Processos de pesquisa, produção de conhecimento e criatividade processual /// sinopse

Processos de pesquisa, produção de conhecimento e criatividade processual:

Cartografias esquizoanalíticas no Brasil

A tese analisa o conceito de “cartografia esquizoanalítica” a partir do trabalho de Félix Guattari e seu desenvolvimento prático e teórico no Brasil. Práticas cartográficas vem sendo desenvolvidas extensivamente no Brasil desde os anos 1980, sobretudo a partir das teorias e práticas de Guattari e dos contextos da análise institucional francesa e psiquiatria institucional italiana. Cartografias esquizoanalíticas podem ser desenvolvidas como uma ferramenta ou como um dispositivo para analisar o agenciamento coletivo do desejo.

Cartografias mapeiam e criam: elas são realizadas por aqueles que querem produzir suas próprias vidas, ao mesmo tempo em que resistem à opressão e os diversos modos de subjetivação capitalista que levam à subsunção do desejo, do afeto e da criatividade. Em resposta a isto, essa tese traça cartografias esquizoanalíticas que desenvolvem novos processos de pesquisa e novas formas de organização, subjetivação e institucionalização no Brasil.

Explora termos centrais no trabalho de Guattari, como os conceitos de ‘transversalidade’ e ‘micropolítica’ para analisar práticas de processos de pesquisa na academia, como o grupo de pesquisa Subjetividade Contemporânea, e grupos de teatro trabalhando em transversal com saúde mental como a Companhia de Teatro Ueinzz. Analiso como esses processos trabalham através das instituições, das práticas teatrais da clínica e do corpo social. A tese analisa a relação entre ‘subjetividade processual’ e ‘criatividade processual’, propondo o ‘processual’ como a forma de acoplamento entre sujeitos, modos de expressão e instituições.

Esta tese argumenta contra noções redutivas de arte politicamente engajada que propõe oposições entre as práticas estética e política, e trabalha contra definições institucionalmente circunscritas de pesquisa baseada em prática. Ao contrário, esta tese propõe novos recortes e diferentes genealogias de práticas que transversalizam e radicalizam a produção estética, conectando tais práticas a suas bases políticas, por for a da agenda das grandes instituições culturais, dos mundos e mercados da arte. A partir da análise de práticas, esta tese argumenta que cartografias esquizoanalíticas trabalham conjuntamente a ‘criatividade processual’ e a ‘produção de subjetividade’ permitindo uma reorganização dos campos dapolítica, da estética e da produção do conhecimento.

* Tese aprovada em Dezembro de 2016 no Art Department, Goldsmiths College, University of London, UK. Bolsista Capes – Doutorado Pleno, 2012. Supervisão de Dra. Susan Kelly.

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Loucura (Análise da,)

Loucura (Análise da,)
Cristina Ribas

Alguém imagina-se sem laterais. Sem classificações. Sem trilhos. Tudo o que tem a cuidar é o seu próprio corpo. Alimentado com café e muito açúcar. Alimentado com o que sobra de afeto dos outros que passam. Ou, cuidado bem de dentro de casa, ou bem cuidado numa casa-coletiva que lhe produz junto, como engrenagem macia. Vida que borda, vida que compartilha, vida que aprende a cuidar do outro. Vida que se separa de si mesma, que imagina outras realidades, mais materiais e mais imagéticas que essa convencionada aqui entre nossos corpos. Vida que não se separa da vida dos outros.

Uma das loucuras do Brasil é essa soltura de modos de gente que se acumulam nas calçadas ou que se escondem e se misturam nas instituições manicomiais e nas casas compartilhadas. Que cantam por aí. Que fazem teatro. E que dão discursos nos bancos corruptos.

A loucura não é só do Brasil, claro. Mas alguma razão há por que tem tanta loucura aqui. E há algo que faz essa loucura visível, muito visível. Ou são meus olhos que vêem demais a soltura da loucura.

Há modulações da loucura, assim como há modulações do cuidado da loucura.

A análise da loucura, por sua vez, não deve ser uma que a abafa. Ou moraliza. Não deve ser uma que medicaliza, uma que faz a loucura desaparecer. Nesse sentido, deve ser uma análise de cuidado ativo, produtivo, que não multiplica a loucura per se, mas que encontra com elas caminhos de efetuação da vida. A análise da loucura deve tornar-se análise do desejo.

A análise do desejo produz uma trama fluída, que compõe com a liberdade da loucura. Mas com o fim da  liberdade detecta-se a expressão de microfascismos. Ali a loucura ‘vira’, é outra loucura. Que nos chama aos nossos limites. Olha pra isso. Olha que loucura! Já não mais cremos no que vemos.

O que é que se concentrou no corpo daquele homem-policial? Que energia ou fraqueza foi transferida a seu gatilho que disparou e que matou o camelô na calçada da Lapa? (São Paulo) O homem é logo submetido a análises patologizantes – sua esquizofrenia, suas neuroses, suas psicoses, seus medos, suas nóias, seus crimes anteriores. Arrisco dizer: sua loucura primeira e última: ser policial. O mesmo se faz com aqueles que protestam, claro. Mas esses são classificados como loucos ou perigosos para que imediatamente seu potencial político seja apagado. Arriscam dizer: sua loucura: o desejo de protesto. A personificação dos casos não pode, contudo, interromper a compreensão de como os eventos são sintomáticos de modos sociais, de organizações e instituições que nos formalizam. Ou às quais resistimos.

É nesse ponto que a análise da loucura não pode descansar. Ela vai perceber as sutilezas, as especializações, as acoplações com o poder. A loucura higienista, que se torna controle da vida alheia. Que faz gente desaparecer, gente morrer de fome, gente vadiar sem casa, gente revirar-se em resistência. A análise da loucura vai tentar ler aquilo que autoriza a expressão das linhas mais e menos visíveis de microfascismos que, por sua vez, revelam sua relação intrínseca com uma superestrutura. O fascismo na sua dimensão macropolítica.

Loucura já conhecida, disfarçada de política. Loucura que não é o governo do navio dos malucos, daqueles soltos e libertos, daqueles exilados, e daqueles autonomizados, que criam e que diferem. Mas daqueles que marcham juntos diante de um altar, que desejam um porvir que não chegará em vida, que vendem suas almas.

Entre a loucura do fervor religioso, do fascismo e da homofobia não há muita diferença. Elas se associam ao discurso do poder e de uma moral normalizante que autoriza o massacre à luz do dia de casais gays, de povos indígenas, de velhos e de pobres negros, de mulheres fortes e de prostitutas, e dos loucos libertos por eles mesmos, que anunciam sair de um tipo de mundo, de um mundo estritamente normal e economicamente produtivo.

Eu olho para esse modo da loucura que produz uma moral maior sem ética. São loucuras higienizantes que operam nos tribunais, nos conluios econômicos, nos esquadrões policiais. Sua fraqueza é um desejo de poder. A loucura colada ao microfascismo e ao poder de estado produz uma realidade comum que se opõe a abrir qualquer negociação social. Bolsonaro. Cunha. E talvez seja errado analisar desejo de poder chamando-o de loucura. Talvez seja uma tentativa de captar e isolar ao modo da patologia aquilo que já não mais podemos aceitar.

A análise da loucura não é, então, detectar uma loucura boa e uma loucura má. Nem isolar a loucura como sintoma de uma pessoa só. A loucura, assim como o desejo, são produções sociais. Analisar a loucura é ir por outros lados: ir para além da domesticação da loucura e ao mesmo tempo estar atento a intervir na loucura da moral sem ética que se facializa com o poder, que se expressa como controle, que é esquadrinhada e cientificizada em planos de ordem e produtividade social.

Da análise da loucura, da loucura solta, que não tem medo de destruir a si, pode emergir por meio de um escrutínio incontrolável, da abertura de um diagrama complexo, o poder que centraliza o fascista, e ele, transparente, isolado, neurótico e fóbico, com medo da multidão promíscua.

Processual Creativity /// synopsis

\\Research Processes, Knowledge Production and Processual Creativity:
//Schizoanalytic Cartographies in Brazil

Cristina Thorstenberg Ribas

Synopsis*

In this thesis I analyse Félix Guattari’s notion of schizoanalytic cartography in its theoretical and pragmatic development in Brazil. Cartographic practices have been developed extensively in Brazil since the 1980’s, stemming from the theories and practice of Guattari and from French and Italian institutional analysis. Schizoanalytic cartographies are broadly developed as a tool to work through collective processes, as a device to analyse the collective agency of desire. Cartographies both map and create: they are realised by those who want to produce their own lives, while resisting oppression, and modes of capitalist subjectivation subsuming desire, affect and creativity itself. This thesis therefore traces schizoanalytic cartographies that devise new research processes and new propositions of organisation, subjectivation and institutionalization in Brazil. It explores key Guattarian terms ‘transversality’ and ‘micropolitics’, to analyse the practices of research processes in academia, such as Contemporary Subjectivity Research Group, and theatre groups working in transversal with mental health care, such as Ueinzz Theatre Company. I focus on how these processes work across institutions, theatre practices, the clinic and the social field. The thesis traces their work on “processual subjectivation” and “processual creativity”, proposing the “processual” as the core form of assemblage between subjects, modes of expression and institutions. This thesis argues against reductive notions of politically engaged art that pose oppositions between aesthetics and political practice, and against institutionally circumscribed definitions of practice-based research. Instead, the thesis proposes new frameworks and different genealogies of practice that transversalise and radicalise aesthetic production, connecting it in new ways to political grounds, outside of the agenda of larger cultural institutions, art worlds and markets. Through the examples of practices analysed, it argues that schizoanalytic cartographies bring “processual creativity” and the “production of subjectivity” into relation, and allow us to reassemble the fields of politics, aesthetics and knowledge production.

 

* Thesis to be submitted by September 2016 @Art Department, Goldsmiths College, University of London, UK. Bolsista Capes – Doutorado Pleno, 2012.

Para ler em português clique [aqui]

‘ler é uma loucura’

eu nunca sorri tanta para um livro. tenho certeza que sorri não só pelo caminho todo que ele fez para chegar. pelas mãos da querida amiga Monica atravessando todo o oceano. pela pint que circulava no meu corpo. mas tambem porque ele veio acompanhado de erva, cuia, bomba, sling, outros livros sobre cartografias e presentes para a Hannah da tia Anamalia. porque o livro faz parte do mundo das coisas e das formas, ainda que tenha seu modo peculiar de operar. sorri não só porque abri o pacote no ônibus rumo ao sul, depois da conversa deliciosa com as amigas. tanta conversa inacabada! tanto desejo de seguir conversando. não só porque ele é de 1988, e a fonte e impressa fazendo um sulco no papel. não só porque ele veio de um sebo de Manaus, para uma caixa postal em Florianópolis. nunca sorri tanto para diagramas em português que eu ainda estou tentando decifrar, que me afetam, e que vão revelando encontros com esse personagem real e fictício – Félix Guattari – que é uma espécie de guia na minha tese. mas também uma espécie de caça, que eu vou perseguindo na floresta do caos. sorri muito não só porque encontrar um livro que se deseja é como uma encruzilhada, uma bifurcação, ou o fim de uma trilha numa viagem. é como sair de um certo exilio, de um certo isolamento, abrindo um espaço desejado. nunca sorri tanto para um livro, e gargalhei quando abri a capa e ali dentro encontrei o pequeno lema da livraria e sebo O Alienista de Manaus. “ler é uma loucura.”

10 06 2015