Adults traps

While our children sleep we set traps. Adults traps. Adults fall in love, get lost in plans, hassle, plan trips, come, laugh, are drunk. Adults swap gender, do make up, have their bodies naked, make themselves either big or small, sneak into each other, suffer and desire, piously. Adults dream that enter each others bodies, and do enter each other bodies. Adults dream in politics, and dream about a passage from one plane to another, as it would be more feaseble, that the military will fall, so they plan attacks, guns, black flags. Between boleros and dramas, bad beer and unfinished analysis, they scratch their bodies in the streets, in the dirty walls, they smoke what burns them inside out.
When our children are asleep, we fly away, and we run over each other, we fight. When our children wake up, they wake up our dry eyes, and a new journey starts. In the fresh morning the revolution of truth, libidinal from another era. In front of the nostalgic eyes of those dreams and comings, in front of the demolished bodies from the previous night, small bodies, subtle, and light. Filled up with plans. And we turn to them – absolutely – gigantic bodies in the morning. New trials and new tests to what ails us. Subtle and light bodies that ask for care, smaller than ours, they proof us that, maybe, we will fail. They bring challenges from another scale. Hangover in the adults eyes, attentive, however, to the marvellous dimension, fantasious, energetic of our children. Our eyes carry some sort of fear, fed by a small-big impression that we wont be able to hold the topsy-turvy dimension of our children’s semioticisations. Small child, its like: inventive present. In the body of the adult, on the other hand, a little bit of death, floating alcohol, unfinished lush, questions of order, greed for a longer night.
We wake up in another plane.

Attack plans from the previous night falter. The world of the adults traps gets lost in the porosity of the morning. Veridical and sweet eyes, usurpating. Usurpating the passage and the crossing plans, delaying for the next night that world of dramas, delirium, erroneous slut, a world of passions. Adults traps. We run over each other more and more seriously than in children’s battles. Of course. We are night gladiators. We have desiring bodies. But the other ones, the small morning gladiators, they put us in retaguard. Small bodies, not less transformative.
When our children wake up we are surrended. We leave behind the bed with its lakes and lascivious marks, we get out to the wilderness of the house, we cross by real obstacles, material, colourful, stockable, talkative, breakable, threatening. The direction of the adults passions is drained by the touch and the sight, for when our children wake up we realise we have gone far, to a world of fears, our smallness, and, in front of us we have an excess of tender, warmth, risk and pure passage.

When our children wake up we burn with longing, longing for the traps we have arranged, as if it would be easy to get rid of them, as if the night betrayals where fair play, as if we would be more equal in these battles, those that when we lose, we strieve even more. Adults create traps as a drift, they play with themselves, they get drunk in their gozos, they relief from pure room of something bigger.
Adults wake up in scorched land (and scorched themselves). But no, its another plane. Consistency by caress, consistency by breaking that sovereignity.

Adulticities. Adults traps get lost in the morning. Small bodies defeat and lead the retaguard. Surrended, adults bodies abandon their projects, and their traps. Navigated by silky affects, the small (gladiators, liders, revolutionaries…) are soliciting us in such a soft way. Even so they call us, they convoke us. They don’t know about our death-alive bodies, the chilly shivering, the sufferings with politics, the crossings of affect. They don’t know we wake up all of a sudden, and from delirium.
They look at our eyes, steady:
– Are we ready, are we?
– Or are we still trapped?

*

Read this text in portuguese [here]

Trampas de adultos

Enquanto nossas crianças dormem se armam trampas. Trampas de adultos. Adultos se enamoram, se perdem em planos, criam lios, e planejam viagens, gozam, riem, estão bêbados. Adultos trocam de gênero, maquiagens, corpos nus, se fazem grandes e pequenos, se inmiscuem uns nos outros, sofrem e desejam, piamente, mais do que podem. Sonham que entram e entram um no corpo do outro. E sonham políticas, e sonham que a passagem dum plano a outro é mais possível, que os militares cairão, e planejam ataques, armas, bandeiras negras. Entre boleros e dramas, cervejas ruins e análises inacabadas ralam os corpos nas ruas, paredes sujas, e fumam o que lhes queima.

Enquanto nossas crianças dormem voamos longe, fazemos atropelos, brigamos. Quando nossas crianças despertam, acordam nossos olhos secos, e começa uma jornada. Na manhã fresca a revolução da verdade, libidinal de outra era. Diante dos olhos nostálgicos daqueles sonhos e gozos, diante do corpo demolido da noite anterior, pequenos corpos, sutis, e leves. Cheios de planos. E nos tornamos para eles –  absolutamente – agigantados na manhã. Vem aí outras provas para as trampas que nos afligiam. Corpos sutis e leves que pedem cuidado, mais pequenos que os nossos, e nos provam, talvez, menos capazes para nossos planos. Os desafios que trazem são doutra escala. Nosso olhar de ressacas é atento, contudo, à sua dimensão maravilhosa, fantasiosa, energética. Nosso olhar carrega um pouco de temor, alimentado pela pequena-grande impressão de que não daremos conta da dimensão escalonada, às avessas, das semióticas infantis. Criança pequena, igual a: presente inventivo. No corpo do adulto, por outro lado, um pouco de morte, álcool flotando, questões de ordem, gozo que não cessa, ganância de uma noite mais longa.

Acordamos num outro plano.

Titubeiam os planos de ataque da noite anterior. O mundo das trampas adultas se perde na porosidade da manhã. Olhos verídicos e doces, a usurpar. Usurpar os planos de passagem, de travessia, a fazer tardar para a noite seguinte aquele mundo de dramas, de delírios, de errôneas sacanagens, aquele mundo de paixões. Trampas de adultos. Se atropelam muito mais e pior que nas batalhas infantis. Claro. Gladiadores da noite. Corpos de desejo. Mas os outros, gladiadores pequenos das manhãs, fazem de nós pura retaguarda. Corpos pequenos, não menos de transformação.

Quando nossas crianças acordam estamos rendidos. Deixando a cama dos lagos e gozos, saímos na selvageria da casa, atravessando obstáculos reais, materiais, coloridos, montáveis, falantes, quebráveis, ameaçadores. O rumo das paixões adultas é dragado no toque e no olhar. É que quando nossos filhos despertam nos damos conta de que viajamos longe, a um mundo de gozos e medos, nosso apequenamento, e temos agora, diante de nós ternura e calidez de sobra, risco e pura passagem.

Quando nossas crianças despertam ardemos de saudades das trampas que arrumamos, como se delas fosse mais fácil desvelar-se, como se as traições noturnas fossem o jogo limpo, aquele em que estamos em pé de igualdade, aqueles em que batalhas não vencidas acendem mais luta. Adultos criam trampas como desvio, brincam consigo mesmos, embebedam-se de seus gozos, aliviam-se por puro ensejo de coisa maior.

Acordam em terra arrasada (arrasados em si). Mas não, é outro plano. Consistência por carícia, consistência por quebra daquela aparente soberania. Adultices. Trampas de adultos se perdem na manhã. Corpos pequenos desafiam e lideram a retaguarda. Rendidos, corpos de adultos abandonam os projetos e as trampas. Navegam por afeto sedoso, pois os pequenos (gladiadores, líderes, revolucionários) nos solicitam da maneira mais suave. Ainda assim nos convocam. Eles não sabem dos nossos corpos meio morto-vivos, de gélidos arrepios, dos sofrimentos da política, dos atravessamentos do afeto. Não sabem que acordamos de súbito, e de delírio.

Nos olham, a postos:
–  Estamos prontos, estamos?
–  Ou ainda estamos atrapados?

*

Versão em inglês [aqui]

tai-pei noodle bar

tai-pei noddle bar em elephant & castle. foi um daqueles lugares em 2009 que eu senti que tava no meio do mundo. gente de todos os cantos, comida barata e budas dourados. a primeira vez que eu fui já sai com aquela nostagia de nunca mais ia voltar. afinal, no começo cada canto da cidade era um blur, e não sabia que ia voltar para cada canto conhecido, muito menos para londres, pra viver, tudo mais. voltei umas três vezes em 2009. e depois em 2011. e sempre sobrava um pouco do noodles vegetariano e eu pagava 50p mais pela embalagem e levava para casa pra comer no outro dia. agora não sobra nada! nos multiplicamos e comemos juntas o número 32. #sobretercrianças e dividir o prato de comida (ie a vida) com elas!

Infraestrutura: maternidade, paternidade, economia do cuidado, trabalho

Infraestrutura: maternidade / paternidade / economia do cuidado / trabalho

Cristina Ribas | ((com parêntesis de Barbara Lito))

 

“Estamos dispostos a fazer algo pelas futuras gerações? Então resolvamos nossa dor infantil e coloquemos nosso corpo a disposição dos que são crianças hoje.”
Laura Gutman

 

A maternidade desacelera o mundo. Ensina ele que só há uma economia: a economia do cuidado.

Acordo num dia sem saber, que horas são? A contagem é do estômago pequeno daquele serzinho iluminado que ao lado me diz, tenho fome, ou é que foi perturbada por um sonho de monstro, de coruja noturna como já me disse uma vez. A hora é também equação: contagem das horas de sono, se é hora de acordar mesmo, ou se é hora de ficar, fazer estender o sono, aumentar a preguiça cair em sonho novamente. Acordar, posso tentar só eu, posso, preciso trabalhar (aquele tanto de coisas acumulado, a demanda constante), e arrisco 20 minutos nessa manhã silenciosa, quase segredo, só minha. 20 minutos às vezes me dão tempo para entrar, de novo, na trama do irresolvível (do que foi deixado na noite anterior, arquivos abertos, anotações esparsas). Ela acorda logo depois de mim, vem caminhando pessoa pequena, choraminga, mama no peito. Estamos juntas, colo e chamego. A contagem da hora enquanto olho para ela segue projetiva, planejando o dia por vir. Dia de quê? Dia de trabalho, dia de creche, dia de entrar na linha do tempo de fora, de um tempo grande e irresponsável com a nossa temporalidade pequena. I n t e r r o m p e r . Arriscar cortar e acelerar esse tempo da pessoa pequena, que não sabe das razões, e as quais lhe explico. É hora disso, de creche e de trabalho, de meias e de roupas, qual é o clima lá fora, de fazer caber o que se precisa na mochila, de conferir as coisas todas na bolsa, se há bilhete da creche, é fraldas que pedem. Preparar o café, alimentar, conversas, rimos juntas, nem sempre dá tempo. Não estamos sós, o pai está junto, dividimos tarefas, criamos um sistema. Temos, afinal, nossa estratégia (temos?). As manhãs são organizadas num tempo conciso, e tempo de despedida: deixo-a no portãozinho de sua sala catterpillar, abandonada saio eu para meu playground da vida adulta, vida essa a ser reinventada.

Eu sou daquelas que se permitiu estranhar ao máximo na gravidez, deslocar e ouvir as sensações de um corpo hormonoturbinado, hipersexualizado, e ao mesmo tempo que sensível e frágil, forte e mutante… E me permiti continuar, da maneira como a própria biologia do corpo continua, um estado de mutabilidade que se estende após parir, percebendo incorporar-se em todo espaço  atmosférico da casa a mudança molecular da chegada de uma nova pessoa. Como é que o mundo a recebe? Eu e seu pai acendemos a atenção extrema na sua dimensão pequena, na sua delicadeza e imprevisibilidade, uma atenção que é sobretudo i n t u i ç ã o. Com isso adentramos também a comunidade-de-todas-as-cores de pais e mães que se constitui ao nosso redor, e da qual passamos a ser como membros natos, aprendizes e consultores de amigos que vão entrando naquela mesma sensibilidade do mundo, eles também tiveram bebê. Na dimensão pequena e misteriosa, silenciosa e sem linguagem (são grunidos) daquele corpo e realidade pequenos, de potência molecular, o que vai ficando estranho, mesmo, são as relações de um “mundo adulto”. Contrastam as tarefas, as responsabilidades (?), os compromissos, os conteúdos.  Saltam aos olhos os sistemas de valoracão, comunicação e significação que criamos. Com a chegada de uma filha, de um filho, o mundo que reproduzimos nos percalços da vida como naturalidade primeira (ainda que cada um na sua cartografia particular), é subitamente freado, cortado, interrompido.

((… Essa semana que entra o Davi faz 38 semanas. Já tem o mesmo TEMPO do lado de fora que passou do lado de dentro. A questão do tempo é muito doida, porque eu não sinto que desacelerou… Eu me sinto teletransportada mesmo pra uma outra temporalidade, específica dessa nossa díade. Claro que a Hannah já ta maiorzinha, e a gente acaba tendo que fazer um rehab pra voltar pro tempo da vida da onde a gente foi radicalmente arrancada quando nasce a cria. Mas tenho a impressão de que nunca vou conseguir voltar com o CORPO todo…))

Algumas questões, dúvidas e enfrentamentos aparecem. Algumas que assumimos, e outras que não assumimos (para si ou para os outros ao nosso redor). A direção de  nossos movimentos no mundo anda tão concentrada nos fazeres do trabalho que viver com a filha e cuidá-la contrasta imediatamente com o que quer que tenhamos hoje por trabalho, visto que, num crescente, o trabalho se mistura ao tempo da vida. Trabalho imaterial, trabalho precário. Quando digo “trabalho” digo uma mistura de trabalho com militância, um tipo de produtividade que toma conta dos nossos dias, noites, afetos, emoções, e que gera renda, mas que muitas vezes também não gera renda. Quando falamos em trabalho hoje em dia necessariamente falamos em precariedade, visto que o emprego formal está em franca derrocada, e muitas vezes os contratos temporários, na verdade, se fazem valer da não regulação trabalhista, sem a garantia de muitos direitos, ou seja, na precariedade. Então aqui devemos levar em conta – para equacionar com os pensamentos sobre  c  u  i  d  a  d  o  que seguem no texto – sob quais condições trabalhamos, se somos auto empregados, se temos emprego, se somos bem remunerados, se esperamos um aumento, se tememos a demissão, se criamos uma instituição!

Quero embarcar aqui brevemente em duas questões ligadas a trabalho x cuidado. A primeira questão a perda da autonomia do tempo, ou de um tipo de tempo (tempo produtivo?), e a politização do trabalho doméstico; a segunda a perda da certeza, de algumas convicções em relação ao que se faz (relacionadas mais ou menos à noção de trabalho, militância, etc). No final faço um ensejo de como podemos pensar no cuidado dos adultos eles mesmos, aqueles que tiveram filhos, e como pensar na participação dessa assuntação nos nossos vocabulários cotidianos, e na reprodução de nós mesmos, de nós mesmos mais ou menos como movimento.

A perda do tempo, ou a ideia de… 

Embarcando na primeira questão: a dúvida se coloca assim: se tomar conta da filha toma meu tempo, como não opor a filha ao trabalho (aquilo que eu faço para ganhar dinheiro) visto que preciso seguir trabalhando? Essa oposição é simples demais, contudo, sobretudo porque ela separa em duas dinâmicas o trabalho e a vida com a filha. A inversão dessa oposição é exatamente a raiz da mudança… Visto que o tempo do cuidado da filha pode ser intensivamente lento, prazeiroso e imprevisível, posso pensar então que o tempo, no cuidado, é mais de ordem subjetiva. ( ( É porque o tempo é lento que essa entrada-vocábulo s a i demasiado devagar? ) ) E o tempo da produtividade do trabalho seria aquele que eu posso controlar? Mais objetivo? Será? Ou doutra maneira, da produção do tempo. Ou seja, o tempo atomizado da criança sempre vai contrastar e empurrar a ideia de produtividade requerida pelo tempo do capital, tempo esse que por sua vez, ao requerer uma implicação da vida num tempo produtivo, ele mesmo atomizado, por sua vez,  com a precariedade das condições de trabalho e pelas novas condições do trabalho imaterial que se torna toda uma questão de tempos descontínuos em cooperações virtuais. Cruzamentos… Ramificações… Desvios… Impossibilidades?

((… Nem sei se eu vou ter TEMPO de te responder como eu gostaria. Acabei de conseguir colocar o tourinho pra dormir (depois de 1h e 30), que agora resiste resiste, quer ganhar o mundo. Uma das primeiras impressões que tive foi que o Davi era um marcador temporal implacável, trazendo ele pra esse tempo cotidiano capitalista. Mas ele relativiza esse tempo o tempo todo, porque simultaneamente me leva pra eras e eras ancestrais (primitivas, genealógicas, genéticas…) e de salto eu já estou no futuro. Nesse primeiro ano, me pego vendo fotos antigas dos meus avós, tios, pais, minhas e de meus primos, e vejo o quanto de vida a nossa linhagem já caminhou, até chega no Davi, que carrega com ele coisas deles (e dos bisos, tataravós, etc) que eu desconheço. E pisco, ele já está com 8 meses, engatinhando, ontem mesmo tava com cólica, chorando… E começo a sentir nostalgia dele como tá agora. Agora sinto saudade dele como tá agora, porque não é possível frear esse tempo com ele, que às vezes passa arrastado, mas é implacavelmente veloz, que é próprio do espaço de maternar. Centrífugo e centrípeto. Tempo de átimo e não de cronos))

… E o trabalho doméstico

Essa questão do tempo traz consigo outra: a possibilidade de que uma remuneração – o fragmentário e temporalizado salário-maternidade, o salário social ou renda mínima, ou a bolsa família por exemplo – seja o reconhecimento da função social do cuidar, o que se chama mundialmente de “trabalho doméstico.”A remuneração é um aspecto político da economia do cuidado, imprescindível numa realidade contemporânea em que o cuidado ainda não tem o espaço devido junto aos fluxos econômicos da sociedade.

Essa remuneração não dá conta, contudo, e talvez nunca vai dar, de aquietar a questão da percepção e da produção do tempo no cuidado. Me refiro aqui não tanto ao cuidado como profissão, o trabalho feito pelos cuidadores, mas à percepção do cuidado como ocupação primeira dos pais e mães, nas relações familais. Será que receber algum tipo de remuneração (uma licença maternidade, por exemplo) acomoda de alguma maneira, por um tempo, o conflito que uma mãe e um pai podem passar, ao liberar seu tempo (de trabalho) para a rotina de intuição e cuidado?

Observando o aspecto subjetivo do tempo do cuidado, cada mãe e cada pai tem que encontrar a maneira suave como a passagem de um a outro se dá (do cuidado ao trabalho), a transição de cuidadores primários de seus filhos para (voltarem a ser) trabalhadores num mercado (ainda que precário) de trabalho. Há diferenças nessas temporalidades, e elas dependem também da situação econômica de cada configuração familiar.

(( … (pausa pra dar de mamar) Toda vez que eu tô acoplada no Davi, ou ele em mim, especialmente quando fico com o corpo ali e a cabeça nas trocentas outras coisas do tempo cronológico ordinário, eu escuto a voz que ele ainda não tem me dizendo: “vem mamãe, se entrega aqui comigo, olha como é gostoso e quentinho aqui, fica aqui, aqui e agora.” … Voltei a pensar no corpo. Nessa temporalidade outra da existência infante que em três meses cronológicos tem um corpo que dobra de tamanho (nunca mais nosso corpo passa por isso, olha só a Alice aí). Não é à toa que esse momento é muito aflitivo para as recém paridas, ainda com vestígios da temporalidade ordinária nesse corpo materno ainda deformado. Esse: “vem pro átimo que eu quero mamar, mamar e crescer, mamar sem pensar no amanhã, no ontem, ai que delícia”. … E esse discurso patriarcal, que separa a temporalidade trazida pela criança do corpo da mãe e do mundo ordinário, de onde ele vem? porque? pra que serve? … (Ai, tenho que fazer a mochila do Davi pra sair, tomar banho, separar a comida, etc) … ))

Então há a licença maternidade, e quando há, o trabalho doméstico remunerado regulamentados diferentemente em cada país (ou ausentes, no caso do segundo, no Brasil), e há tambem o trabalho “de rua”, o trabalho como instrumento/ferramenta de sociabilidade e participação em redes, relações, contratos, vínculos…

Mundialmente o cuidado é atividade relegada às mulheres, na grande maioria dos casos. Seja o cuidado dentro de relações parentais ou o cuidado como trabalho (cuidadores, enfermeiros, professoras, cuidadoras de crianças…). (Lá em casa é um pouco diferente…, ou seja viemos construindo uma relação em que o cuidar é tarefa amorosa de ambos, pai e mãe, mas isso é outro parêntese.)

O cuidado, a criação dos filhos, foi politizada enquanto trabalho por lutas feministas que apontaram: se o capitalismo se beneficia desse cuidado, dessa procriação e consequente criação, visto que eles serão também “força-trabalho”, o cuidado das filhas e dos filhos é também trabalho, porém não remunerado! Das lutas feministas por uma valoração social do cuidado surgem as demandas por uma remuneração direta, estatal e por benefícios por se ter filhos, e ponto. Aqui gostaria de separar o benefício da licença maternidade (depende no Brasil de contribuições já feitas à previdência social) por um (projeto de) salário social (não deveria depender de contribuições já feitas, *) ou ainda do benefício por filho. Na Inglaterra por exemplo o benefício por filho se chama “child care credit”, e pode ser recebido até 18 anos de idade. O benefício se destina à provisão de bens que a criança demande na sua pequena existência, até sua puberdade e adolescência, comida, fraldas, roupas, remédios, lazeres, …

No Brasil o Bolsa Família foi criado com o objetivo de beneficiar famílias abaixo do nível de pobreza e em nível de pobreza, cuja renda familiar não ultrapasse os R$ 154,00 por pessoa, provendo recursos mínimos para garantir a alimentação dessas famílias. (**) A contrapartida é que todas as crianças da família em idade escolar devam estar matriculadas e frequentando escola, recebam vacinação, tenham acompanhamento médico até 7 anos de idade, não trabalhem, e no caso de grávidas que façam acompanhamento pré-natal.

Ainda que uma perspectiva feminista não seja muito conferida nos benefícios do Bolsa Família, acredito que o programa deva ser compreendido também na perspectiva da luta das mulheres (e dos cuidadores), visto que é um benefício que incrementa a renda da família para cuidar dos seus filhos.  Segundo pesquisas recentes, o programa tem caráter emancipatório para muitas delas, que se sentem encorajadas a se libertarem da trama familiar, quando poderiam estar presas em relações que já não querem (muitas mulheres se divorciam, por exemplo), e são estimuladas a cuidarem mais de si. Ou seja, nos casos em que o homem representa a fonte de renda financeira primária, o incremento do Bolsa Família encoraja as mulheres a tomarem o rumo de suas vidas, quando antes poderiam depender da confusa relação amorosa misturada à dependência econômica. (***) Em outras situações, em que o homem já não está mais em casa complementando renda (porque muitos se separam e vivem sozinhos, sem a responsabilidade de cuidar das filhos e dos filhos) as mulheres também são beneficiadas pelo recurso, mas o valor do benefício não remunera, de nenhuma maneira, o tempo do cuidado dedicado por elas no crescimento dos filhos, visto que é um valor extremamente baixo, e não configura uma renda mínima.

A maternidade nos seus começos, é assistida, para aquelas que tem emprego formal, por uma curta licença maternidade de quatro meses.  (O pai tem licença de uma semana!) Esse seria o tempo para cuidar de nossos filhos, sem trabalhar, e preparar-se para a dolorosa transição de terceirizar o cuidado! Os quatro meses, por sua vez, não fecham com os seis meses de amamentação exclusiva recomendados pelo Ministério da Saúde. O que não faz muito sentido… Mas muitas mulheres conseguem negociar isso com seus empregadores, e ficam mais tempo em casa. Mas muitas, muitas mudam de planos… E colocam em questão o modelo anterior de trabalho que tinham.

((… Fiquei pensando também na questão do corpo nesse jogo, que é o espaço onde ele é jogado. Logo que a gente começou a passar os perrengues de cólica (acho que bem antes até, quando tava contraindo, antes de parir, e tive que ficar de repouso) eu me liguei que a dor trazia o corpo pra esse agora infinito. Lembrei da Laura Gutman nesse livro “Amor o dominación, los estragos del patriarcado”.  … Não sei bem se o trabalho não está englobado numa estratégia maior de dominação dos corpos, que evita mesmo o contato intimo entre pais e filhos (e velhos moribundos, e doentes, e loucos). Evita a presença deles no espaço cotidiano. Segrega. Fico pensando naquelas imagens antigas, algumas até recentes, das mães trabalhando com seus filhos pendurados, de boa, lavando, colhendo, plantando, aboiando… Acho que o corpo desvitalizado e congelado, moldado para um trabalho cada vez mais estático (no corpo, não na cabeça) é incompatível com a potência de vida de uma criança. Taí as milhões de vistas da galinha pintadinha comemorando não sei quantas crianças quietinhas. (****) O trabalho estático no corpo, mas não na mente, também é incompatível com essa temporalidade átmica da criança, sem passado nem futuro. pra gente é muito dfícil morar nesse eterno agora. … ))

Ora, sabemos que a falta de benefício para o cuidado ou a precária remuneração é reflexo de uma série de modos culturais arraigados e naturalizados, que se baseiam na divisão dos tipos de trabalho que homens e mulheres fazem (e o salários diferentes que recebem), na crença da naturalidade do cuidado como coisa feminina. Esse ponto é um dos mais importantes para as lutas pela legalização do aborto, visto que socialmente o cuidado é entendido como uma continuidade inquestionável do ato de gestar e parir. Quantas de nós já abortaram ou evitaram ter filhos pelo temor de não conseguir conciliar o cuidado com o trabalho? Pelo medo de não conseguir ou por não conseguir mesmo ter condições financeiras de cuidar de uma criança? Por temer reproduzir a sociedade machista enquanto tal em que o cuidado está relegado determinantemente às mulheres, e que portanto deixa a mulher em condições de trabalho menos favoráveis? Aliás: quantos abortos mal sucedidos são necessários para mudar as condições sociais do abortar? Para legalizar o aborto?

Silvia Federici, feminista italiana conta como as feministas dos anos 70 apreenderam que compreender o “trabalho reprodutivo” no regime da exploração (o capitalismo acumula também em cima disso) permitiu o reconhecimento de uma luta comum das mulheres:

“Uma vez vimos que ao invés de reproduzir vida nós estávamos expandindo a acumulação capitalista e começamos a definir trabalho reprodutivo como trabalho para o capital, nós também abrimos a possibilidade de um processo de recomposição entre as mulheres.”  (*****)

O cuidado reconhecido como um trabalho, como uma ocupação que serve à sua maneira à complexidade de um sistema de produção/reprodução, acaba se tornando o t e r r e n o   d e   l u t a , usando as palavras de Federici, e esse terreno de luta se estende às vidas daqueles que cuidamos. Ela pergunta: como lutar sem entrar em conflito com aqueles que amamos? (Falarei disso mais adiante.)

A perda do sentido. Havia um antes?

A outra coisa que pega que é: faz sentido? Fazer as coisas da maneira como se fazia?

Desde o começo eu resisti em não colocar a filha de um lado (a vida com ela, o cuidado), e o trabalho. Isso quer dizer que quando eu pensava em trabalho eu pensava em algum tipo de movimento, de fazer, que, menos do que pudesse incluí-la, pudesse se fazer  c o m  ela. Ou seja, em que ela estivesse presente, conferindo sentido àquilo. Mas não sabia bem o que nem como… Organizar uma residência-projeto para artistas-etc com filhos? Talvez…

É claro que quando se começa a questionar isso, se está questionando o que é que entendemos por trabalho e com o que é que nos comprometemos em um mundo capitalista-produtivista em que cada vez mais o produzir toma espaço. Então arrisco uma definição que expressa, na verdade, a raiz precária da minha experiência de trabalho: qualquer atividade que traga remuneração, não necessariamente que se tenha como profissão, que construa um comprometimento com algo que é ligado ao que se compreende como trabalho em si, mas que se conecta numa linhagem de ações e regularidades, que mantém aceso um certo vínculo, seja com as instituições com as quais nos associamos, as parcerias, a participação na atualidadede de um debate, os discursos e posições que adotamos. Pois bem, na mudança de sentido das coisas, é essa ideia de r e g u l a r i d a d e que se quebra quando um filho ou filha nasce (ou mais de um!). Essa é definitivamente uma quebra no sentido de um fazer que poderia estar muitas vezes automatizado, tecnicizado, dessubjetivado. Vou deixar umas perguntas soltas, sobre o sentido do trabalho: para quem e para o quê eu trabalhava? fazia? me mexia antes?;  ou com que velocidade, com que dedicação, com que efetividade, com quanto de mim?…

A noção de continuidade é quebrada pois a temporalidade do filho é caoticamente outra, e isso reflete os sentidos que ela ou ele forçosamente vem sacudir. Cada um ou uma de nós percebe isso distintamente, claro. Para quem se conhece de um jeito, a quebra vem destituir uma série de convicções. Acredito que essa quebra acontece porque o que aparece é  i n t u i ç ã o  como a chave do cuidado. A intuição como um tipo de escuta, um cuidar com, que requer tempo para entender modos e ritmos… Um imensamente-cuidado, essa aproximação-atenção e fusão quase-orgânica e por vezes quase-estrangeira que descobrimos quase-inata em nós, que tiramos da caixola, da cartola, que vestimos quando seguramos a filha no colo, quando sentimos seu cheiro que ativa nossos hormônios mamários. Para outros essa quebra não acontece tão claramente, e a filha ou filho entra mais rapidamente na composição de um mundo mais perto eu diria de um “como era, como eu fazia”. Ou é que aquela zona de atravessamento gravídico eu diria, de intensidades hormonais, dura menos e é enquadrada também na temporalidade da produção. (Ai!) Cada uma de nós vive uma configuração diferente, ora similar, de retorno ao ritmo de trabalho depois de parir.

A filha o filho ao desprogramarem o sentido das coisas, pedindo intuição e cuidado, demandam também o descobrir, o inventar, o brincar, … virar ao avesso, sujar, desfazer, rimar, mimar, molhar, montar, desmontar, destruir… E olhar bem bem de perto. Estressar ou intensificar o tempo do cuidado me parece que é parte da resistência ao nivelamento de nossas ações num tempo único e produtivista, é parte da pluralização dos tempos, e da recomposição, ou de uma inclusão, como diz Federici, na luta por uma libertação das amarras do mundo pré-concebido da produtividade do capital do qual as filhas e os filhos não precisam automaticamente fazer parte… Um arco grande, mas vamos lá.

((…E sim, acho que isso tudo tem muito a ver com o cuidado. E acho que trazer tudo isso de volta pro corpo, prum corpo hiperafetado e atravessado pela temporalidade infante é sim revolucionário. A micro-revolução que eu escolhi me engajar. No Mignolo(******) que eu te mandei, a simples existência infante já é por si só uma desobediência epistêmica radical.))

…  uma desobediência epistêmica radical

Individualidade e reprodução do movimento 

Voltando ao relato da minha experiência, nos primeiros tempos em que a coisa foi pegando, em que já não podia procrastinar o fato de que estava na hora de trabalhar (de recuperar algo dessas linhas de continuidade, de vínculo, que nunca se perderam, mas que definitivamente se enfraqueceram, era hora de fazer dinheiro) eu produzia uma espécie de estresse incontrolável. O estresse vinha de tentar evitar a sensação de negar, por não poder estar com a filha por ter que trabalhar, como se eu tivesse negando ela mesma… O estresse e o sofrimento que surgiu teve que assumir uma individualidade necessária. Afinal, na interrupção de um modo de ser em vias de recomposição nessa transmutação para uma mãe-que-trabalha ficamos pescando sapo, comendo mosca, movendo-se sem saber por onde. Aqui apareceu para mim algo importante: a recomposição da invidualidade faz parte da maternidade/paternidade, visto que não é um abandono da filha, e é o cuidado em si de si, que tampouco é diretamente um “voltar ao que se era” (como eu resisto a essa imagem!).

Exemplo disso: em Londres a artista Andrea Francke transformou, como parte de seu trabalho final de Mestrado, a galeria da faculdade de artes em uma creche. Um espaço aberto portanto aos pais e às crianças. Queria eu que essa creche seguisse disponível, como espaço de pesquisa e de produção, em que potencialmente pudéssemos compartilhar nossas questões maternais? (E materiais!) Preocupação: ainda que radical a proposta, eu não poderia, por exemplo ancorar naquela vivência a produção do que me cabe agora, minha responsabilidade, minha auto-exploração, minha “contribuição ao conhecimento”, meu doutorado. Eles dependem de um certo isolamento, e dessa ressignificação-recomposição em curso.

H a n n a h. Eu só escrevo porque ela está longe de mim, na creche, outro lado da rua (ou ali dormindo, sono bom de criança a crescer). Se escrevo junto com ela escrevo outro texto. Fazemos desenhos e desenhos, bolinhas, pontinhos, perseguimos linhas, e around e around. Se faço carinha, ela já completa com pernas e braços, e boca, se não tiver. E cabelos, como dizcabêêêlo!

Quando escrevo, escrevo junto com ela aqui, como parte da minha realidade, claro. Quero escrever junto com ela, com ela em mim, mas temo que escrevo para o mundo adulto, esse mundo estranho, esse mundo cuja seriedade me faz rir. A filha vem de um hiperíntimo, um hiperjunto, e ajuda a estranhar o mundo, com o qual copulo depois; mundo com o qual me identifico, e que também desejo. Voltando àquela recomposição, percebo que o cuidado, portanto, não é só com a filha, mas com a mãe e o pai nessa nova passagem de mundo, com o mundo que se recompõe. Da mãe se fala bastante da depressão pós-parto, esse mistério que não está nas calçadas, que é calcado aos espaços íntimos, e ao indizível, visto que se torna indecifrável se não assumimos a dimensão mágica e espiritual da maternidade. Mas e depois, como cuidamos uns dos outros, pais, mães, crianças? Seguimos… A economia do cuidado na luz do dia se torna um diagrama a puxar linhas e linhas de subjetivação, friccionando superfícies de singularidade, abrindo companheirismos num comum (aquela comunidade imprevisível de pais e mães, e avós, e tios, e cuidadores, claro).

A gravidez, assim como a maternidade e a paternidade são, afinal, coisas ordinárias. O comum, por sua vez, não pode ser o comum só-dos-que-tem-filho. Como informar, como passar, como recompor o mundo dos-que-tem-filho com o mundo dos-que-não-tem? Será que é dessa maneira que o problema se coloca? Ou é mais como fala Federici, uma capacidade de colocar em linhas de libertação e composição social um modo de reprodução social (todo movimento precisa encontrar a maneira de se reproduzir, diz ela). Politizar a maternidade e a paternidade, nesse sentido, é um trabalho vocabular, depende de muita conversa, depende de muita troca. Depende de abrir frentes com o mundos alheios vizinhos, as outras forma de copular e de familiar, de lesbicar, de prostituir e de multiplicar. Depende de fazer cuidar, de fazer pensar no cuidar. Mas como? Num estado de mundo em que tudo se acelera, não sei se é possível não se posicionar e dizer, olha, a temporalidade aqui é outra. E não só tempo linear (como dito antes, para que não sejamos escravos da produtividade), mas a função ou a significação. A filha muda molecularmente o mundo porque ela está junto também nessa nova forma de ver o mundo, ela é processo estético, estetizante, ela desacelera a produtividade de um por fazer, e repolizita outras urgências. Quando se diz que é tempo de cuidado, é tempo de para endereçar (e soltar) uma produção do mundo. Um chamado a recompor a estética de um mundo (político, sobretudo), do que faz parte fazer/trazer esse texto para cá: vocabular, brincar, vocavulvar, vocavular.

Vou buscá-la no final da tarde na creche. Meu corpo atravessado pelas leituras, pelos mundos que me desvelam e me desconstroem, fica meio desconcertado. Acho que vivemos como pais uma constante reintegração e desintegração da identidade… Na porosidade dos movimentos adultos que me constituem, o movimento de ir buscá-la acopla e desacopla pedaços sem nunca dar tempo de lavar tim tim por tim tim cada anotação feita. O dia faz-se fragmentado. O corpo também. E de alguma maneira essa emoção de tê-la silencia tantos outros atravessamentos! Já não me importo. Descortina-se de novo o mundo adulto… Encontro seu corpo pequeno e aparentemente frágil, ora mais feliz e suado, ora mais saudoso e manhoso. Ela me leva para o buraco do coelho (coisa que encontramos no gramado ao lado do jardim da creche). Enfia o pé no buraco. Eu evito não dizer o que me vem logo à boca: “cuidado com a cabeça do coelho!”, ela, afinal, não teme pisar nele ou numa minhoca. Ali mora a touperia, ela diz. Ela quer ver a toupeira! I wanna see the mole! E sorri.

Vou buscá-la no movimento integratório puzzle like que não consegue complementar uma coisa e outra, mas que vai me encontrando de novo com ela no caminho – eu me encontrando comigo e com ela – , diante de outras crianças, cuidores, pais. A filha puxa um fio terra-coração, e devires, e devires… Quantas das minhas inseguranças, das minhas dúvidas incompletas silenciam não porque perdem o sentido por completo, mas porque ganham outra configuração no cuidado que ela me traz, como parte da suavidade mesma de sua pequena existência?

(*) Situação do projeto do Renda Mínima Salário Social no Brasil hoje

(**) O programa Bolsa Família existe no Brasil há dez anos. Hoje em dia cerca de 20,6 bilhões (0,5% do PIB) de reais são pagos a 14,1 milhões de famílias (o Ministério do Desenvolvimento Social estima o benefício direto de cerca de 50 milhões de pessoas).

(***) Entrevista com Walkiria Leão Rego, que publicou um livro junto a Alesandro Pinzani sobre o Bolsa Família (“Vozes do Bolsa família”, 2013)

(*****) Silvia Federici, Precarious Labor: A Feminist Viewpoint.

(******) Walter D. Mignolo. Desobediência epistêmica. A opção decolonial e o significado da identidade em política.

Referências:

Federici, Silvia. Precarious Labor: A Feminist Viewpoint (2008). Variant e The Journal of Aesthetics and Protest. http://www.variant.org.uk/37_38texts/Variant37.html#L9

Federici, Silvia. Feminism And the Politics of the Commons. (2010) The Commoner.org

Hirata, Helena; Laborie, Françoise; le Doaré, Hélène; Senotier, Danièle. (org.) Dicionário Crítico do Feminismo. (2009)

La Célula Armada de Putas Histéricas. Primer comunicado de la Célula Armada de Putas Histéricas http://vimeo.com/91641696

https://www.diagonalperiodico.net/andalucia/23274-la-brigada-informacion-como-mortadelo-y-filemon.html

Precarias a La Deriva. A la deriva por los circuitos de la precariedad femenina. (2003) Madrid: Traficantes de Sueños

SOF – Sempreviva Organização Feminista, Cuidado, Trabalho e Autonomia das Mulheres (2010). Cadernos Semprevida.

Este texto é parte do livro-projeto Vocabulário político para processos estéticos. Para ver esse texto no Livro e para acessar o site do projeto clique [aqui]

Para exceder uma cidade, um corpo

*Inserções sobre a cidade de Guga Ferraz, que repete o homem
Pedaço de corpo. Este texto é uma parte – um pedaço de pensamento-sensação sobre a produção de um artista. Surge, existe, se escreve, a partir de um corpo (o meu). É lido em outro (o seu). Um texto é uma reação e um desnudamento. Escrito para você. Este texto é uma resposta à apresentação que Guga Ferraz fez de seu trabalho em conversa realizada na Escola de Artes Visuais do Parque Lage no Rio de Janeiro. [1] Retirei alguns pontos para seguir atirando palavras. O texto refere-se à parte do corpo (de produção) do artista – bem por isto peço licença para agregar camadas de terra aos homens nus. Fazer considerações às proposições críticas do artista a questões da cidade do Rio de Janeiro – território produtivo comum, onde vivo há alguns anos -, assim como aproveito para fazer observações à exposição propriamente dita e ao fato inalienável de que o lugar onde expõe agora é uma galeria comercial. O diálogo (do artista) extrapola a capacidade da cidade-da-arte, ou faz dela o limite da sua expulsão, e o texto duplica o debate sobre as contradições intensas que perfazem a cidade. O texto, como proposição, é só um fragmento do manifesto possível. Outras palavras ficam não ditas para que um próximo corpo fale.
Troquei momentaneamente homem por corpo. Na exposição “A cidade repete o homem” na Galeria A Gentil Carioca (onde estava exposto o trabalho de Guga Ferraz, entre Maio e Junho de 2007), há um índio com parte das pernas faltando – imagem apropriada. “Veste” arco, flecha e arma. Um índio é um homem. Mas é o mesmo que a cidade repete? São nove imagens de índios colados sobre uma superfície plana e rígida. A pele do índio é desenhada com retícula. Faz um índio extirpado de seu contexto, que é mais como um super-herói em vídeo-locadora. Corpo de índio é corpo de homem.
Repetição por repetição, você perguntou antes o que define um corpo e a cidade. O corpo não é a cidade. Porém tem relação com ela. E pode ser então que um corpo exista expulsando-se do corpo do outro, tomando espaço, ocupando. Expulsando-se do corpo da cidade. O corpo (humano) é uma superfície sensível, capaz de afetar e de sentir. Capaz de repetir e de diferir. Mas nunca existe na unidade. Existe contaminado, híbrido, modificado, incompleto. Corpos e territórios se mesclam, fazendo-se pela repetição e pela diferença na proximidade de outro corpo sensível, na dimensão de um poder ou do seu assujeitamento. Agora, sobre o corpo que se faz por fora do medo, me parece que sobrevive por que na confusão dinâmica produz uma estratégia (nem sempre artística). Esconde-se no escuro. Pula o muro.
Troquei, mas não sobrepus. O que define um homem e um corpo são perturbantes em aberto. Mensuráveis na medida da enunciação e da experiência. Na exposição há outras imagens de corpos: à esquerda há um exposto, desta vez o do artista. Transposto imenso foi feito para pisar em cima, emborrachado entregue, versão do “Rendido”. Ali se chama “Para saber onde se pisa”. E há outro corpo leve na segunda sala. A imagem de um corpo-menino, rodopiando, trampolim invisível (“Mortal”). Estas são as imagens diretas de homens, ou de corpos. São também o que se compra, mas não objetivamente. Digo melhor, sendo ela uma galeria comercial, não se compra apenas a materialidade (a imagem), mas a inteligência (do artista), e o interdito entre as imagens. É necessário ver de longe, remontar. Ver do alto como num salto lento.
Vi num sonho. Era como uma vista aérea. No topo de um morro – que era um parque – corpos-de-gente morta tinham sido descobertos, desfolhados de um embalsamado antigo. No sonho eu sabia que estavam sempre ali no parque, sob a grama, conservados em camadas finas de terra. Então helicópteros chegavam e, como uma cena de Antonioni amplificada (Blow up), revelavam cadáveres conservados de homens e mulheres em camadas de terra vermelha. Minha irmã do meio chegava assustada e chorava, fui abraçá-la, mas eu tinha as mãos sujas de terra. Depois, no meu apartamento, era dali que olhava o parque. Não podia abraçá-la e na minha casa descobrira também, assim como há nos parques, uma pequena porção de terra. Desconfiei da terra nas minhas mãos, era um pesadelo.
Corpos do tempo do sonho. Foi naquele tempo a ocupação criativa das ruas pelos estudantes em 1968 em todo o mundo, e também os montoneros, os MR, a fuga, o Araguaia (corpos escondidos, homens, mulheres e crianças). No aniversário de 40 anos da revolução muitos atores acordam, uma infinidade de narrativas necessárias emerge. Pode-se rever o trauma, analisar ações e devolver a potência aos corpos. São feitos descobertos – e porque não abertos – tal como os arquivos da ditadura. Para revelar um corpo pode-se dar a ele uma imagem. Contudo, é necessário gerenciar as novas imagens, fazer delas um contexto político menos do controle e mais de um espaço de interação comum, de contra-respostas, de perturbantes.
Um diálogo nunca se sabe onde começa. (Quem atirou a primeira pedra?) Sem palavra nua, na cidade complexa um emaranhado bruto de informações atravessa. Minha irmã mais velha disse que uma criança só formula uma pergunta quando está pronta para receber a resposta. Num paralelo viável, colocar um trabalho de arte na rua é abrir-se para um diálogo, mas é preciso pensar em como receber as respostas. Ele faz uma reação à realidade da cidade, ao que aqui é visível ou invisível, tolerado ou intolerável. Guga se coloca em reação, assim ele diz. A resposta, contudo, insurge na fusão àquilo que a engendra. Muito difícil separar ação e reação. A resposta é estratégia inerente à situação de periculosidade que a gera. A reação do artista que, antes no espaço público da cidade, aqui é modificada para o espaço da galeria (adaptação contextual e formal). A vulnerabilidade da superfície nas cidades, ao revés, não é o resguardo do espaço da galeria. Sem topar o todo da questão – separação considerável – sugiro posicionar seu corpo no espaço entre as imagens. Ali ou nas ruas. Ali ou nos ônibus.
Multifacetada em camadas, a cidade e seus equipamentos só podem ser medidos também na experiência do corpo. Traficar será movimentar por fora dos instrumentos de controle, de constituição da cidade funcional, maquinal, estado, poder. A arte pode ser uma linha de fuga, se souber mover-se. Assim também o texto em outra cidade-fluxo, não superfície (primado do visível). Deverão circular livres, traficados. Enunciar é posicionar-se entre demais. Dizer o não dito. Um texto. Um texto sai de um corpo vivo que se desnuda com a escrita, e talvez por aí se entregue. A cidade não tem lugar para um corpo nu. Tão logo ele respira, outro corpo sobre ele cai.
Expor um corpo. Na exposição percebo os homens e seus corpos nus. Expondo um corpo, não o dele mas pelo texto, vemos corpo-superfície e vida feitos nus. Assim ele os fez: vulneráveis. Retícula. Pixel. Recorte. Na fotografia (assim como na escultura) um tipo de poro dilatado revela uma estrutura sempre recoberta (grão de cocaína, representação nunca vista direta, sempre escondida no plástico preto – imagem pública da morte). Imagens sem fundo, imagens sem contexto. São corpos moldáveis. Frágeis não por sua imagem direta, sem sangue nem apelo, vitimizados pelos títulos: “Coleção Bala Perdida”, “Projeto para cadeado de vidro”, “Troco de arrego”, “Procon do pó”, “Drug Bible”. Perigo eminente, a bala perdida; perigo desejado, a “purpurina” (“C17H21No4”).
Você vê ali que um homem se camufla de outro. Um corpo pode ser um encosto para um homem. Um corpo é uma ferramenta na cidade. Usado sob a força do comando que o faz agenciar elementos, valores, mercadorias. Um corpo é como um mapa para uma cidade: só uma ferramenta. Da mesma forma, ao revés indissolúvel, o espaço da cidade é para um corpo o local de sua produção. São elementos de uma equação nunca repetível. Ou sim. Se assim se afirma. A cidade repete o homem porque suporta máquinas de fazer o corpo do homem dentro da proteção e do medo.
“Polícia / milícia / traficante / outros”. A indefinição dos atores é uma produção que significa o espaço da troca. A potência de diferir de alguns é a capacidade de camuflar-se um e outro, não um ou outro. Definir atores serve antes para defender do desconhecido. Produzir o medo. Do lado de fora, em excesso, sobra o civil – moeda de troca do jogo de adivinho. Civil para tudo o que é “outros”, e que nem é mais produto da cidade – utopia da arquitetura, que se desfaz. O corpo do civil é só superfície de bala, só se toma conhecimento porque a bala não perfurou o concreto da cidade (concreto em estado morto), mas um corpo vivo. A produção do medo justifica as ações da polícia, do estado, da imprensa (espécie de roleta russa em que a função circula sem parar). Não se dá fim à guerra porque o inimigo está em qualquer parte e se faltar também será produzido: dão lhe as balas, o pacote, o tiro na cabeça, quase sempre de costas. Para acabar a guerra só qualificando o inimigo, contradição de que, ao determinar publicamente as características do inimigo, aquilo que é polícia será capaz, por fim, de prender a si mesma.
E o traficante não é de sonhos. Seu corpo não se vê, a não ser como morto (jornais). Não tem voz, ora porque não quer ser visto, ora porque não pode falar. (Guerra intransmissível.) Poderiam falar o indizível, desnudar a guerra onde se encaixam. Silenciam a bala. À bala. Na cidade-do-asfalto, por outro lado, há corpos que se pronunciam. Retórica excessiva. Indeterminação proposital e irresolução de sua finalidade última. Mostram-se como afirmação de poder porque são o poder instituído. Defendem ou driblam? Suas vítimas são os corpos que, se forçados, se entregam. Estes não tem poder. Não respondem. Só repetem.
Nossos corpos. Indefinida atribuição na nudez da vida, uma ação só é realizada pela prática acoplada ao desejo do corpo. A nudez do corpo não é retórica. A sua vulnerabilidade contempla a inexatidão do seu uso. Para além da unidade de um corpo, são agências móveis que os modulam. São movimentos rápidos que desviam.
Partilha do mesmo (mundo) ou expulsão forçada dele. O ônibus em chamas é um coletivo: ali se partilha o medo, que é real (como disse Luis Andrade) [2]. O mapa em chamas mostra os pontos de conflito na cidade (“Roma de Nero”). Mapeia sobras do espaço nomeado e conhecido. “Ônibus incendiado” transbordou o desenho sobre as placas e penetrou na outra cidade, aquela das marcas e das capas, contradição daquilo que ora se instrumentaliza, ora diverge no caminho necessário do protesto, e que faz pensar: é possível confiar na fortaleza gráfica da imagem, ou é preciso sempre contextualizá-la? Esta é a mão dupla da multiplicação da imagem da intervenção, que o artista atualiza quando o ônibus vira “Limosine”. A gráfica imprime uma informação estrita. O medo é coletivo. Ou comum. Assim também sua produção. E o assalto a mão armada é repetido tal como os equipamentos da cidade. Guga imprimiu 100 adesivos para ônibus (“em caso de assalto, não reaja”). Na repetição pelo excesso pode ter lugar uma manifestação indireta: a multiplicidade de superfícies da cidade é ocupada densamente por imagens suavemente estranhas a seus sinais.
Fazer arte na rua é despertencer da arte. Cidade-da-arte que repete um homem. Mas o que se propõe? Plottar um corpo é dominá-lo? E a cidade? Mapeando, não oferece lugares aos corpos. Mostra na verdade a indefinição destes lugares, pela nudez dos corpos. No jogo da dissimulação importa perguntar que quer quem na cidade? Pergunta que trará a seguinte: a quem é possível se aliar na cidade? A cidade só existe com os usos que se produz sobre ela. Tal como os usos do corpo.
Para se reconhecer dois corpos gritam. Quando gritam entrevêem um território comum. Demoram a se entregar pode ser ora por que tardam a decifrar seus sinais, ora porque não querem entregar-se ao contexto comum (não te vejo, miragem, temo). A não ser que gritem antecipando a imagem. Se todos têm armas, como saber quem é aquele que defende? Gritar requer um corpo exposto, posicionado. É uma reação (não é a bala perdida, projétil no escuro). Em outro contexto, resposta se torna explícita, na (anti)tática da galeria de arte trata-se de fazer arte em certa medida periculosa. Entregar-se, para quem?
Em outros trabalhos do artista, o diálogo fora com a imprensa (produtor do contexto insensível, simultaneamente fábrica da imagem do medo, pronunciante da segurança comercializável no espaço da cidade). Naquele meio, em geral, a difusão da arte encontra mutismo e descontrole do discurso sobre a arte. Mas alguns aspectos são interessantes no caso de Guga, como a camuflagem na página policial e uma repotencialização do trabalho a partir do lugar de conversa desejado (forjar um discurso policial, ocupando seu espaço). A imprensa ora confunde, ora entrega, e se torna mais um discurso na diversidade de falas palpáveis da cidade. Mas, no caso do artista, como ele deixa em aberto um espaço para receber outras intervenções? Reações?
No espaço crítico de enunciação o que se deseja é uma difusão dispersiva – contaminar corpos. Não debelar. Na conversa no Parque Lage Guga fala a partir de um vocabulário estranho. Eventualmente policial. Eventualmente traficante. Palavras estranhas ao campo das artes, a não ser agora, onde entrevemos um espaço de resposta que não o senso comum da (in)segurança. Outras palavras revelam outros corpos. Periculosidade. Do que se protegem os corpos na cidade? Ser artista é desnudar a si. Diferente do trabalho na rua, na galeria tudo tem identidade, assinatura, autoria. Institui-se. Retira o artista do anonimato e insere sua produção numa resposta formalizada e por isso mesmo perigosa. Será que o desnudamento nomeado é uma entrega ao campo da arte? A comercialização de sua esperteza? Ali a nudez do artista é também toda sua vulnerabilidade. Mas a palavra é necessária. Ou mesmo o falso mutismo da imagem.
Entre a percepção do contexto sensível e a pertinência a um contexto político, jogo tornado explícito por Paolo Virno [3], um corpo que se pronuncia se torna um corpo sem medida. Pela via da arte, não retilínea estratégia ao estado da insegurança, um corpo-de-artista pode se tornar imprevisível se suas respostas são desvios aos medos hipócritas da cidade. Incendiar a limusine denuncia o já sabido: a partilha ao território comum da periculosidade e da incapacidade de ação, ou a afirmação de que não há segregação social que não seja resultado da manutenção de alguns controles. Guga desenha um mapa. Ninguém está “de fora” da guerra, seja porque esquiva-se dela, seja porque a consente. Mas, na galeria os patuás compráveis não defendem da cidade-sem-estado. Missão difusa. O desafio de fazer arte nos termos da objetividade de uma reação é a ousadia de destituir a finitude da vida mensurada pela mídia, pela polícia, tornando-a da mesma forma uma ferramenta coletiva, de muitos. Na unidade-multiplicidade da equação, está também o desafio de fazer do corpo do artista um corpo sem medida. Flexível tal como aquele jogo do erro para assinalar um colchete dado a cada personagem real: polícia, milícia, traficante, outros. Ao que adiciono: artista, público, você. Desafio desejado de não repetir a si como elemento na cidade mercadoria, mas encontrar o lugar da ação potente. Não da resposta reconhecível. Fazer-se corpo coletivo, corpo partido-com o corpo do outro. Entregar-se à incerteza da constituição política – imprevisível constituição indecente frente a um estado escuso.
A morte é indecente. (Palavras sem sentido. Palavras sem corpo voam como balas perdidas, caem onde?) Assim Guga disse ao final da fala no Parque Lage. A morte é indecente. Ao que eu respondo que o não comando sobre a vulnerabilidade da vida é que é indecente. (Ou esta é a condição última da vida e do vivo?) Para saber onde piso, tateio se aquele corpo exposto é realmente um corpo vulnerável. Um corpo, não uma unidade de corpo, só existe na medida da sua experiência. Daí que atos passionais excedem os corpos. Revoltas excedem corpos. Colocam-nos novamente em situação de vulnerabilidade. A violência os violenta. Você responde. Excede a um corpo. Doa-se a si disponível para sua desmesura. Ousa, esquiva-se. Improvisa. Salta no vazio. Mortal. O que é homem, e por contigüidade humano, vai se refazer de uma desordem. A dimensão da não-repetição de um corpo é a dimensão de sua potência – de diferir.
[1] A Conversa foi realizada dia 13 de Maio de 2008.
[2] Este texto estabele um diálogo com o texto de apresentação da exposição de autoria de Luis Andrade.
[3] Refiro-me aos textos de Virtuosismo e revolução, de Paolo Virno. Ed. DP&A, Rio de Janeiro, 2007.
Publicado na Revista ReDobra

A imagem da esfera pública do intelecto: o que pode estar “fora do eixo?”

 

Meu nome é Cristina Ribas. Eu atuo como artista (em uma produção autoral e também em grupo) e como pesquisadora, e também trabalho junto com uma Arquivista, No Arquivo de emergência – que, pode-se pensar, se aproxima das formas de curadoria contemporâneas. Mesmo com isto, para mim é uma situação bastante nova estar numa mesa sobre curadoria, especialmente porque eu não me dediquei até hoje a investigar o que é curadoria. Concluí o mestrado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), na linha de Processos artísticos (para artistas), mas escrevi sobre trabalhar neste arquivo. Não escrevi sobre o meu trabalho de arte, resolvi me “deslocar” ou “suspender” a análise de um processo criativo pessoal para observar criticamente o que é dedicar-se à produção do outro, que é o trabalho que o Arquivo realiza: criar uma situação material e relacional para conectar eventos em arte contemporânea brasileira.

Então eu me envolvo desde 2005 com este trabalho, que ainda está em processo e tende “ao infinito”, ou enquanto ainda reverberarem as ações às quais se dedica. A partir do enfrentamento de sair da análise de uma produção autoral e encontrar o trabalho de um outro me pergunto: que outro é?; que tipo de trabalho esse outro faz? Ao trabalhar no Arquivo, na pesquisa, precisamos sair da zona muitas vezes confortável da criação autoral e deslocar-se, da mesma forma que a ambição do artista pode fazê-lo buscar o espaço público (…) então com o trabalho do Arquivo de emergência existe um certo esforço para entender o que é lidar com a produção do outro e produzir algo a partir daí, ou seja, um saber transmissível a partir dos eventos, dos acontecimentos, das obras de arte e de suas inteligências – o arquivo propriamente dito. [1] Esse é um exercício que o arquivo pretende, em relação a outras produções de arte, e acredito que isto se aproxima de um procedimento de curadoria.

O que eu trouxe para falar hoje é motivado não exatamente por isto, arquivo-curadoria, mas por um encontro que eu tenho com alguns autores que me ajudam a preparar um terreno para pensar o acontecimento da arte e as formas de cooperação dos agentes neste campo, em relação com a sociedade. E ainda, me ajuda a conceber um “fora do eixo” subjetivo, como estado ou como condição do sujeito. Walter Benjamin, no início do século passado fala do “autor como produtor”. Ele provoca esse deslocamento, nos trazendo um desejo. Benjamin pensava tanto que o que ele pensou faz sentido até hoje (…). Naquela época, se eu não me engano, ele trabalhava como jornalista; ele escrevia muito porém se sentia um pouco distante dos movimentos que o mobilizavam. Ele fez uma proposta: de que o intelectual saísse da sua posição de intelectual e se aliasse aos operários, digamos, se aproximasse dos operários, para tentar entender as condições produtivas, a revolução industrial, a má remuneração dos operários – que eram a base de um sistema econômico pautado na mais valia. Aproximando-se, poderia tentar entender as questões próprias do operariado, qual sua luta política. Anos depois Antonio Negri, militante do movimento dos operários na Itália vai falar: “olha só: se a gente quiser ficar do lado dos operários, se continuarmos chamando-os de operários, a gente nunca vai distinguir as classes sociais”. Ele propôs: “chega desse negócio de operário, a gente tem que olhar para uma capacidade que está no operário, uma capacidade que não está só no operário, que está no intelectual também.” [3] Reforço: a reflexão serve em parte para mapear e constituir um terreno de atuação para o campo da arte, ajudando a elaborar a exposição das condições de realização, acontecimento e atravessamento das práticas da arte. Negri afirma que se olharmos para o operário apenas enquanto operário – e isto não significa abandonar sua realidade e suas questões específicas – vamos continuar separando a sociedade: a gente precisa olhar a sociedade. E olhar a sociedade pode compreender reunir os saberes, saberes instituídos e saberes subalternos ou alternativos. Se a filosofia política, por sua vez, elabora o campo das relações humanas e sociais, não significa que ela deva esgotar uma elaboração sobre o acontecimento da arte, e é neste momento (imanente, simultâneo) que o próprio campo ou circuito da arte emerge na elaboração da especificidade da arte, naquilo que ela se conecta e se diferencia de outras práticas sociais. Nas minhas leituras, em especial Paolo Virno é um autor que dá as bases para seguir esta apresentação. [4] A partir de Hanna Arendt, tomei conhecimento deste conceito de “esfera pública” que é desenvolvido por Virno. Ela nos leva à Grécia para entender o que era a esfera pública, que a princípio era uma esfera só dos homens, um espaço de argumentação e, sobretudo, não violenta, e por isto, política. Na constituição da esfera pública, que é o exercício mesmo da democracia, a força física ou a violência brutal não servem. Serve a palavra, serve a capacidade argumentativa. A base da esfera pública é, portanto, o que se chama “intelecto em geral”, e é o intelecto que hoje, especialmente com as proposições em relação ao Estado (poder de governo), constitui um espaço comum, pode-se por isto falar na “esfera pública do intelecto” como algo que excede o estado. E esta é sua potência. E a capacidade argumentativa – voltamos um pouco a Negri – é também uma capacidade criativa, que está em cada um de nós, independente do cara ser intelectual, operário, (…) e por extensão artista, curador, crítico, etc. (Não há tempo aqui, mas acho importante pontuar que estas características são o que constituem o chamado “trabalho imaterial” que se funde, para estes autores, na sua forma de acontecimento, com a virtuose artística.)

Trago questões que me inquietam bastante, que surgem na minha experiência e que se tornam inclusive mais claras junto a estes caras. Tenho vontade de falar junto com eles, e não falar da teoria, falar do escrito apenas. [3] Então, de que maneira e por que construímos parcerias, associações, instituições, curadorias? (…) Pensando aquele deslocamento que Negri propõe, e pensando aquela capacidade argumentativa, crítica, criativa que Virno também expõe, gostaria que observássemos, assim como se observa muitas vezes a prática de artista naquilo que a constitui especificamente, qual é a “capacidade” da curadoria. Tendo elaborado esta questão até o momento, penso que é uma capacidade de consignar. Consignar é colocar duas coisas próximas, possibilitar encontrar um signo singular a elas – e isso também pode ser pensado numa anti-curadoria.

O grupo norte-americano Art & Language organizou um arquivo super interessante, que está hoje on line [5]. O arquivo começou com uma produção de “anotações” de termos, ou terminologias, e suas definições (um termo pode ter mais de uma definição!) com uma infinidade de conceitos que serão diretamente ou não tomados em partido com o acontecimento da arte. E a gente pode colocar dois termos um ao lado do outro, aí eles criam três simbolozinhos para consigná-los: capacidade de associação dos termos por conjunção ou implicação [] ou conjunção ampla [&], compatibilidade [+], incompatibilidade [-], ou incapacidade brutal de produzir relação entre os termos [T] ou um aspecto transformacional entre eles. Me parece que consignar depende de uma capacidade criativa e, se voltarmos à Bienal de São Paulo de 2008, era muito o que os curadores queriam – atiçar a montagem, a leitura crítica e dialógica das obras (mesmo que pouquíssimas obras deixassem espaço de resposta).

É interessante observar que a capacidade criativa e cognitiva necessária para o acontecimento da obra talvez seja a mesma que constitui a esfera pública. Neste sentido se pode pensar a liberdade associativa e a possibilidade de redes de cooperação. Estes autores se preocupam por falar disto na atualidade porque em parte a sociedade ocidental produz monstros, ou estruturas de governo, de guerra, de controle que sobressignificam desde as práticas individualmente (o que faz o artista ser um artista? o que faz um curador ser um curador? o que faz um historiador ser um historiador?) e também as instituições e as formalizações destas cooperações.

Me interessa expor que às vezes (e isto se confere muito nas relações dadas na atualidade do capitalismo) as capacidades criativas e as formas de cooperação quando entram num certo tipo de regime ou de sistema elas somem, elas perdem o valor. No caso da arte, a experiência sensível enquanto tal acaba sendo qualificada, e acaba sendo traduzida para dentro de uma experiência que se torna sim uma experiência de consumo, uma experiência de poder, econômica. O que me preocupa é como a gente mantém a vitalidade das nossas relações junto, ou por fora, ou aliado, ou numa tangente, contando com a presença do sistema capitalista. Por isto, “fora do eixo” como condição subjetiva de busca de produção de novas relações desse sujeito que já tem uma capacidade criativa, cognitiva é, talvez antes um deslocamento subjetivo instituído, não como resistência a um sistema outro ao qual seria alternativo, nem como cooptação a algo maior, mas como uma forma de ser, que se afirma enquanto tal.

Agora mais duas últimas observações sobre o sistema capitalista: (1) que o capitalismo é uma forma de relação, ou seja, o capitalismo ele não está aí enquanto tal, não sabemos até que ponto ele é “estável”, pode derruir visto que tem certa fragilidade, bem por isto me parece que se pode provocar intervenções nele; (2) será mais rentável dentro deste sistema, será mais sagaz, aquele que for mais desterritorializado e aquele que for mais dinâmico. Ambas as definições são de Negri e Lazzarato. E se a gente pensar, hoje em dia, são duas capacidades que muitos requer aos artistas, quando eles viajam em programas de residência, quando têm que produzir relações com o estrangeiro, capacidade de chegar lá e se sentir outro, apreender e dialogar (…).

A aparente impossibilidade de estar por fora desse sistema econômico me parece a mesma conexão que temos com um circuito ou sistema de arte institucionalizado, onde as funções atribuídas a cada ator são bem determinadas: curador, artista, colecionador, museólogo, etc. Contudo me parece que este evento testa a possibilidade de produzir movimento, de produção em cooperação com sistemas e não exatamente por fora disso. Produzir interferências, cortes, rupturas subjetivas e eventos abruptos, que podem ser propositivos, que podem modificar as funções deste sistema, constituem uma esfera pública, nem tanto espacial (apegada a um território geográfico), e neste sentido ela não deve estar obrigatoriamente em espaço público, ou no espaço da rua, ela se constitui num espaço que seja comum, num espaço que haja minimamente várias pessoas, ou duas pessoas ou às vezes nenhuma (?) disposta a trocar, argumentar, construir; enfim, digo isto para gente se colocar a pensar. Nossa grande questão parece ser criar nessa esfera. Então, só pra gente pensar, o que a gente quer com as relações que propõe?, com aquelas relações de consignação?, transpondo as ferramentas do Art & Language, e repensar até que ponto a gente precisa e de que forma é estratégico ou é inteligente se configurar (que não é só se denominar enquanto tal) artista, crítico, curador (…) São questões para mim não resolvidas e que só existem no exercício de uma esfera pública de liberdade. Para finalizar minha fala quero ler um pedacinho bem pequenininho de Hanna Arendt: ela investiga a ação, e o drama, no teatro, que se aproxima do exercício da esfera pública. Sobre a ação, há o escrito: “pois a ação é o que estabelece o grande paradoxo (…) o conceito de liberdade foi criado ao mesmo tempo e não antes que o homem”.

NOTAS

[1] O Arquivo de emergência agrupa material de “eventos de ruptura” da produção brasileira em arte desde meados de 1998. O Arquivo inventaria uma série de conceitos fundamentais para sua compreensão. É exposto em instituições de arte ou não, realiza parcerias com projetos de outros artistas, coletivos e iniciativas autônomas. Consulte a página para saber a localização do Arquivo de emergência: HTTP://arquivodeemergencia.wordpress.com.

[2] NEGRI, Antonio. Cinco lições sobre o Império. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.

[3] Gosto muito de pensar em um saber que está disponível, e assim o livro me parece – só para não perder a linha (da leitura), o livro está no mundo, e me fascina que o livro escrito, o mesmo ao qual eu cheguei, também pode ser acessado por alguém do outro lado do mundo. (Isto também tem a ver com os arquivos.) Pensar o livro com o mundo, pensar o mundo com o livro. Eu sinto que estou aqui não para dizer de algo que está escrito, mas que fala junto.

[4] VIRNO, Paolo. Cuando el verbo se hace carne: lenguaje y naturaleza humana. Buenos Aires: Cactus: Tinta Limón, 2004.

________. Virtuosismo e revolução. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 2008.

[5] HTTP://blurting-in.zkm.de

 

Texto publicado em Fora do Eixo (2010) escrito a partir da participação em um seminário organizado em 2008. Funarte / Brasilia.

Camuflagem

Camuflagem:

Reli um pedaço do Jacques Derrida:

(…) gênero daqueles que têm lugar, por natureza e por educação. Vós sois, pois, ao mesmo tempo filósofos e políticos. (…) estratégia (…) de Sócrates (…) desnorteante (…) enlouquecedora (…) simula colocar-se entre aqueles que simulam (…) pertencer ao genos daqueles cujo genos consiste em simular (…) a pertinência a um lugar e a uma comunidade (…)

Na atualidade, artistas não exatamente se caracterizam estritamente enquanto tais. Suas ações fazem migrar entre si fatos estéticos da crítica à política, desenvolvendo aprendizagens, tornando-se organizadores, educadores, gestores, historiadores, mediadores, entre outros. Novos corpos surgem nesses agenciamentos. Eventos recentes no terreno do Brasil expõem a constituição de uma especificidade na forma de “esferas públicas” temporárias e fragmentárias, sem esquecer que se tratam de proposições com especialidades próprias. Importam nas “esferas públicas” as intensas trocas sociais instigadas entre participantes não identificados estritamente a um campo ou circuito comum de produção cultural, mas a ele associados pela via direta das práticas, que hoje se abrem entre artísticas, comunicativas e expressivas, para desenvolverem problemáticas sociais vividas por todos. A esfera pública se inscreve, necessariamente, em um “onde”, como questão.

Ações neste “onde”, que não está dado a priori, parecem produzir corpos diversos (mais que humanos). Se tornam, é possível, elementos conectivos de um grande dispositivo novo, que converge ou diverge de um território em constituição: a cidade. Analisando ações em conjunto, observamos a diversidade das práticas e o corpo de uma coisa ainda disforme. Assumem existências sem finalidade dura. Outras práticas, porém, clamam direitos. Pensam essa cidade como território produtivo, lugar de enunciação, emergência do protesto. Nela tornam explícita a realização da vida. A cidade como território produtivo clama um posicionamento, mas qual será o corpo que nela atua?

Há algum tempo me dedico a produzir formas de fazer pensar e des/entender as motivações pelas quais artistas e produtores culturais, nos anos mais recentes, se dirigem a algo que cambia e cambia de nome, mas que constantemente se reinscreve como “cidade”. Nela(s), pela promoção de esferas públicas, ações entre pares e des-pares, provocam parcerias e desencontros, sustos e atropelos, coadjuvam uma série de expressividades, comunicações e intrusões. Nestas composições, há mediações e capturas. Nalgumas situações, nada melhor do que ser estrangeiro e brincar nas cidades desconhecidas para deflorá-las. Noutras, não é possível, e não se pode atropelá-las. Em alguns territórios não há sempre becos. Não há esquinas possíveis. Não há possibilidade sequer de escuta. Nada se captura. Em outros lugares, ações provocam alardes. São produzidas como em territórios neutros. São espetáculos desejados com promessas de sucesso. Mas, causam vertigem?

Interessa pensar esse território descontrolado para autorizar-se, talvez, a uma camuflagem. Estratégia (…) enlouquecedora. Perpassamos o risco. Não pode se tratar aqui de comercializá-las. Não podem ser nem turísticas, nem históricas, cidades inteiras. Maré e Alagados, territórios contextuais. Não se pode pensar quantos isso ou aquilo. Não se pode.

Ao mesmo tempo em que eventos no Brasil têm promovido o uso de “espaços públicos”, acompanhados de pensamentos teóricos que ancoram criticamente (em termos de linguagem) e afirmações (conquistas políticas), aqui de fato caímos na cidade do desmedido. Com isso, gostaria de suspender a certeza de que ‘sabemos o que estamos fazendo’ (discursos do empreendedorismo) e chamar para a uma análise atenta das possibilidades políticas dessas cooperações. Nem nítidas, nem verdade. Incitação de nascimentos, de coisas disformes informadas pelo protesto, que não podem se esquecer da presença política de corpos, em que se pergunta: qual a disponibilidade desses novos, outros, “corpo” e “cidade”?

Publicado no Caderno Provocações / 2010 / CorpoCidade, UFBA, Salvador