Complexidade, Cartografia de

{resumo}

A noção de complexidade emerge no trabalho de Felix Guattari relacionada à sua produção de cartografias esquizoanalíticas (GUATTARI, 2013). A complexidade como conceito pode ser pensada da mesma maneira que as cartografias esquizoanalíticas, ambos conceitos são gerativos e servem não apenas para entender, mapear e analisar mas também para incitar, inventar, criar, modular processos. O conceito de complexidade, junto com a análise de Guattari de modos de subjetivação no capitalismo contemporâneo é muito útil para entender políticas de subjetivação (ROLNIK, 2010) implicadas em modos de produção contemporâneos, seja no campo das artes, da clínica, dos movimentos sociais e outros. Neste artigo eu discuto o trabalho de coletivos, grupos, projetos de pesquisa que têm usado a cartografia de complexidade para trabalhar processos na tensão micro-macropolítica. Eu argumento neste artigo como processos cartográficos são constitutivos dos cartógrafos-pesquisadores eles mesmos, interferindo portanto na dicotomia que separa pesquisador do objeto de pesquisa. A cartografia opera como ferramenta militante e micropolítica, realizando a análise dos fluxos do poder e do capital, ao mesmo tempo em que atua como ferramenta constitutiva de processos de subjetivação, em seus processos de singularização na resistência à diversas opressões.

{da introdução}

Ressalva

A cartografia de complexidade quando aplicada na composição de territórios, na apresentação de mapeamentos, na criação de planos diversos, na criação de novos signos que desviam das significações dominantes é também uma destruição. Quando dizemos cartografia funcionando como ferramenta de composição de lutas de resistência, devemos considerar também a função destruidora das cartografias. A “cognição criativa” (KASTRUP, 2008) trabalhada a partir dos métodos cartográficos não é, portanto, meramente acumulativa. Ela opera por meio de processos e modos de semiotização que além de seleção, edição, desenho, também realiza cortes, apagamentos, destruições.

Complexidade como um conceito

De que maneira a cartografia trabalha processos de singularização ao mesmo tempo em que realiza uma análise do sistema econômico e político que é necessário enfrentar? Neste texto investigo a noção de complexidade como conceito acessório para produzir e analisar processos e projetos que desenvolvem mapas e cartografias, sejam eles mais dedicados ao mapeamento dos fluxos do capital ou à emergência de resistências aos efeitos desses fluxos. Investigo então o trabalho da complexidade como conceito que corrobora nas políticas de subjetivação que os métodos cartográficos mobilizam. O campo teórico e prático são as cartografias esquizoanalíticas desenvolvidas por Felix Guattari1 como processos cartográficos operam processos de singularização ao mesmo tempo em que produzem uma análise dos contextos econômicos e políticos nos regimes de austeridade do capitalismo contemporâneo, aos quais é necessário resistir. São matéria deste texto o capitalismo contemporâneo, as lutas de resistência às subjetivações capitalísticas e as políticas de subjetivação e singularização das lutas elas mesmas.

A noção de complexidade emerge no trabalho de Felix Guattari relacionada à sua produção de cartografias esquizoanalíticas (GUATTARI, 2013). O conceito de complexidade pode ser pensado da mesma maneira que as cartografias esquizoanalíticas, ambos conceitos são gerativos e servem não apenas para entender, mapear e analisar mas também para incitar (unleash), inventar, criar, modular processos. A complexidade surge com as bifurcações incitadas pelos processos clínicos no seu encontro com a micropolítica, e faz parte da heterogênese ontológica de Guattari. Guattari define em Caosmose (1992) que “a esquizoanálise, mais do que ir no sentido de modelizações reducionistas que simplificam o complexo, trabalhará para sua complexificação”, o que ele chama de um “enriquecimento processual”. A esquizoanálise e a cartografia trabalham então de maneira a corroborar a “tomada de consistência de linhas virtuais de bifurcação e de diferenciação” (GUATTARI, 1992, pp. 90-91) em processos de subjetivação. Essa proposta diagramática (e não programática) de Guattari não quer levar sujeitos concretos a bloqueios reais, expondo suas vidas a um caos que os imobiliza, mas quer incitar “caosmoses”. Aquilo que nos imobiliza, por sua vez, são os processos de subjetivação capitalísticos, que exaurem nossa potência de desejo, pré-significando nossos fluxos produtivos dentro da normatividade do capital (subsunção da arte, subsunção da política, subsunção da clínica, subsunção da cartografia – tudo a serviço de uma reprodução social colada ao significante capitalístico). (…)

Para o texto completo baixe aqui

Publicado originalmente na Revista Indisciplinar (UFMG), 2015

duelos sobre a maternidade

sei não essa coisa da #maternidade ser tão polêmica é porque nos mostra simplesmente que todos saímos de uma xoxota arregaçada (ou de uma barriga cortada), depois de meses de um estado nada racional (que se extende à infância claro) em que tudo o que tínhamos era água pura, calor e o ritmo do batimento cardíaco, dos gases, dos movimentos dos corpos de nossas mães e daqueles que as rodeavam. o contraste do mundo da barriga com o mundo ‘de fora’ mostra que somos nem tanto humanos, mas que somos muito mais animais do que gostaríamos, e por tanto controlamos tanto, ou tentamos controlar isso que é assim mistério de multiplicação da vida. quanta prepotência há no duelo sobre a maternidade. é o seguimento do heterocapitalismo, do qual muitas mulheres também se iludem, de uma incompreensão em larga escala de que algo se perdeu. não falo de uma maternidade arcaica, nem só de mulheres, falo de maternagens, de jeitos de cuidar, e de sair desse controle absurdo sobre aquilo que expressamos e sentimos com o duelo que vivemos entre reprodução social e cuidado reprodutivo. é complicado porque nesse tema se separa muito a percepção da mãe-nova-mulher (na onda das novas maternidades super empoderadas) e a criança (e seus mundos sensíveis em construção, e por outro lado as infâncias idealizadas, etc etc). quem sabe uma pequena viagem à nossa própria vida quando embarrigados poderia mudar um pouco a perspectiva.

Processos de pesquisa, produção de conhecimento e criatividade processual /// sinopse

Processos de pesquisa, produção de conhecimento e criatividade processual:

Cartografias esquizoanalíticas no Brasil

A tese analisa o conceito de “cartografia esquizoanalítica” a partir do trabalho de Félix Guattari e seu desenvolvimento prático e teórico no Brasil. Práticas cartográficas vem sendo desenvolvidas extensivamente no Brasil desde os anos 1980, sobretudo a partir das teorias e práticas de Guattari e dos contextos da análise institucional francesa e psiquiatria institucional italiana. Cartografias esquizoanalíticas podem ser desenvolvidas como uma ferramenta ou como um dispositivo para analisar o agenciamento coletivo do desejo.

Cartografias mapeiam e criam: elas são realizadas por aqueles que querem produzir suas próprias vidas, ao mesmo tempo em que resistem à opressão e os diversos modos de subjetivação capitalista que levam à subsunção do desejo, do afeto e da criatividade. Em resposta a isto, essa tese traça cartografias esquizoanalíticas que desenvolvem novos processos de pesquisa e novas formas de organização, subjetivação e institucionalização no Brasil.

Explora termos centrais no trabalho de Guattari, como os conceitos de ‘transversalidade’ e ‘micropolítica’ para analisar práticas de processos de pesquisa na academia, como o grupo de pesquisa Subjetividade Contemporânea, e grupos de teatro trabalhando em transversal com saúde mental como a Companhia de Teatro Ueinzz. Analiso como esses processos trabalham através das instituições, das práticas teatrais da clínica e do corpo social. A tese analisa a relação entre ‘subjetividade processual’ e ‘criatividade processual’, propondo o ‘processual’ como a forma de acoplamento entre sujeitos, modos de expressão e instituições.

Esta tese argumenta contra noções redutivas de arte politicamente engajada que propõe oposições entre as práticas estética e política, e trabalha contra definições institucionalmente circunscritas de pesquisa baseada em prática. Ao contrário, esta tese propõe novos recortes e diferentes genealogias de práticas que transversalizam e radicalizam a produção estética, conectando tais práticas a suas bases políticas, por for a da agenda das grandes instituições culturais, dos mundos e mercados da arte. A partir da análise de práticas, esta tese argumenta que cartografias esquizoanalíticas trabalham conjuntamente a ‘criatividade processual’ e a ‘produção de subjetividade’ permitindo uma reorganização dos campos dapolítica, da estética e da produção do conhecimento.

* Tese aprovada em Dezembro de 2016 no Art Department, Goldsmiths College, University of London, UK. Bolsista Capes – Doutorado Pleno, 2012. Supervisão de Dra. Susan Kelly.

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magic surveillance

pretty magic, such as things are when we are being watched. I arrived at my mum’s house and the post men came with his yellow bike.  I said ‘you do have something for me’. and he hand delivered your purple letter to me. not that he knows me, but we had a quick chat the other day. are we being watched? when you mentioned a letter, it arrived! I played with my mum that the guy delivers letters randomly, each day he picks up one, so trying to predict when something will arrive or stamp date doesn’t make any sense. gracias. te escribo pronto

Adults traps

While our children sleep we set traps. Adults traps. Adults fall in love, get lost in plans, hassle, plan trips, come, laugh, are drunk. Adults swap gender, do make up, have their bodies naked, make themselves either big or small, sneak into each other, suffer and desire, piously. Adults dream that enter each others bodies, and do enter each other bodies. Adults dream in politics, and dream about a passage from one plane to another, as it would be more feaseble, that the military will fall, so they plan attacks, guns, black flags. Between boleros and dramas, bad beer and unfinished analysis, they scratch their bodies in the streets, in the dirty walls, they smoke what burns them inside out.
When our children are asleep, we fly away, and we run over each other, we fight. When our children wake up, they wake up our dry eyes, and a new journey starts. In the fresh morning the revolution of truth, libidinal from another era. In front of the nostalgic eyes of those dreams and comings, in front of the demolished bodies from the previous night, small bodies, subtle, and light. Filled up with plans. And we turn to them – absolutely – gigantic bodies in the morning. New trials and new tests to what ails us. Subtle and light bodies that ask for care, smaller than ours, they proof us that, maybe, we will fail. They bring challenges from another scale. Hangover in the adults eyes, attentive, however, to the marvellous dimension, fantasious, energetic of our children. Our eyes carry some sort of fear, fed by a small-big impression that we wont be able to hold the topsy-turvy dimension of our children’s semioticisations. Small child, its like: inventive present. In the body of the adult, on the other hand, a little bit of death, floating alcohol, unfinished lush, questions of order, greed for a longer night.
We wake up in another plane.

Attack plans from the previous night falter. The world of the adults traps gets lost in the porosity of the morning. Veridical and sweet eyes, usurpating. Usurpating the passage and the crossing plans, delaying for the next night that world of dramas, delirium, erroneous slut, a world of passions. Adults traps. We run over each other more and more seriously than in children’s battles. Of course. We are night gladiators. We have desiring bodies. But the other ones, the small morning gladiators, they put us in retaguard. Small bodies, not less transformative.
When our children wake up we are surrended. We leave behind the bed with its lakes and lascivious marks, we get out to the wilderness of the house, we cross by real obstacles, material, colourful, stockable, talkative, breakable, threatening. The direction of the adults passions is drained by the touch and the sight, for when our children wake up we realise we have gone far, to a world of fears, our smallness, and, in front of us we have an excess of tender, warmth, risk and pure passage.

When our children wake up we burn with longing, longing for the traps we have arranged, as if it would be easy to get rid of them, as if the night betrayals where fair play, as if we would be more equal in these battles, those that when we lose, we strieve even more. Adults create traps as a drift, they play with themselves, they get drunk in their gozos, they relief from pure room of something bigger.
Adults wake up in scorched land (and scorched themselves). But no, its another plane. Consistency by caress, consistency by breaking that sovereignity.

Adulticities. Adults traps get lost in the morning. Small bodies defeat and lead the retaguard. Surrended, adults bodies abandon their projects, and their traps. Navigated by silky affects, the small (gladiators, liders, revolutionaries…) are soliciting us in such a soft way. Even so they call us, they convoke us. They don’t know about our death-alive bodies, the chilly shivering, the sufferings with politics, the crossings of affect. They don’t know we wake up all of a sudden, and from delirium.
They look at our eyes, steady:
– Are we ready, are we?
– Or are we still trapped?

*

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Trampas de adultos

Enquanto nossas crianças dormem se armam trampas. Trampas de adultos. Adultos se enamoram, se perdem em planos, criam lios, e planejam viagens, gozam, riem, estão bêbados. Adultos trocam de gênero, maquiagens, corpos nus, se fazem grandes e pequenos, se inmiscuem uns nos outros, sofrem e desejam, piamente, mais do que podem. Sonham que entram e entram um no corpo do outro. E sonham políticas, e sonham que a passagem dum plano a outro é mais possível, que os militares cairão, e planejam ataques, armas, bandeiras negras. Entre boleros e dramas, cervejas ruins e análises inacabadas ralam os corpos nas ruas, paredes sujas, e fumam o que lhes queima.

Enquanto nossas crianças dormem voamos longe, fazemos atropelos, brigamos. Quando nossas crianças despertam, acordam nossos olhos secos, e começa uma jornada. Na manhã fresca a revolução da verdade, libidinal de outra era. Diante dos olhos nostálgicos daqueles sonhos e gozos, diante do corpo demolido da noite anterior, pequenos corpos, sutis, e leves. Cheios de planos. E nos tornamos para eles –  absolutamente – agigantados na manhã. Vem aí outras provas para as trampas que nos afligiam. Corpos sutis e leves que pedem cuidado, mais pequenos que os nossos, e nos provam, talvez, menos capazes para nossos planos. Os desafios que trazem são doutra escala. Nosso olhar de ressacas é atento, contudo, à sua dimensão maravilhosa, fantasiosa, energética. Nosso olhar carrega um pouco de temor, alimentado pela pequena-grande impressão de que não daremos conta da dimensão escalonada, às avessas, das semióticas infantis. Criança pequena, igual a: presente inventivo. No corpo do adulto, por outro lado, um pouco de morte, álcool flotando, questões de ordem, gozo que não cessa, ganância de uma noite mais longa.

Acordamos num outro plano.

Titubeiam os planos de ataque da noite anterior. O mundo das trampas adultas se perde na porosidade da manhã. Olhos verídicos e doces, a usurpar. Usurpar os planos de passagem, de travessia, a fazer tardar para a noite seguinte aquele mundo de dramas, de delírios, de errôneas sacanagens, aquele mundo de paixões. Trampas de adultos. Se atropelam muito mais e pior que nas batalhas infantis. Claro. Gladiadores da noite. Corpos de desejo. Mas os outros, gladiadores pequenos das manhãs, fazem de nós pura retaguarda. Corpos pequenos, não menos de transformação.

Quando nossas crianças acordam estamos rendidos. Deixando a cama dos lagos e gozos, saímos na selvageria da casa, atravessando obstáculos reais, materiais, coloridos, montáveis, falantes, quebráveis, ameaçadores. O rumo das paixões adultas é dragado no toque e no olhar. É que quando nossos filhos despertam nos damos conta de que viajamos longe, a um mundo de gozos e medos, nosso apequenamento, e temos agora, diante de nós ternura e calidez de sobra, risco e pura passagem.

Quando nossas crianças despertam ardemos de saudades das trampas que arrumamos, como se delas fosse mais fácil desvelar-se, como se as traições noturnas fossem o jogo limpo, aquele em que estamos em pé de igualdade, aqueles em que batalhas não vencidas acendem mais luta. Adultos criam trampas como desvio, brincam consigo mesmos, embebedam-se de seus gozos, aliviam-se por puro ensejo de coisa maior.

Acordam em terra arrasada (arrasados em si). Mas não, é outro plano. Consistência por carícia, consistência por quebra daquela aparente soberania. Adultices. Trampas de adultos se perdem na manhã. Corpos pequenos desafiam e lideram a retaguarda. Rendidos, corpos de adultos abandonam os projetos e as trampas. Navegam por afeto sedoso, pois os pequenos (gladiadores, líderes, revolucionários) nos solicitam da maneira mais suave. Ainda assim nos convocam. Eles não sabem dos nossos corpos meio morto-vivos, de gélidos arrepios, dos sofrimentos da política, dos atravessamentos do afeto. Não sabem que acordamos de súbito, e de delírio.

Nos olham, a postos:
–  Estamos prontos, estamos?
–  Ou ainda estamos atrapados?

*

Versão em inglês [aqui]

A vida pública de uma mulher

O Brasil passa por um momento em que binarismos estão sendo rasgados, a torto e a direito. O crescimento de mídias sociais, uma produção semiótica incontrolável e a tomada das ruas desde 2013 produzem um contraste com as capas dos jornais das grandes mídias que repetem formas e headlines de 30 anos atrás. Para aqueles que como eu nasceram ao final da ditadura de estado e nos politizamos precoces no #ForaCollor, estamos tendo a chance de viver o gostinho do que foram os anos de chumbo, ainda que sabemos que práticas implementadas na ditadura nunca desapareceram das periferias do Brasil. (1) Uma nota: o perigo que incorro neste texto na afirmação de um genérico conceito “mulher” (e ou nas variações que vou abrindo) é parte do espaço para que outras vozes respondam.

A vida das brasileiras e dos brasileiros induzidos ao binarismo do pró ou contra o golpe é atravessada por uma diversidade de discursos: são as minorias que multiplicam os pontos do debate, minorias achatadas pelas porções que se comportam de maneira majoritária. O bloco “de oposição” que tem tirado (ou já tirou) Dilma do poder enseja destruir direitos básicos constitucionais e muitos direitos adquiridos nos anos de governo liderados por Lula e Dilma. Mas o primeiro impacto desse embate têm se dado diretamente contra as lutas das mulheres, contra as lutas das minorias e recentemente, pela repressão aos movimentos que demandam o cumprimento da democracia como direito. A luta por direitos e espaços comuns para além de uma “vida pública” está num embate encurralado contra vidas privadas – vidas ainda mais voluntariamente entrelaçadas com o capital e seus modos de semiotização. Mas por outro lado, nada de novo. Aquele espaço transversal de relação entre a sociedade e o poder representado já vinha sendo anulado no governo do PT e seus aliados, antes mesmo do “golpe”. Sem falar do esgotamento da forma-partido, exposto pelas alianças que se produziram há anos de maneira a tornar primeiro elegível e depois governável uma coalizão. Dilma – primeira mulher presidenta eleita, foi afastada do poder por aqueles que agora se tornaram, no ponto de vista dos que sofreram o golpe, “traidores”. Avaliando o balanço do “pró impeachment” e “contra o golpe” o que é, de fato, que precisamos defender agora? Por onde se movem as lutas? De onde extraem sua força?

Em meio ao binarismo pró ou contra o golpe, a “democracia” virou um sujeito, e porque não melhor, uma sujeita – sujeita ao seu reclame, à pauta em geral de uma sociedade que precisava rever o que se passava no Planalto Central, que precisava colocar nas vias de fato as transversais que conectam (ou não) os cidadãos a seu governo, precisava olhar para a cara de cada deputada e deputado, precisava conferir a austeridade que se implementa pelas forças de um capitalismo neoliberal, cuja primeira plataforma a quebrar são direitos básicos. O debate está, portanto, para além do duplo crise econômica e/ou crise política – é a articulação entre ambas que estamos vendo, é a produção de “crises”, que são matéria mesma do capitalismo financeiro associado à corrupção dos governos e enriquecimento de atores políticos. O que está em jogo são possibilidades de manobra da(s) esquerda(s) no governo, de manutenção de direitos adquiridos e a continuidade da implementação de direitos por vir. Em meio a quebras de contrato, interpretações forçadas de brechas da constituição, pedaladas legais assinadas tanto por Dilma como por Temer, e em meio a defesas que não causam nenhum impacto, “Tchau, querida” se tornou a meme daqueles identificados com a destruição verde-amarelo do governo de Dilma. Outras posições simpatizantes mas não absortas pelo “contra o golpe” se perguntam se “Tchau!” se refere à Dilma diretamente, ou à democracia ela mesma. O bloqueio do PT para fora do planalto central não se concentrou em afastar Dilma mas, nas mãos do vice Michel Temer, se tornou um redesenho homo-orquestrado que tem excluído e fundido Ministérios, entre eles o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos – que eu sugeriria chamar de um “golpe ideológico”, patriarcal, heteronormativo.

No curso do pró impeachment e contra o golpe, entre “Tchau!” e “Fica, querida!”, nos últimos meses vimos no Brasil a destruição midiática da figura pública de Dilma, uma destruição política, que passa pelo machismo estrutural e pela intolerância que cada vez mais tomam espaço na Câmara e no Senado. Esse machismo estrutural aliado à economia foi nomeado pelas lutas femininas de heterocapitalismo (2). O heterocapitalismo é regra em geral não só da sociedade brasileira, mas o sistema de reprodução social que se sustenta no trabalho não pago dos cuidados e trabalhos reprodutivos – pensando os trabalhos reprodutivos e sua relação direta com a reprodução social – ou seja, a maneira como nos “multiplicamos” e somos criados para aderir a um sistema de produção. O heterocapitalismo se especializa na dominação de um sistema político e econômico em que mulheres, mulheres negras, negros, indígenas, gays, transexuais, quilombolas, favelados e muitas minorias são diretamente objetificadas e oprimidas, em favor de modos de vida normativos, urbanos, … consumistas, e na grade maioria dos casos, em crescente débito. No caso brasileiro, o machismo estrutural se manifesta explícita e desavergonhadamente no discurso de Eduardo Cunha, Jair Bolsonaro, Marcos Feliciano e outros tantos deputados. O heterocapitalismo produz a mulher como um imediato do macho produtivo, mulher configurada sem direito de voz, de opinião, de luta, de vida pública. Além disso, o heterocapitalismo, na destruição da vida das minorias (ou na redução da vida das minorias à condição de sobrevivência), concebe o racismo como questão já resolvida, em que o silenciamento (à diferença) é apontado como solução das diferenças.

 

A dimensão pública das lutas, a emergência de novas subjetividades

 

Dilma como mulher pública nunca esteve fora do jogo de especulações, julgamentos, acusações. Uma mulher que, eleita presidenta, tem a todo o tempo sua capacidade de governo diminuída por seu gênero: feminino – julgamento que desencadeia outros tantos preconceitos que são associados pelo senso comum à imagem da mulher, entre eles o descontrole, a loucura, a histeria. Dilma também é julgada por sua luta política, desqualificada por sua radicalidade nos anos de resistência à ditadura, cuja história é combatida dentro da Câmara ou do Senado pela nomeação e homenagem a militares que a torturaram. Que relação a destruição de Dilma como mulher pública tem com a vida pública das mulheres, das outras mulheres?

Em meio à reeleição de Dilma em 2014 as ruas ferviam com protestos que acordavam a maioria e o senso comum (afinal, há muito mais do que O Gigante). Os protestos do ciclo que iniciou em 2013 escancaravam nas ruas o posicionamento dos movimentos organizados e de novas constituições políticas com demandas claras. A tomada direta das ruas explicitava o laborioso cotidiano das lutas nas assembleias, nas comunidades, nos grupos de estudo. Uma multiplicação de enunciados surge: desde a tarifa zero, contra os machismos, a educação como direito, contra a destruição dos ecossistemas e das terras indígenas, contra a violência policial e pelo fim da precarização da vida. A resposta negativa de Dilma para enunciados que criticavam diretamente seu governo foi entre outras a aprovação da lei anti terrorismo, que facilita a criminalização de militantes e de movimentos sociais e à aplicação inúmeras vezes da Lei de Segurança Nacional. As manifestações verde-amarelo que se posicionavam “contra a corrupção”, por sua vez, não foram reprimidas. Por que?

A opressão aos protestos no ciclo 2013-2015, analisada por inúmeras e inúmeros militantes, sociólogas e sociólogos, filósofas e filósofos, foi um sintoma claro do fechamento da máquina do PT-no-governo. A não escuta das ruas e a invenção de inúmeras conspirações para desqualificar o movimento inaugurava a ruína da relação entre governabilidade e democracia de direitos – que requer, por sua vez, a maior quantidade possível de transversais entre a sociedade e o poder representado, uma questão que não se esgota na noção de “representação”, mas que se qualifica na promoção de fluxos, ressonâncias, co-emergências. Ao passo que muitos programas sociais foram criados, a vida pública das brasileiras e dos brasileiros já vinha sendo achatada pela condução a um crescimento do país a qualquer custo, um modo de crescimento que trabalhava por processos de subjetivação pautado na precarização das condições de trabalho, endividamento e desenvolvimento industrial destrutivo, tal como o caso da construção de Belo Monte, como o rompimento da barragem de Mariana e a consequente poluição do Rio Doce e do mar. E agora, o que estamos vendo com Michel Temer, o temível presidente interino?

No ciclo 2013-2015 mulheres complexificaram os espaços de protesto, tornando explícitas uma série de demandas e lutas que ficavam sorrateiramente escondidas sob discursos de demandas políticas majoritárias. Entre as lutas das mulheres viu-se uma multiplicação de subjetividades, enunciados e interseccionalidades: muito além de feminismos brancos, em direção a feminismos negros, queerismos, prostitutas, mães lactantes, transexuais. A luta pela legalização do aborto, contra o feminicídio, e as nuances e estatísticas que separam aquilo que ameaça mulheres brancas e negras em escalas abissais tomaram o espaço público mais e mais, implementando e diversificando pedagogias radicais. O privilégio branco se torna também sujeito de debate. Como então relacionar a vida pública de Dilma (e a perda de seu direito de governar) à vida pública das mulheres, das outras mulheres, que já estavam ‘lá’ no ciclo de manifestações, nas Marchas das Vadias, nas Paradas Gay, na luta pela legalização do aborto? Como resistir na defesa da democracia de direito sem conciliar achatando sob um significante (“luta pela democracia”) a singularidade das lutas que já se faziam públicas a partir do ciclo de 2013?

Pois bem, o que se vê na escala da macropolítica na condução do processo do impeachment e no governo interino de Temer é exatamente a conexão entre a emergência das minorias com o apagamento político de Dilma. O seguimento do processo de impeachment de Dilma enumera causas inconsistentes, contestadas por deputados, promotores, advogados, entre muitos. O processo de impeachment arrasta consigo as vidas das outras mulheres e das minorias, entre tais as que emergiram como subjetividades possíveis pelas lutas e pelas políticas de distribuição de renda. O impeachment associa uma considerada inabilidade de governar de Dilma (por ser mulher, por seu histórico de luta) ao achatamento de modos de vida que, na perspectiva heteropatriarcal, não deveriam adquirir autonomia. A emergência de novos modos de vida, por direitos adquiridos, pelo ensaio de estado de bem estar social não é desejada por aqueles que operam esse “golpe ideológico” – fato comprovado na fala dos deputados heteronormativos e fascistóides no andamento das votações para o seguimento do impeachment no Congresso Nacional. Tais atores da macropolítica não economizam em afirmar que fazem parte de um extrato privilegiado da sociedade, reproduzindo binarismos crassos tais como poder do opressor sobre o oprimido!

 

Nós, dondocas? #Sóquenão

 

Uma matéria na revista Veja sobre Marcela Temer, a mulher do vice Michel Temer, com o enunciado de “bela, recatada e do lar” foi lançada no dia seguinte da votação na Câmara pelo seguimento do processo de impeachment (Junho/2016). A matéria foi suficiente para expor a mentalidade machista que se apresentou na condução do processo de impeachment. O binarismo com o qual o heterocapitalismo rege a vida da mulher ali estava explícito: a orientação da mulher à vida do lar, e a política como “assunto de homens”; ao que “mulheres públicas” responderam prontamente. A mulher cuja vida é “apenas do lar” é tão somente a dondoca, esposa do político corrupto. Há, entretanto, outros binarismos para serem quebrados: (a) os trabalhos domésticos e de cuidado feito por outras mulheres negras e de cor, trabalhos que por sua vez sustentam a vida pública das mulheres que tem o privilégio de ter vida pública; e (b) a vida das mulheres negras, de cor e indígenas, sujeitas à opressão de muitas ordens, cujas vidas não foram representadas na hegemonia branca agrupada pela resistência à “bela, recatada, e do lar”, mas sim no “bela, guerreira e da luta” (e infinitas variações). Mulheres negras e trans se posicionaram em contraposição a esse enunciado, trazendo no seu lugar imagens de pessoas que lutam, de mulheres brancas e não brancas cujas vidas são ameaçadas nas diversas formas de machismo e feminicídio que diariamente as molesta e oprime.

No heterocapitalismo, os enunciados do mundo patriarcal replicam a realidade das mulheres atreladas à vida privada, em que a sexualidade das mulheres é a todo o tempo equiparada a uma escala de modos e valores dos homens – o que chamo de modos de semiotização do modo de vida das mulheres determinados pelos homens. Esses modos machistas, patriarcais, heteronormativos, escondem por sua vez diversos modos de semiotização que incluem submissão, violência, sexualização e evidentemente trabalho precarizado, e não remunerado.

Quem viu a imagem de uma mulher sem consciência após uma bomba de gás em Brasília no dia da votação do impeachment no Senado? Ela tinha cerca de 20 anos, tinha vindo do nordeste e fazia parte do protesto contra a votação do impeachment. A imagem de Marcela Temer (no “bela, recatada e do lar”), por sua vez, foi produzida para funcionar como uma espécie de espelho que pretende operar como um espelho binário, engolindo as mulheres na sua diversidade. Ela deixa evidente que o machismo não é coisa apenas de homens, mas também daquelas mulheres que lutam contra o feminismo, e das mulheres protagonistas do “feminismo” que sujeita a mulher ao modo da vida pública semiotizada por homens. Naquela lógica do espelho, a vida pública de uma mulher que luta não é possível. “Do outro lado” do espelho da dondoca cosmetizada há, contudo, uma variação incontrolável de mulheres e minorias que lutam, que à sua maneira sustentam um país, no trabalho, nas universidades, nas escolas, nas casas, nas lutas sociais.

Eu, como mulher, branca, como militante, como acadêmica, como mãe de uma menina, como pessoa que anda em busca e ou em defesa da democracia, tenho cultivado um olhar para a vida das mulheres que mais e mais perturbam a “vida da normalidade”, a vida heteronormativa. Cavando dentro de mim o privilégio branco ainda não muito analisado, tenho aprendido que as militâncias feministas não brancas e não transfóbicas são essas que transformam pelas ações, pela proliferação de sentidos de ser mulher, mãe, trabalhadora, militante, pelo fazer política e preservando uma ética de preservação da vida contra o capital. A vida persevera ainda que oprimida, ainda que o fôlego seja roubado a cada dia.

 

Análises, análises, análises

Se reclamo a imagem e a força de Dilma como mulher agora – e ao mesmo estendo a significação feminina para as subjetividades que emergem e para a democracia ela mesma – , é para compor com as resistências que se levantam – resistências de diversas ordens, não apenas que se aliam diretamente à defesa das mulheres ou do partido das trabalhadoras, ou dos partidos dos outros trabalhadores – não incluídos na problemática identidade partidária que o PT replica. Hoje vemos que a luta pela vida pública de uma mulher afastada de seu poder de governar (Dilma ela mesma) não pára nesse feito, pois afunda o exercício de uma democracia, e achata as subjetividades emergentes em seus processos de luta. Como disse acima, a força que tirou Dilma destrói paulatinamente os direitos constitucionais (educação, saúde, previdência … ) e os direitos adquiridos (Bolsa Família como ícone, e um sem número de benefícios (3) ). As forças fascistóides que tomam o Planalto Central, tomando o lugar de protagonistas centrais, literalmente, não economizam em oprimir aqueles corpos que se distinguem na multidão que protesta, não economizam em oprimir aqueles corpos e modos de vida que fogem da normalidade binarista e da servidão ao trabalho como o primeiro ponto para a civilidade de direitos.

O desafio que aquelas e aqueles que não abrem mão de falar como mulher, ou como vozes a partir de suas minorias, daquelas e daqueles que não se identificam no binarismo do pró e contra o golpe, e que não se aquietam sob a defesa de “Volta, querida!” – pedindo a volta de Dilma – , têm sido buscar entender se é necessário produzir uma demanda comum. Por hora a luta pela democracia pode ser o ponto onde se concentra a força que faz perseverar movimentos… Li no livro Undercommons que “adquirir ‘governabilidade’ é colocar a democracia a trabalhar. (…) A governabilidade é sempre gerada, sempre orgânica a uma situação. A democracia [por sua vez] não se encaixa em muitas situações, e deve ser trabalhada (…)” (4). Não teria sido a “governabilidade” aquilo que o PT perdeu nos últimos anos? Diante da afirmação do co-trabalho entre democracia e governabilidade, pensando na singularidade dos movimentos que já estão em curso, vou contra a conspiração que achata os sonhos de que diante de um preâmbulo de uma crise econômico-política ainda maior ainda não conseguimos definir a “pauta do dia.” Basta um olhar não histérico porém talvez um pouco histriônico para o dia a dia das lutas. Basta encontrar mais pontos de análise do que #ForaTemer e “volta democracia”.

Duas perguntas para complexificar essa análise: (a) diante do teatro das representações da política no planalto central que articula o impeachment/golpe, será que os movimentos, na escuta de suas singularidades, se fortalecem sob o enunciado comum da defesa da democracia? (b) na relação democracia/governabilidade não seria o chamado por eleições gerais o ponto de concentração – temporal, contingente – das lutas pela democracia?

 

Singularidades em luta

 

Para que servem enunciados, imagens, memes quando circulam? Para desprogramar o dito que se afirma como verdade. Para desmascarar o óbvio (a objetividade da macropolítica e do heterocapitalismo na sua relação com a corrupção econômica, com o corporativismo, com a meritocracia) e trazer dispositivos que disturbam. Mas como é que a replicação desses enunciados, nessa semiótica incontrolável, interfere na normalidade heteronormativa e machista que vemos replicada não só na mídia, cada vez mais assustadoramente no discurso dos “nossos” deputados, senadores, interinos, ministros, mas dos nossos primos, vizinhos, amigos, …? As redes sociais e seus memes operam muitos endogenismos – o fato que na grande maioria das vezes falamos entre nós mesmas e mesmos. Como modular esse trabalho semiótico para que não corrobore ainda mais na reterritorialização do outro a partir de suas formas já concretas (anti-feminazi, anti-esquerdistas, anti-socialistas, anti-transgeneristas, anti-bolsista, anti-cotista…); e para que não opere, portanto, na contuidade da endogenia dos enunciados?

O heteronormativismo gera apenas duplos, duplos negativos de uma vida pública, duplos que são opostos: vida do trabalho e vida do lar. A vida pública, gerida na dobra democracia /governabilidade, fica a cargo dos privilegiados corruptos e meritocratas – todos homens. Nos modos normativistas, sem dúvida, a vida é controlada e cosmetizada, e se move cada vez mais longe da potência da vida ela mesma (potência de criar, e diferir). Nos modos normativistas a vida se torna potência de expressão de semióticas pré-codificadas. Não há imagem mais radical para o heternormativismo do que a das mulheres com seus peitos de fora, amamentando, vadias, lúcidas e luxuriosas; não há imagem mais radical que as transgêneres diante do espelho binário heteronormativo. Vidas, por sua vez, semiotizadas pelo desejo, não pelo desejo de poder identificado ao capital patriarcal, corrupto, corporativista e meritocrático.

A dimensão pública da vida de uma mulher só pode ser a dimensão que acolhe e que desgarra a luta. A dimensão pública da vida de uma mulher é o embate direto ao machismo estrutural, e também ao heterocapitalismo que tenta destruir os direitos da minorias. A luta das mulheres vai além da luta pela democracia, uma luta que não se esgota em demandar, em replicar enunciados, mas gerar condições para a vida ela mesma, construindo diversos comuns além do binarismo público / privado. Não é à toa que vários movimentos falam há décadas do “comum das lutas”. A singularidade das lutas, por isso, vai contra o aparelhamento que sofrem vários movimentos, entre eles, a sobrecodificação da luta pela democracia como eco de governismo PTista. A singularidade das lutas, que está para além da luta pela democracia é aquela que não deixa esquecer a constante dobra entre o indivíduo e suas formas coletivas, em que o subjetivo e o político fazem parte da mesma matéria, o subjetivo e o objetivo da vida e das lutas.

O que a democracia/governabilidade pode aprender da singularidade das lutas, do modo de lutar das mulheres e das minorias, é a ética de proteção à vida, o que merge (mistura, promiscui) a democracia com correntes do feminismo contra-heterocapitalista propriamente dito. Portanto, a democracia/governabilidade não se torna possível apenas quando fomenta um “estado educador”, implementando e apoiando pedagogias diversas, auto organizadas, de proliferação de sentidos e de semióticas a partir de uma ética de variação da vida, mas quando há uma permeabilidade mínima com o poder representado, aquele co-trabalho democracia-governabilidade. Se a democracia garante a vida, ela deve ser defendida. Mas se aqueles que estão em poder das transversais que estendem o governo à democracia operam em favor de interesses corruptos, corporativistas, fascistóides e meritocráticos, heteronormativos, seu poder deve ser destituído. A democracia no atrito com a governabilidade, como espaço de gestão e cuidado da vida só é possível se pode garantir a tomada de voz a partir das diversas singularidades que nos constituem. A democracia, como mulher pública e que luta, é efetiva quando acompanha os percursos éticos das mulheres, das mulheres de cor, negras, indígenas, das minorias, das crianças, das velhas e dos velhos, dos homens, das estudantes e dos estudantes, das grevistas e dos grevistas, das trabalhadoras e dos trabalhadores, para além da dicotomia público e privado e dos modos heteronormativistas que semiotizam, oprimem e isolam nossos corpos. É preciso seguir o movimento em direção às lutas comuns, mas preservar a singularidade, para que possamos lutar para além da vida pública da democracia.

Agradeço a leitura e comentários de Barbara Lito, Luciana Knijnik, Giuliano ‘Djahjah’, Guilherme Reis e Valdiria Thorstenberg.

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Notas

(1) Não posso deixar de fazer uma ressalva aqui: o texto se refere ao embate macropolítico em âmbito federal, porém procura estabelecer transversais com lutas de minorias e lutas locais. Populações historicamente oprimidas tem colocado ‘antes’ da demanda pela resolução do pró ou contra o golpe a demanda pelo fim da repressão policial, substituindo o “Primeiramente #ForaTemer” por “Primeiramente #ForaUPP”. Como exemplo, o movimento organizado recentemente #FomedeViver, no Rio de Janeiro.

(2) Referências para leitura são Amaya Perez Orozco (Subversión feminista de la economia: aportes para un debate sobre el conflicto capital-vida. Madrid: Traficantes de Sueños, 2014.) e Silvia Federici (El Caliban y la Bruja, Mujeres, Cuerpo y Acumulación Originaria. Madrid: Traficantes de Sueños, 2010).

(3) Programas de distribuição de renda, criados ou mantidos pelo governo de Dilma: Bolsa Família, Bolsa Atleta, Bolsa Escola, Bolsa Estiagem, Bolsa Permanência (PBP), Bolsa Creche, Bolsa Verde entre outras.

(4) Stefano Harney e Fred Moten. The Undercommons. Autonomedia/Minor Compositions, 2013.

‘ler é uma loucura’

eu nunca sorri tanta para um livro. tenho certeza que sorri não só pelo caminho todo que ele fez para chegar. pelas mãos da querida amiga Monica atravessando todo o oceano. pela pint que circulava no meu corpo. mas tambem porque ele veio acompanhado de erva, cuia, bomba, sling, outros livros sobre cartografias e presentes para a Hannah da tia Anamalia. porque o livro faz parte do mundo das coisas e das formas, ainda que tenha seu modo peculiar de operar. sorri não só porque abri o pacote no ônibus rumo ao sul, depois da conversa deliciosa com as amigas. tanta conversa inacabada! tanto desejo de seguir conversando. não só porque ele é de 1988, e a fonte e impressa fazendo um sulco no papel. não só porque ele veio de um sebo de Manaus, para uma caixa postal em Florianópolis. nunca sorri tanto para diagramas em português que eu ainda estou tentando decifrar, que me afetam, e que vão revelando encontros com esse personagem real e fictício – Félix Guattari – que é uma espécie de guia na minha tese. mas também uma espécie de caça, que eu vou perseguindo na floresta do caos. sorri muito não só porque encontrar um livro que se deseja é como uma encruzilhada, uma bifurcação, ou o fim de uma trilha numa viagem. é como sair de um certo exilio, de um certo isolamento, abrindo um espaço desejado. nunca sorri tanto para um livro, e gargalhei quando abri a capa e ali dentro encontrei o pequeno lema da livraria e sebo O Alienista de Manaus. “ler é uma loucura.”

10 06 2015

Para exceder uma cidade, um corpo

*Inserções sobre a cidade de Guga Ferraz, que repete o homem
Pedaço de corpo. Este texto é uma parte – um pedaço de pensamento-sensação sobre a produção de um artista. Surge, existe, se escreve, a partir de um corpo (o meu). É lido em outro (o seu). Um texto é uma reação e um desnudamento. Escrito para você. Este texto é uma resposta à apresentação que Guga Ferraz fez de seu trabalho em conversa realizada na Escola de Artes Visuais do Parque Lage no Rio de Janeiro. [1] Retirei alguns pontos para seguir atirando palavras. O texto refere-se à parte do corpo (de produção) do artista – bem por isto peço licença para agregar camadas de terra aos homens nus. Fazer considerações às proposições críticas do artista a questões da cidade do Rio de Janeiro – território produtivo comum, onde vivo há alguns anos -, assim como aproveito para fazer observações à exposição propriamente dita e ao fato inalienável de que o lugar onde expõe agora é uma galeria comercial. O diálogo (do artista) extrapola a capacidade da cidade-da-arte, ou faz dela o limite da sua expulsão, e o texto duplica o debate sobre as contradições intensas que perfazem a cidade. O texto, como proposição, é só um fragmento do manifesto possível. Outras palavras ficam não ditas para que um próximo corpo fale.
Troquei momentaneamente homem por corpo. Na exposição “A cidade repete o homem” na Galeria A Gentil Carioca (onde estava exposto o trabalho de Guga Ferraz, entre Maio e Junho de 2007), há um índio com parte das pernas faltando – imagem apropriada. “Veste” arco, flecha e arma. Um índio é um homem. Mas é o mesmo que a cidade repete? São nove imagens de índios colados sobre uma superfície plana e rígida. A pele do índio é desenhada com retícula. Faz um índio extirpado de seu contexto, que é mais como um super-herói em vídeo-locadora. Corpo de índio é corpo de homem.
Repetição por repetição, você perguntou antes o que define um corpo e a cidade. O corpo não é a cidade. Porém tem relação com ela. E pode ser então que um corpo exista expulsando-se do corpo do outro, tomando espaço, ocupando. Expulsando-se do corpo da cidade. O corpo (humano) é uma superfície sensível, capaz de afetar e de sentir. Capaz de repetir e de diferir. Mas nunca existe na unidade. Existe contaminado, híbrido, modificado, incompleto. Corpos e territórios se mesclam, fazendo-se pela repetição e pela diferença na proximidade de outro corpo sensível, na dimensão de um poder ou do seu assujeitamento. Agora, sobre o corpo que se faz por fora do medo, me parece que sobrevive por que na confusão dinâmica produz uma estratégia (nem sempre artística). Esconde-se no escuro. Pula o muro.
Troquei, mas não sobrepus. O que define um homem e um corpo são perturbantes em aberto. Mensuráveis na medida da enunciação e da experiência. Na exposição há outras imagens de corpos: à esquerda há um exposto, desta vez o do artista. Transposto imenso foi feito para pisar em cima, emborrachado entregue, versão do “Rendido”. Ali se chama “Para saber onde se pisa”. E há outro corpo leve na segunda sala. A imagem de um corpo-menino, rodopiando, trampolim invisível (“Mortal”). Estas são as imagens diretas de homens, ou de corpos. São também o que se compra, mas não objetivamente. Digo melhor, sendo ela uma galeria comercial, não se compra apenas a materialidade (a imagem), mas a inteligência (do artista), e o interdito entre as imagens. É necessário ver de longe, remontar. Ver do alto como num salto lento.
Vi num sonho. Era como uma vista aérea. No topo de um morro – que era um parque – corpos-de-gente morta tinham sido descobertos, desfolhados de um embalsamado antigo. No sonho eu sabia que estavam sempre ali no parque, sob a grama, conservados em camadas finas de terra. Então helicópteros chegavam e, como uma cena de Antonioni amplificada (Blow up), revelavam cadáveres conservados de homens e mulheres em camadas de terra vermelha. Minha irmã do meio chegava assustada e chorava, fui abraçá-la, mas eu tinha as mãos sujas de terra. Depois, no meu apartamento, era dali que olhava o parque. Não podia abraçá-la e na minha casa descobrira também, assim como há nos parques, uma pequena porção de terra. Desconfiei da terra nas minhas mãos, era um pesadelo.
Corpos do tempo do sonho. Foi naquele tempo a ocupação criativa das ruas pelos estudantes em 1968 em todo o mundo, e também os montoneros, os MR, a fuga, o Araguaia (corpos escondidos, homens, mulheres e crianças). No aniversário de 40 anos da revolução muitos atores acordam, uma infinidade de narrativas necessárias emerge. Pode-se rever o trauma, analisar ações e devolver a potência aos corpos. São feitos descobertos – e porque não abertos – tal como os arquivos da ditadura. Para revelar um corpo pode-se dar a ele uma imagem. Contudo, é necessário gerenciar as novas imagens, fazer delas um contexto político menos do controle e mais de um espaço de interação comum, de contra-respostas, de perturbantes.
Um diálogo nunca se sabe onde começa. (Quem atirou a primeira pedra?) Sem palavra nua, na cidade complexa um emaranhado bruto de informações atravessa. Minha irmã mais velha disse que uma criança só formula uma pergunta quando está pronta para receber a resposta. Num paralelo viável, colocar um trabalho de arte na rua é abrir-se para um diálogo, mas é preciso pensar em como receber as respostas. Ele faz uma reação à realidade da cidade, ao que aqui é visível ou invisível, tolerado ou intolerável. Guga se coloca em reação, assim ele diz. A resposta, contudo, insurge na fusão àquilo que a engendra. Muito difícil separar ação e reação. A resposta é estratégia inerente à situação de periculosidade que a gera. A reação do artista que, antes no espaço público da cidade, aqui é modificada para o espaço da galeria (adaptação contextual e formal). A vulnerabilidade da superfície nas cidades, ao revés, não é o resguardo do espaço da galeria. Sem topar o todo da questão – separação considerável – sugiro posicionar seu corpo no espaço entre as imagens. Ali ou nas ruas. Ali ou nos ônibus.
Multifacetada em camadas, a cidade e seus equipamentos só podem ser medidos também na experiência do corpo. Traficar será movimentar por fora dos instrumentos de controle, de constituição da cidade funcional, maquinal, estado, poder. A arte pode ser uma linha de fuga, se souber mover-se. Assim também o texto em outra cidade-fluxo, não superfície (primado do visível). Deverão circular livres, traficados. Enunciar é posicionar-se entre demais. Dizer o não dito. Um texto. Um texto sai de um corpo vivo que se desnuda com a escrita, e talvez por aí se entregue. A cidade não tem lugar para um corpo nu. Tão logo ele respira, outro corpo sobre ele cai.
Expor um corpo. Na exposição percebo os homens e seus corpos nus. Expondo um corpo, não o dele mas pelo texto, vemos corpo-superfície e vida feitos nus. Assim ele os fez: vulneráveis. Retícula. Pixel. Recorte. Na fotografia (assim como na escultura) um tipo de poro dilatado revela uma estrutura sempre recoberta (grão de cocaína, representação nunca vista direta, sempre escondida no plástico preto – imagem pública da morte). Imagens sem fundo, imagens sem contexto. São corpos moldáveis. Frágeis não por sua imagem direta, sem sangue nem apelo, vitimizados pelos títulos: “Coleção Bala Perdida”, “Projeto para cadeado de vidro”, “Troco de arrego”, “Procon do pó”, “Drug Bible”. Perigo eminente, a bala perdida; perigo desejado, a “purpurina” (“C17H21No4”).
Você vê ali que um homem se camufla de outro. Um corpo pode ser um encosto para um homem. Um corpo é uma ferramenta na cidade. Usado sob a força do comando que o faz agenciar elementos, valores, mercadorias. Um corpo é como um mapa para uma cidade: só uma ferramenta. Da mesma forma, ao revés indissolúvel, o espaço da cidade é para um corpo o local de sua produção. São elementos de uma equação nunca repetível. Ou sim. Se assim se afirma. A cidade repete o homem porque suporta máquinas de fazer o corpo do homem dentro da proteção e do medo.
“Polícia / milícia / traficante / outros”. A indefinição dos atores é uma produção que significa o espaço da troca. A potência de diferir de alguns é a capacidade de camuflar-se um e outro, não um ou outro. Definir atores serve antes para defender do desconhecido. Produzir o medo. Do lado de fora, em excesso, sobra o civil – moeda de troca do jogo de adivinho. Civil para tudo o que é “outros”, e que nem é mais produto da cidade – utopia da arquitetura, que se desfaz. O corpo do civil é só superfície de bala, só se toma conhecimento porque a bala não perfurou o concreto da cidade (concreto em estado morto), mas um corpo vivo. A produção do medo justifica as ações da polícia, do estado, da imprensa (espécie de roleta russa em que a função circula sem parar). Não se dá fim à guerra porque o inimigo está em qualquer parte e se faltar também será produzido: dão lhe as balas, o pacote, o tiro na cabeça, quase sempre de costas. Para acabar a guerra só qualificando o inimigo, contradição de que, ao determinar publicamente as características do inimigo, aquilo que é polícia será capaz, por fim, de prender a si mesma.
E o traficante não é de sonhos. Seu corpo não se vê, a não ser como morto (jornais). Não tem voz, ora porque não quer ser visto, ora porque não pode falar. (Guerra intransmissível.) Poderiam falar o indizível, desnudar a guerra onde se encaixam. Silenciam a bala. À bala. Na cidade-do-asfalto, por outro lado, há corpos que se pronunciam. Retórica excessiva. Indeterminação proposital e irresolução de sua finalidade última. Mostram-se como afirmação de poder porque são o poder instituído. Defendem ou driblam? Suas vítimas são os corpos que, se forçados, se entregam. Estes não tem poder. Não respondem. Só repetem.
Nossos corpos. Indefinida atribuição na nudez da vida, uma ação só é realizada pela prática acoplada ao desejo do corpo. A nudez do corpo não é retórica. A sua vulnerabilidade contempla a inexatidão do seu uso. Para além da unidade de um corpo, são agências móveis que os modulam. São movimentos rápidos que desviam.
Partilha do mesmo (mundo) ou expulsão forçada dele. O ônibus em chamas é um coletivo: ali se partilha o medo, que é real (como disse Luis Andrade) [2]. O mapa em chamas mostra os pontos de conflito na cidade (“Roma de Nero”). Mapeia sobras do espaço nomeado e conhecido. “Ônibus incendiado” transbordou o desenho sobre as placas e penetrou na outra cidade, aquela das marcas e das capas, contradição daquilo que ora se instrumentaliza, ora diverge no caminho necessário do protesto, e que faz pensar: é possível confiar na fortaleza gráfica da imagem, ou é preciso sempre contextualizá-la? Esta é a mão dupla da multiplicação da imagem da intervenção, que o artista atualiza quando o ônibus vira “Limosine”. A gráfica imprime uma informação estrita. O medo é coletivo. Ou comum. Assim também sua produção. E o assalto a mão armada é repetido tal como os equipamentos da cidade. Guga imprimiu 100 adesivos para ônibus (“em caso de assalto, não reaja”). Na repetição pelo excesso pode ter lugar uma manifestação indireta: a multiplicidade de superfícies da cidade é ocupada densamente por imagens suavemente estranhas a seus sinais.
Fazer arte na rua é despertencer da arte. Cidade-da-arte que repete um homem. Mas o que se propõe? Plottar um corpo é dominá-lo? E a cidade? Mapeando, não oferece lugares aos corpos. Mostra na verdade a indefinição destes lugares, pela nudez dos corpos. No jogo da dissimulação importa perguntar que quer quem na cidade? Pergunta que trará a seguinte: a quem é possível se aliar na cidade? A cidade só existe com os usos que se produz sobre ela. Tal como os usos do corpo.
Para se reconhecer dois corpos gritam. Quando gritam entrevêem um território comum. Demoram a se entregar pode ser ora por que tardam a decifrar seus sinais, ora porque não querem entregar-se ao contexto comum (não te vejo, miragem, temo). A não ser que gritem antecipando a imagem. Se todos têm armas, como saber quem é aquele que defende? Gritar requer um corpo exposto, posicionado. É uma reação (não é a bala perdida, projétil no escuro). Em outro contexto, resposta se torna explícita, na (anti)tática da galeria de arte trata-se de fazer arte em certa medida periculosa. Entregar-se, para quem?
Em outros trabalhos do artista, o diálogo fora com a imprensa (produtor do contexto insensível, simultaneamente fábrica da imagem do medo, pronunciante da segurança comercializável no espaço da cidade). Naquele meio, em geral, a difusão da arte encontra mutismo e descontrole do discurso sobre a arte. Mas alguns aspectos são interessantes no caso de Guga, como a camuflagem na página policial e uma repotencialização do trabalho a partir do lugar de conversa desejado (forjar um discurso policial, ocupando seu espaço). A imprensa ora confunde, ora entrega, e se torna mais um discurso na diversidade de falas palpáveis da cidade. Mas, no caso do artista, como ele deixa em aberto um espaço para receber outras intervenções? Reações?
No espaço crítico de enunciação o que se deseja é uma difusão dispersiva – contaminar corpos. Não debelar. Na conversa no Parque Lage Guga fala a partir de um vocabulário estranho. Eventualmente policial. Eventualmente traficante. Palavras estranhas ao campo das artes, a não ser agora, onde entrevemos um espaço de resposta que não o senso comum da (in)segurança. Outras palavras revelam outros corpos. Periculosidade. Do que se protegem os corpos na cidade? Ser artista é desnudar a si. Diferente do trabalho na rua, na galeria tudo tem identidade, assinatura, autoria. Institui-se. Retira o artista do anonimato e insere sua produção numa resposta formalizada e por isso mesmo perigosa. Será que o desnudamento nomeado é uma entrega ao campo da arte? A comercialização de sua esperteza? Ali a nudez do artista é também toda sua vulnerabilidade. Mas a palavra é necessária. Ou mesmo o falso mutismo da imagem.
Entre a percepção do contexto sensível e a pertinência a um contexto político, jogo tornado explícito por Paolo Virno [3], um corpo que se pronuncia se torna um corpo sem medida. Pela via da arte, não retilínea estratégia ao estado da insegurança, um corpo-de-artista pode se tornar imprevisível se suas respostas são desvios aos medos hipócritas da cidade. Incendiar a limusine denuncia o já sabido: a partilha ao território comum da periculosidade e da incapacidade de ação, ou a afirmação de que não há segregação social que não seja resultado da manutenção de alguns controles. Guga desenha um mapa. Ninguém está “de fora” da guerra, seja porque esquiva-se dela, seja porque a consente. Mas, na galeria os patuás compráveis não defendem da cidade-sem-estado. Missão difusa. O desafio de fazer arte nos termos da objetividade de uma reação é a ousadia de destituir a finitude da vida mensurada pela mídia, pela polícia, tornando-a da mesma forma uma ferramenta coletiva, de muitos. Na unidade-multiplicidade da equação, está também o desafio de fazer do corpo do artista um corpo sem medida. Flexível tal como aquele jogo do erro para assinalar um colchete dado a cada personagem real: polícia, milícia, traficante, outros. Ao que adiciono: artista, público, você. Desafio desejado de não repetir a si como elemento na cidade mercadoria, mas encontrar o lugar da ação potente. Não da resposta reconhecível. Fazer-se corpo coletivo, corpo partido-com o corpo do outro. Entregar-se à incerteza da constituição política – imprevisível constituição indecente frente a um estado escuso.
A morte é indecente. (Palavras sem sentido. Palavras sem corpo voam como balas perdidas, caem onde?) Assim Guga disse ao final da fala no Parque Lage. A morte é indecente. Ao que eu respondo que o não comando sobre a vulnerabilidade da vida é que é indecente. (Ou esta é a condição última da vida e do vivo?) Para saber onde piso, tateio se aquele corpo exposto é realmente um corpo vulnerável. Um corpo, não uma unidade de corpo, só existe na medida da sua experiência. Daí que atos passionais excedem os corpos. Revoltas excedem corpos. Colocam-nos novamente em situação de vulnerabilidade. A violência os violenta. Você responde. Excede a um corpo. Doa-se a si disponível para sua desmesura. Ousa, esquiva-se. Improvisa. Salta no vazio. Mortal. O que é homem, e por contigüidade humano, vai se refazer de uma desordem. A dimensão da não-repetição de um corpo é a dimensão de sua potência – de diferir.
[1] A Conversa foi realizada dia 13 de Maio de 2008.
[2] Este texto estabele um diálogo com o texto de apresentação da exposição de autoria de Luis Andrade.
[3] Refiro-me aos textos de Virtuosismo e revolução, de Paolo Virno. Ed. DP&A, Rio de Janeiro, 2007.
Publicado na Revista ReDobra

A imagem da esfera pública do intelecto: o que pode estar “fora do eixo?”

 

Meu nome é Cristina Ribas. Eu atuo como artista (em uma produção autoral e também em grupo) e como pesquisadora, e também trabalho junto com uma Arquivista, No Arquivo de emergência – que, pode-se pensar, se aproxima das formas de curadoria contemporâneas. Mesmo com isto, para mim é uma situação bastante nova estar numa mesa sobre curadoria, especialmente porque eu não me dediquei até hoje a investigar o que é curadoria. Concluí o mestrado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), na linha de Processos artísticos (para artistas), mas escrevi sobre trabalhar neste arquivo. Não escrevi sobre o meu trabalho de arte, resolvi me “deslocar” ou “suspender” a análise de um processo criativo pessoal para observar criticamente o que é dedicar-se à produção do outro, que é o trabalho que o Arquivo realiza: criar uma situação material e relacional para conectar eventos em arte contemporânea brasileira.

Então eu me envolvo desde 2005 com este trabalho, que ainda está em processo e tende “ao infinito”, ou enquanto ainda reverberarem as ações às quais se dedica. A partir do enfrentamento de sair da análise de uma produção autoral e encontrar o trabalho de um outro me pergunto: que outro é?; que tipo de trabalho esse outro faz? Ao trabalhar no Arquivo, na pesquisa, precisamos sair da zona muitas vezes confortável da criação autoral e deslocar-se, da mesma forma que a ambição do artista pode fazê-lo buscar o espaço público (…) então com o trabalho do Arquivo de emergência existe um certo esforço para entender o que é lidar com a produção do outro e produzir algo a partir daí, ou seja, um saber transmissível a partir dos eventos, dos acontecimentos, das obras de arte e de suas inteligências – o arquivo propriamente dito. [1] Esse é um exercício que o arquivo pretende, em relação a outras produções de arte, e acredito que isto se aproxima de um procedimento de curadoria.

O que eu trouxe para falar hoje é motivado não exatamente por isto, arquivo-curadoria, mas por um encontro que eu tenho com alguns autores que me ajudam a preparar um terreno para pensar o acontecimento da arte e as formas de cooperação dos agentes neste campo, em relação com a sociedade. E ainda, me ajuda a conceber um “fora do eixo” subjetivo, como estado ou como condição do sujeito. Walter Benjamin, no início do século passado fala do “autor como produtor”. Ele provoca esse deslocamento, nos trazendo um desejo. Benjamin pensava tanto que o que ele pensou faz sentido até hoje (…). Naquela época, se eu não me engano, ele trabalhava como jornalista; ele escrevia muito porém se sentia um pouco distante dos movimentos que o mobilizavam. Ele fez uma proposta: de que o intelectual saísse da sua posição de intelectual e se aliasse aos operários, digamos, se aproximasse dos operários, para tentar entender as condições produtivas, a revolução industrial, a má remuneração dos operários – que eram a base de um sistema econômico pautado na mais valia. Aproximando-se, poderia tentar entender as questões próprias do operariado, qual sua luta política. Anos depois Antonio Negri, militante do movimento dos operários na Itália vai falar: “olha só: se a gente quiser ficar do lado dos operários, se continuarmos chamando-os de operários, a gente nunca vai distinguir as classes sociais”. Ele propôs: “chega desse negócio de operário, a gente tem que olhar para uma capacidade que está no operário, uma capacidade que não está só no operário, que está no intelectual também.” [3] Reforço: a reflexão serve em parte para mapear e constituir um terreno de atuação para o campo da arte, ajudando a elaborar a exposição das condições de realização, acontecimento e atravessamento das práticas da arte. Negri afirma que se olharmos para o operário apenas enquanto operário – e isto não significa abandonar sua realidade e suas questões específicas – vamos continuar separando a sociedade: a gente precisa olhar a sociedade. E olhar a sociedade pode compreender reunir os saberes, saberes instituídos e saberes subalternos ou alternativos. Se a filosofia política, por sua vez, elabora o campo das relações humanas e sociais, não significa que ela deva esgotar uma elaboração sobre o acontecimento da arte, e é neste momento (imanente, simultâneo) que o próprio campo ou circuito da arte emerge na elaboração da especificidade da arte, naquilo que ela se conecta e se diferencia de outras práticas sociais. Nas minhas leituras, em especial Paolo Virno é um autor que dá as bases para seguir esta apresentação. [4] A partir de Hanna Arendt, tomei conhecimento deste conceito de “esfera pública” que é desenvolvido por Virno. Ela nos leva à Grécia para entender o que era a esfera pública, que a princípio era uma esfera só dos homens, um espaço de argumentação e, sobretudo, não violenta, e por isto, política. Na constituição da esfera pública, que é o exercício mesmo da democracia, a força física ou a violência brutal não servem. Serve a palavra, serve a capacidade argumentativa. A base da esfera pública é, portanto, o que se chama “intelecto em geral”, e é o intelecto que hoje, especialmente com as proposições em relação ao Estado (poder de governo), constitui um espaço comum, pode-se por isto falar na “esfera pública do intelecto” como algo que excede o estado. E esta é sua potência. E a capacidade argumentativa – voltamos um pouco a Negri – é também uma capacidade criativa, que está em cada um de nós, independente do cara ser intelectual, operário, (…) e por extensão artista, curador, crítico, etc. (Não há tempo aqui, mas acho importante pontuar que estas características são o que constituem o chamado “trabalho imaterial” que se funde, para estes autores, na sua forma de acontecimento, com a virtuose artística.)

Trago questões que me inquietam bastante, que surgem na minha experiência e que se tornam inclusive mais claras junto a estes caras. Tenho vontade de falar junto com eles, e não falar da teoria, falar do escrito apenas. [3] Então, de que maneira e por que construímos parcerias, associações, instituições, curadorias? (…) Pensando aquele deslocamento que Negri propõe, e pensando aquela capacidade argumentativa, crítica, criativa que Virno também expõe, gostaria que observássemos, assim como se observa muitas vezes a prática de artista naquilo que a constitui especificamente, qual é a “capacidade” da curadoria. Tendo elaborado esta questão até o momento, penso que é uma capacidade de consignar. Consignar é colocar duas coisas próximas, possibilitar encontrar um signo singular a elas – e isso também pode ser pensado numa anti-curadoria.

O grupo norte-americano Art & Language organizou um arquivo super interessante, que está hoje on line [5]. O arquivo começou com uma produção de “anotações” de termos, ou terminologias, e suas definições (um termo pode ter mais de uma definição!) com uma infinidade de conceitos que serão diretamente ou não tomados em partido com o acontecimento da arte. E a gente pode colocar dois termos um ao lado do outro, aí eles criam três simbolozinhos para consigná-los: capacidade de associação dos termos por conjunção ou implicação [] ou conjunção ampla [&], compatibilidade [+], incompatibilidade [-], ou incapacidade brutal de produzir relação entre os termos [T] ou um aspecto transformacional entre eles. Me parece que consignar depende de uma capacidade criativa e, se voltarmos à Bienal de São Paulo de 2008, era muito o que os curadores queriam – atiçar a montagem, a leitura crítica e dialógica das obras (mesmo que pouquíssimas obras deixassem espaço de resposta).

É interessante observar que a capacidade criativa e cognitiva necessária para o acontecimento da obra talvez seja a mesma que constitui a esfera pública. Neste sentido se pode pensar a liberdade associativa e a possibilidade de redes de cooperação. Estes autores se preocupam por falar disto na atualidade porque em parte a sociedade ocidental produz monstros, ou estruturas de governo, de guerra, de controle que sobressignificam desde as práticas individualmente (o que faz o artista ser um artista? o que faz um curador ser um curador? o que faz um historiador ser um historiador?) e também as instituições e as formalizações destas cooperações.

Me interessa expor que às vezes (e isto se confere muito nas relações dadas na atualidade do capitalismo) as capacidades criativas e as formas de cooperação quando entram num certo tipo de regime ou de sistema elas somem, elas perdem o valor. No caso da arte, a experiência sensível enquanto tal acaba sendo qualificada, e acaba sendo traduzida para dentro de uma experiência que se torna sim uma experiência de consumo, uma experiência de poder, econômica. O que me preocupa é como a gente mantém a vitalidade das nossas relações junto, ou por fora, ou aliado, ou numa tangente, contando com a presença do sistema capitalista. Por isto, “fora do eixo” como condição subjetiva de busca de produção de novas relações desse sujeito que já tem uma capacidade criativa, cognitiva é, talvez antes um deslocamento subjetivo instituído, não como resistência a um sistema outro ao qual seria alternativo, nem como cooptação a algo maior, mas como uma forma de ser, que se afirma enquanto tal.

Agora mais duas últimas observações sobre o sistema capitalista: (1) que o capitalismo é uma forma de relação, ou seja, o capitalismo ele não está aí enquanto tal, não sabemos até que ponto ele é “estável”, pode derruir visto que tem certa fragilidade, bem por isto me parece que se pode provocar intervenções nele; (2) será mais rentável dentro deste sistema, será mais sagaz, aquele que for mais desterritorializado e aquele que for mais dinâmico. Ambas as definições são de Negri e Lazzarato. E se a gente pensar, hoje em dia, são duas capacidades que muitos requer aos artistas, quando eles viajam em programas de residência, quando têm que produzir relações com o estrangeiro, capacidade de chegar lá e se sentir outro, apreender e dialogar (…).

A aparente impossibilidade de estar por fora desse sistema econômico me parece a mesma conexão que temos com um circuito ou sistema de arte institucionalizado, onde as funções atribuídas a cada ator são bem determinadas: curador, artista, colecionador, museólogo, etc. Contudo me parece que este evento testa a possibilidade de produzir movimento, de produção em cooperação com sistemas e não exatamente por fora disso. Produzir interferências, cortes, rupturas subjetivas e eventos abruptos, que podem ser propositivos, que podem modificar as funções deste sistema, constituem uma esfera pública, nem tanto espacial (apegada a um território geográfico), e neste sentido ela não deve estar obrigatoriamente em espaço público, ou no espaço da rua, ela se constitui num espaço que seja comum, num espaço que haja minimamente várias pessoas, ou duas pessoas ou às vezes nenhuma (?) disposta a trocar, argumentar, construir; enfim, digo isto para gente se colocar a pensar. Nossa grande questão parece ser criar nessa esfera. Então, só pra gente pensar, o que a gente quer com as relações que propõe?, com aquelas relações de consignação?, transpondo as ferramentas do Art & Language, e repensar até que ponto a gente precisa e de que forma é estratégico ou é inteligente se configurar (que não é só se denominar enquanto tal) artista, crítico, curador (…) São questões para mim não resolvidas e que só existem no exercício de uma esfera pública de liberdade. Para finalizar minha fala quero ler um pedacinho bem pequenininho de Hanna Arendt: ela investiga a ação, e o drama, no teatro, que se aproxima do exercício da esfera pública. Sobre a ação, há o escrito: “pois a ação é o que estabelece o grande paradoxo (…) o conceito de liberdade foi criado ao mesmo tempo e não antes que o homem”.

NOTAS

[1] O Arquivo de emergência agrupa material de “eventos de ruptura” da produção brasileira em arte desde meados de 1998. O Arquivo inventaria uma série de conceitos fundamentais para sua compreensão. É exposto em instituições de arte ou não, realiza parcerias com projetos de outros artistas, coletivos e iniciativas autônomas. Consulte a página para saber a localização do Arquivo de emergência: HTTP://arquivodeemergencia.wordpress.com.

[2] NEGRI, Antonio. Cinco lições sobre o Império. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.

[3] Gosto muito de pensar em um saber que está disponível, e assim o livro me parece – só para não perder a linha (da leitura), o livro está no mundo, e me fascina que o livro escrito, o mesmo ao qual eu cheguei, também pode ser acessado por alguém do outro lado do mundo. (Isto também tem a ver com os arquivos.) Pensar o livro com o mundo, pensar o mundo com o livro. Eu sinto que estou aqui não para dizer de algo que está escrito, mas que fala junto.

[4] VIRNO, Paolo. Cuando el verbo se hace carne: lenguaje y naturaleza humana. Buenos Aires: Cactus: Tinta Limón, 2004.

________. Virtuosismo e revolução. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 2008.

[5] HTTP://blurting-in.zkm.de

 

Texto publicado em Fora do Eixo (2010) escrito a partir da participação em um seminário organizado em 2008. Funarte / Brasilia.