subversión feminista de la economia: aportes para un debate sobre el conflicto capital-vida. Madrid: Traficantes de Sueños, 2014.) e Silvia Federici (El Caliban y la Bruja, Mujeres, Cuerpo y Acumulación Originaria. Madrid: Traficantes de Sueños, 2010).

(3) Programas de distribuição de renda, criados ou mantidos pelo governo de Dilma: Bolsa Família, Bolsa Atleta, Bolsa Escola, Bolsa Estiagem, Bolsa Permanência (PBP), Bolsa Creche, Bolsa Verde entre outras.

(4) Stefano Harney e Fred Moten. The Undercommons. Autonomedia/Minor Compositions, 2013.

Loucura (Análise da,)

Loucura (Análise da,)
Cristina Ribas

Alguém imagina-se sem laterais. Sem classificações. Sem trilhos. Tudo o que tem a cuidar é o seu próprio corpo. Alimentado com café e muito açúcar. Alimentado com o que sobra de afeto dos outros que passam. Ou, cuidado bem de dentro de casa, ou bem cuidado numa casa-coletiva que lhe produz junto, como engrenagem macia. Vida que borda, vida que compartilha, vida que aprende a cuidar do outro. Vida que se separa de si mesma, que imagina outras realidades, mais materiais e mais imagéticas que essa convencionada aqui entre nossos corpos. Vida que não se separa da vida dos outros.

Uma das loucuras do Brasil é essa soltura de modos de gente que se acumulam nas calçadas ou que se escondem e se misturam nas instituições manicomiais e nas casas compartilhadas. Que cantam por aí. Que fazem teatro. E que dão discursos nos bancos corruptos.

A loucura não é só do Brasil, claro. Mas alguma razão há por que tem tanta loucura aqui. E há algo que faz essa loucura visível, muito visível. Ou são meus olhos que vêem demais a soltura da loucura.

Há modulações da loucura, assim como há modulações do cuidado da loucura.

A análise da loucura, por sua vez, não deve ser uma que a abafa. Ou moraliza. Não deve ser uma que medicaliza, uma que faz a loucura desaparecer. Nesse sentido, deve ser uma análise de cuidado ativo, produtivo, que não multiplica a loucura per se, mas que encontra com elas caminhos de efetuação da vida. A análise da loucura deve tornar-se análise do desejo.

A análise do desejo produz uma trama fluída, que compõe com a liberdade da loucura. Mas com o fim da  liberdade detecta-se a expressão de microfascismos. Ali a loucura ‘vira’, é outra loucura. Que nos chama aos nossos limites. Olha pra isso. Olha que loucura! Já não mais cremos no que vemos.

O que é que se concentrou no corpo daquele homem-policial? Que energia ou fraqueza foi transferida a seu gatilho que disparou e que matou o camelô na calçada da Lapa? (São Paulo) O homem é logo submetido a análises patologizantes – sua esquizofrenia, suas neuroses, suas psicoses, seus medos, suas nóias, seus crimes anteriores. Arrisco dizer: sua loucura primeira e última: ser policial. O mesmo se faz com aqueles que protestam, claro. Mas esses são classificados como loucos ou perigosos para que imediatamente seu potencial político seja apagado. Arriscam dizer: sua loucura: o desejo de protesto. A personificação dos casos não pode, contudo, interromper a compreensão de como os eventos são sintomáticos de modos sociais, de organizações e instituições que nos formalizam. Ou às quais resistimos.

É nesse ponto que a análise da loucura não pode descansar. Ela vai perceber as sutilezas, as especializações, as acoplações com o poder. A loucura higienista, que se torna controle da vida alheia. Que faz gente desaparecer, gente morrer de fome, gente vadiar sem casa, gente revirar-se em resistência. A análise da loucura vai tentar ler aquilo que autoriza a expressão das linhas mais e menos visíveis de microfascismos que, por sua vez, revelam sua relação intrínseca com uma superestrutura. O fascismo na sua dimensão macropolítica.

Loucura já conhecida, disfarçada de política. Loucura que não é o governo do navio dos malucos, daqueles soltos e libertos, daqueles exilados, e daqueles autonomizados, que criam e que diferem. Mas daqueles que marcham juntos diante de um altar, que desejam um porvir que não chegará em vida, que vendem suas almas.

Entre a loucura do fervor religioso, do fascismo e da homofobia não há muita diferença. Elas se associam ao discurso do poder e de uma moral normalizante que autoriza o massacre à luz do dia de casais gays, de povos indígenas, de velhos e de pobres negros, de mulheres fortes e de prostitutas, e dos loucos libertos por eles mesmos, que anunciam sair de um tipo de mundo, de um mundo estritamente normal e economicamente produtivo.

Eu olho para esse modo da loucura que produz uma moral maior sem ética. São loucuras higienizantes que operam nos tribunais, nos conluios econômicos, nos esquadrões policiais. Sua fraqueza é um desejo de poder. A loucura colada ao microfascismo e ao poder de estado produz uma realidade comum que se opõe a abrir qualquer negociação social. Bolsonaro. Cunha. E talvez seja errado analisar desejo de poder chamando-o de loucura. Talvez seja uma tentativa de captar e isolar ao modo da patologia aquilo que já não mais podemos aceitar.

A análise da loucura não é, então, detectar uma loucura boa e uma loucura má. Nem isolar a loucura como sintoma de uma pessoa só. A loucura, assim como o desejo, são produções sociais. Analisar a loucura é ir por outros lados: ir para além da domesticação da loucura e ao mesmo tempo estar atento a intervir na loucura da moral sem ética que se facializa com o poder, que se expressa como controle, que é esquadrinhada e cientificizada em planos de ordem e produtividade social.

Da análise da loucura, da loucura solta, que não tem medo de destruir a si, pode emergir por meio de um escrutínio incontrolável, da abertura de um diagrama complexo, o poder que centraliza o fascista, e ele, transparente, isolado, neurótico e fóbico, com medo da multidão promíscua.

Para exceder uma cidade, um corpo

*Inserções sobre a cidade de Guga Ferraz, que repete o homem
Pedaço de corpo. Este texto é uma parte – um pedaço de pensamento-sensação sobre a produção de um artista. Surge, existe, se escreve, a partir de um corpo (o meu). É lido em outro (o seu). Um texto é uma reação e um desnudamento. Escrito para você. Este texto é uma resposta à apresentação que Guga Ferraz fez de seu trabalho em conversa realizada na Escola de Artes Visuais do Parque Lage no Rio de Janeiro. [1] Retirei alguns pontos para seguir atirando palavras. O texto refere-se à parte do corpo (de produção) do artista – bem por isto peço licença para agregar camadas de terra aos homens nus. Fazer considerações às proposições críticas do artista a questões da cidade do Rio de Janeiro – território produtivo comum, onde vivo há alguns anos -, assim como aproveito para fazer observações à exposição propriamente dita e ao fato inalienável de que o lugar onde expõe agora é uma galeria comercial. O diálogo (do artista) extrapola a capacidade da cidade-da-arte, ou faz dela o limite da sua expulsão, e o texto duplica o debate sobre as contradições intensas que perfazem a cidade. O texto, como proposição, é só um fragmento do manifesto possível. Outras palavras ficam não ditas para que um próximo corpo fale.
Troquei momentaneamente homem por corpo. Na exposição “A cidade repete o homem” na Galeria A Gentil Carioca (onde estava exposto o trabalho de Guga Ferraz, entre Maio e Junho de 2007), há um índio com parte das pernas faltando – imagem apropriada. “Veste” arco, flecha e arma. Um índio é um homem. Mas é o mesmo que a cidade repete? São nove imagens de índios colados sobre uma superfície plana e rígida. A pele do índio é desenhada com retícula. Faz um índio extirpado de seu contexto, que é mais como um super-herói em vídeo-locadora. Corpo de índio é corpo de homem.
Repetição por repetição, você perguntou antes o que define um corpo e a cidade. O corpo não é a cidade. Porém tem relação com ela. E pode ser então que um corpo exista expulsando-se do corpo do outro, tomando espaço, ocupando. Expulsando-se do corpo da cidade. O corpo (humano) é uma superfície sensível, capaz de afetar e de sentir. Capaz de repetir e de diferir. Mas nunca existe na unidade. Existe contaminado, híbrido, modificado, incompleto. Corpos e territórios se mesclam, fazendo-se pela repetição e pela diferença na proximidade de outro corpo sensível, na dimensão de um poder ou do seu assujeitamento. Agora, sobre o corpo que se faz por fora do medo, me parece que sobrevive por que na confusão dinâmica produz uma estratégia (nem sempre artística). Esconde-se no escuro. Pula o muro.
Troquei, mas não sobrepus. O que define um homem e um corpo são perturbantes em aberto. Mensuráveis na medida da enunciação e da experiência. Na exposição há outras imagens de corpos: à esquerda há um exposto, desta vez o do artista. Transposto imenso foi feito para pisar em cima, emborrachado entregue, versão do “Rendido”. Ali se chama “Para saber onde se pisa”. E há outro corpo leve na segunda sala. A imagem de um corpo-menino, rodopiando, trampolim invisível (“Mortal”). Estas são as imagens diretas de homens, ou de corpos. São também o que se compra, mas não objetivamente. Digo melhor, sendo ela uma galeria comercial, não se compra apenas a materialidade (a imagem), mas a inteligência (do artista), e o interdito entre as imagens. É necessário ver de longe, remontar. Ver do alto como num salto lento.
Vi num sonho. Era como uma vista aérea. No topo de um morro – que era um parque – corpos-de-gente morta tinham sido descobertos, desfolhados de um embalsamado antigo. No sonho eu sabia que estavam sempre ali no parque, sob a grama, conservados em camadas finas de terra. Então helicópteros chegavam e, como uma cena de Antonioni amplificada (Blow up), revelavam cadáveres conservados de homens e mulheres em camadas de terra vermelha. Minha irmã do meio chegava assustada e chorava, fui abraçá-la, mas eu tinha as mãos sujas de terra. Depois, no meu apartamento, era dali que olhava o parque. Não podia abraçá-la e na minha casa descobrira também, assim como há nos parques, uma pequena porção de terra. Desconfiei da terra nas minhas mãos, era um pesadelo.
Corpos do tempo do sonho. Foi naquele tempo a ocupação criativa das ruas pelos estudantes em 1968 em todo o mundo, e também os montoneros, os MR, a fuga, o Araguaia (corpos escondidos, homens, mulheres e crianças). No aniversário de 40 anos da revolução muitos atores acordam, uma infinidade de narrativas necessárias emerge. Pode-se rever o trauma, analisar ações e devolver a potência aos corpos. São feitos descobertos – e porque não abertos – tal como os arquivos da ditadura. Para revelar um corpo pode-se dar a ele uma imagem. Contudo, é necessário gerenciar as novas imagens, fazer delas um contexto político menos do controle e mais de um espaço de interação comum, de contra-respostas, de perturbantes.
Um diálogo nunca se sabe onde começa. (Quem atirou a primeira pedra?) Sem palavra nua, na cidade complexa um emaranhado bruto de informações atravessa. Minha irmã mais velha disse que uma criança só formula uma pergunta quando está pronta para receber a resposta. Num paralelo viável, colocar um trabalho de arte na rua é abrir-se para um diálogo, mas é preciso pensar em como receber as respostas. Ele faz uma reação à realidade da cidade, ao que aqui é visível ou invisível, tolerado ou intolerável. Guga se coloca em reação, assim ele diz. A resposta, contudo, insurge na fusão àquilo que a engendra. Muito difícil separar ação e reação. A resposta é estratégia inerente à situação de periculosidade que a gera. A reação do artista que, antes no espaço público da cidade, aqui é modificada para o espaço da galeria (adaptação contextual e formal). A vulnerabilidade da superfície nas cidades, ao revés, não é o resguardo do espaço da galeria. Sem topar o todo da questão – separação considerável – sugiro posicionar seu corpo no espaço entre as imagens. Ali ou nas ruas. Ali ou nos ônibus.
Multifacetada em camadas, a cidade e seus equipamentos só podem ser medidos também na experiência do corpo. Traficar será movimentar por fora dos instrumentos de controle, de constituição da cidade funcional, maquinal, estado, poder. A arte pode ser uma linha de fuga, se souber mover-se. Assim também o texto em outra cidade-fluxo, não superfície (primado do visível). Deverão circular livres, traficados. Enunciar é posicionar-se entre demais. Dizer o não dito. Um texto. Um texto sai de um corpo vivo que se desnuda com a escrita, e talvez por aí se entregue. A cidade não tem lugar para um corpo nu. Tão logo ele respira, outro corpo sobre ele cai.
Expor um corpo. Na exposição percebo os homens e seus corpos nus. Expondo um corpo, não o dele mas pelo texto, vemos corpo-superfície e vida feitos nus. Assim ele os fez: vulneráveis. Retícula. Pixel. Recorte. Na fotografia (assim como na escultura) um tipo de poro dilatado revela uma estrutura sempre recoberta (grão de cocaína, representação nunca vista direta, sempre escondida no plástico preto – imagem pública da morte). Imagens sem fundo, imagens sem contexto. São corpos moldáveis. Frágeis não por sua imagem direta, sem sangue nem apelo, vitimizados pelos títulos: “Coleção Bala Perdida”, “Projeto para cadeado de vidro”, “Troco de arrego”, “Procon do pó”, “Drug Bible”. Perigo eminente, a bala perdida; perigo desejado, a “purpurina” (“C17H21No4”).
Você vê ali que um homem se camufla de outro. Um corpo pode ser um encosto para um homem. Um corpo é uma ferramenta na cidade. Usado sob a força do comando que o faz agenciar elementos, valores, mercadorias. Um corpo é como um mapa para uma cidade: só uma ferramenta. Da mesma forma, ao revés indissolúvel, o espaço da cidade é para um corpo o local de sua produção. São elementos de uma equação nunca repetível. Ou sim. Se assim se afirma. A cidade repete o homem porque suporta máquinas de fazer o corpo do homem dentro da proteção e do medo.
“Polícia / milícia / traficante / outros”. A indefinição dos atores é uma produção que significa o espaço da troca. A potência de diferir de alguns é a capacidade de camuflar-se um e outro, não um ou outro. Definir atores serve antes para defender do desconhecido. Produzir o medo. Do lado de fora, em excesso, sobra o civil – moeda de troca do jogo de adivinho. Civil para tudo o que é “outros”, e que nem é mais produto da cidade – utopia da arquitetura, que se desfaz. O corpo do civil é só superfície de bala, só se toma conhecimento porque a bala não perfurou o concreto da cidade (concreto em estado morto), mas um corpo vivo. A produção do medo justifica as ações da polícia, do estado, da imprensa (espécie de roleta russa em que a função circula sem parar). Não se dá fim à guerra porque o inimigo está em qualquer parte e se faltar também será produzido: dão lhe as balas, o pacote, o tiro na cabeça, quase sempre de costas. Para acabar a guerra só qualificando o inimigo, contradição de que, ao determinar publicamente as características do inimigo, aquilo que é polícia será capaz, por fim, de prender a si mesma.
E o traficante não é de sonhos. Seu corpo não se vê, a não ser como morto (jornais). Não tem voz, ora porque não quer ser visto, ora porque não pode falar. (Guerra intransmissível.) Poderiam falar o indizível, desnudar a guerra onde se encaixam. Silenciam a bala. À bala. Na cidade-do-asfalto, por outro lado, há corpos que se pronunciam. Retórica excessiva. Indeterminação proposital e irresolução de sua finalidade última. Mostram-se como afirmação de poder porque são o poder instituído. Defendem ou driblam? Suas vítimas são os corpos que, se forçados, se entregam. Estes não tem poder. Não respondem. Só repetem.
Nossos corpos. Indefinida atribuição na nudez da vida, uma ação só é realizada pela prática acoplada ao desejo do corpo. A nudez do corpo não é retórica. A sua vulnerabilidade contempla a inexatidão do seu uso. Para além da unidade de um corpo, são agências móveis que os modulam. São movimentos rápidos que desviam.
Partilha do mesmo (mundo) ou expulsão forçada dele. O ônibus em chamas é um coletivo: ali se partilha o medo, que é real (como disse Luis Andrade) [2]. O mapa em chamas mostra os pontos de conflito na cidade (“Roma de Nero”). Mapeia sobras do espaço nomeado e conhecido. “Ônibus incendiado” transbordou o desenho sobre as placas e penetrou na outra cidade, aquela das marcas e das capas, contradição daquilo que ora se instrumentaliza, ora diverge no caminho necessário do protesto, e que faz pensar: é possível confiar na fortaleza gráfica da imagem, ou é preciso sempre contextualizá-la? Esta é a mão dupla da multiplicação da imagem da intervenção, que o artista atualiza quando o ônibus vira “Limosine”. A gráfica imprime uma informação estrita. O medo é coletivo. Ou comum. Assim também sua produção. E o assalto a mão armada é repetido tal como os equipamentos da cidade. Guga imprimiu 100 adesivos para ônibus (“em caso de assalto, não reaja”). Na repetição pelo excesso pode ter lugar uma manifestação indireta: a multiplicidade de superfícies da cidade é ocupada densamente por imagens suavemente estranhas a seus sinais.
Fazer arte na rua é despertencer da arte. Cidade-da-arte que repete um homem. Mas o que se propõe? Plottar um corpo é dominá-lo? E a cidade? Mapeando, não oferece lugares aos corpos. Mostra na verdade a indefinição destes lugares, pela nudez dos corpos. No jogo da dissimulação importa perguntar que quer quem na cidade? Pergunta que trará a seguinte: a quem é possível se aliar na cidade? A cidade só existe com os usos que se produz sobre ela. Tal como os usos do corpo.
Para se reconhecer dois corpos gritam. Quando gritam entrevêem um território comum. Demoram a se entregar pode ser ora por que tardam a decifrar seus sinais, ora porque não querem entregar-se ao contexto comum (não te vejo, miragem, temo). A não ser que gritem antecipando a imagem. Se todos têm armas, como saber quem é aquele que defende? Gritar requer um corpo exposto, posicionado. É uma reação (não é a bala perdida, projétil no escuro). Em outro contexto, resposta se torna explícita, na (anti)tática da galeria de arte trata-se de fazer arte em certa medida periculosa. Entregar-se, para quem?
Em outros trabalhos do artista, o diálogo fora com a imprensa (produtor do contexto insensível, simultaneamente fábrica da imagem do medo, pronunciante da segurança comercializável no espaço da cidade). Naquele meio, em geral, a difusão da arte encontra mutismo e descontrole do discurso sobre a arte. Mas alguns aspectos são interessantes no caso de Guga, como a camuflagem na página policial e uma repotencialização do trabalho a partir do lugar de conversa desejado (forjar um discurso policial, ocupando seu espaço). A imprensa ora confunde, ora entrega, e se torna mais um discurso na diversidade de falas palpáveis da cidade. Mas, no caso do artista, como ele deixa em aberto um espaço para receber outras intervenções? Reações?
No espaço crítico de enunciação o que se deseja é uma difusão dispersiva – contaminar corpos. Não debelar. Na conversa no Parque Lage Guga fala a partir de um vocabulário estranho. Eventualmente policial. Eventualmente traficante. Palavras estranhas ao campo das artes, a não ser agora, onde entrevemos um espaço de resposta que não o senso comum da (in)segurança. Outras palavras revelam outros corpos. Periculosidade. Do que se protegem os corpos na cidade? Ser artista é desnudar a si. Diferente do trabalho na rua, na galeria tudo tem identidade, assinatura, autoria. Institui-se. Retira o artista do anonimato e insere sua produção numa resposta formalizada e por isso mesmo perigosa. Será que o desnudamento nomeado é uma entrega ao campo da arte? A comercialização de sua esperteza? Ali a nudez do artista é também toda sua vulnerabilidade. Mas a palavra é necessária. Ou mesmo o falso mutismo da imagem.
Entre a percepção do contexto sensível e a pertinência a um contexto político, jogo tornado explícito por Paolo Virno [3], um corpo que se pronuncia se torna um corpo sem medida. Pela via da arte, não retilínea estratégia ao estado da insegurança, um corpo-de-artista pode se tornar imprevisível se suas respostas são desvios aos medos hipócritas da cidade. Incendiar a limusine denuncia o já sabido: a partilha ao território comum da periculosidade e da incapacidade de ação, ou a afirmação de que não há segregação social que não seja resultado da manutenção de alguns controles. Guga desenha um mapa. Ninguém está “de fora” da guerra, seja porque esquiva-se dela, seja porque a consente. Mas, na galeria os patuás compráveis não defendem da cidade-sem-estado. Missão difusa. O desafio de fazer arte nos termos da objetividade de uma reação é a ousadia de destituir a finitude da vida mensurada pela mídia, pela polícia, tornando-a da mesma forma uma ferramenta coletiva, de muitos. Na unidade-multiplicidade da equação, está também o desafio de fazer do corpo do artista um corpo sem medida. Flexível tal como aquele jogo do erro para assinalar um colchete dado a cada personagem real: polícia, milícia, traficante, outros. Ao que adiciono: artista, público, você. Desafio desejado de não repetir a si como elemento na cidade mercadoria, mas encontrar o lugar da ação potente. Não da resposta reconhecível. Fazer-se corpo coletivo, corpo partido-com o corpo do outro. Entregar-se à incerteza da constituição política – imprevisível constituição indecente frente a um estado escuso.
A morte é indecente. (Palavras sem sentido. Palavras sem corpo voam como balas perdidas, caem onde?) Assim Guga disse ao final da fala no Parque Lage. A morte é indecente. Ao que eu respondo que o não comando sobre a vulnerabilidade da vida é que é indecente. (Ou esta é a condição última da vida e do vivo?) Para saber onde piso, tateio se aquele corpo exposto é realmente um corpo vulnerável. Um corpo, não uma unidade de corpo, só existe na medida da sua experiência. Daí que atos passionais excedem os corpos. Revoltas excedem corpos. Colocam-nos novamente em situação de vulnerabilidade. A violência os violenta. Você responde. Excede a um corpo. Doa-se a si disponível para sua desmesura. Ousa, esquiva-se. Improvisa. Salta no vazio. Mortal. O que é homem, e por contigüidade humano, vai se refazer de uma desordem. A dimensão da não-repetição de um corpo é a dimensão de sua potência – de diferir.
[1] A Conversa foi realizada dia 13 de Maio de 2008.
[2] Este texto estabele um diálogo com o texto de apresentação da exposição de autoria de Luis Andrade.
[3] Refiro-me aos textos de Virtuosismo e revolução, de Paolo Virno. Ed. DP&A, Rio de Janeiro, 2007.
Publicado na Revista ReDobra

Camuflagem

Camuflagem:

Reli um pedaço do Jacques Derrida:

(…) gênero daqueles que têm lugar, por natureza e por educação. Vós sois, pois, ao mesmo tempo filósofos e políticos. (…) estratégia (…) de Sócrates (…) desnorteante (…) enlouquecedora (…) simula colocar-se entre aqueles que simulam (…) pertencer ao genos daqueles cujo genos consiste em simular (…) a pertinência a um lugar e a uma comunidade (…)

Na atualidade, artistas não exatamente se caracterizam estritamente enquanto tais. Suas ações fazem migrar entre si fatos estéticos da crítica à política, desenvolvendo aprendizagens, tornando-se organizadores, educadores, gestores, historiadores, mediadores, entre outros. Novos corpos surgem nesses agenciamentos. Eventos recentes no terreno do Brasil expõem a constituição de uma especificidade na forma de “esferas públicas” temporárias e fragmentárias, sem esquecer que se tratam de proposições com especialidades próprias. Importam nas “esferas públicas” as intensas trocas sociais instigadas entre participantes não identificados estritamente a um campo ou circuito comum de produção cultural, mas a ele associados pela via direta das práticas, que hoje se abrem entre artísticas, comunicativas e expressivas, para desenvolverem problemáticas sociais vividas por todos. A esfera pública se inscreve, necessariamente, em um “onde”, como questão.

Ações neste “onde”, que não está dado a priori, parecem produzir corpos diversos (mais que humanos). Se tornam, é possível, elementos conectivos de um grande dispositivo novo, que converge ou diverge de um território em constituição: a cidade. Analisando ações em conjunto, observamos a diversidade das práticas e o corpo de uma coisa ainda disforme. Assumem existências sem finalidade dura. Outras práticas, porém, clamam direitos. Pensam essa cidade como território produtivo, lugar de enunciação, emergência do protesto. Nela tornam explícita a realização da vida. A cidade como território produtivo clama um posicionamento, mas qual será o corpo que nela atua?

Há algum tempo me dedico a produzir formas de fazer pensar e des/entender as motivações pelas quais artistas e produtores culturais, nos anos mais recentes, se dirigem a algo que cambia e cambia de nome, mas que constantemente se reinscreve como “cidade”. Nela(s), pela promoção de esferas públicas, ações entre pares e des-pares, provocam parcerias e desencontros, sustos e atropelos, coadjuvam uma série de expressividades, comunicações e intrusões. Nestas composições, há mediações e capturas.

Nalgumas situações, nada melhor do que ser estrangeiro e brincar nas cidades desconhecidas para deflorá-las. Noutras, não é possível, e não se pode atropelá-las. Em alguns territórios não há sempre becos. Não há esquinas possíveis. Não há possibilidade sequer de escuta. Nada se captura. Em outros lugares, ações provocam alardes. São produzidas como em territórios neutros. São espetáculos desejados com promessas de sucesso. Mas, causam vertigem?

Interessa pensar esse território descontrolado para autorizar-se, talvez, a uma camuflagem. Estratégia (…) enlouquecedora. Perpassamos o risco. Não pode se tratar aqui de comercializá-las. Não podem ser nem turísticas, nem históricas, cidades inteiras. Maré e Alagados, territórios contextuais. Não se pode pensar quantos isso ou aquilo. Não se pode.

Ao mesmo tempo em que eventos no Brasil têm promovido o uso de “espaços públicos”, acompanhados de pensamentos teóricos que ancoram criticamente (em termos de linguagem) e afirmações (conquistas políticas), aqui de fato caímos na cidade do desmedido. Com isso, gostaria de suspender a certeza de que ‘sabemos o que estamos fazendo’ (discursos do empreendedorismo) e chamar para a uma análise atenta das possibilidades políticas dessas cooperações. Nem nítidas, nem verdade. Incitação de nascimentos, de coisas disformes informadas pelo protesto, que não podem se esquecer da presença política de corpos, em que se pergunta: qual a disponibilidade desses novos, outros, “corpo” e “cidade”?

Publicado no Caderno Provocações / 2010 / CorpoCidade, UFBA, Salvador