Complexidade, Cartografia de

{resumo}

A noção de complexidade emerge no trabalho de Felix Guattari relacionada à sua produção de cartografias esquizoanalíticas (GUATTARI, 2013). A complexidade como conceito pode ser pensada da mesma maneira que as cartografias esquizoanalíticas, ambos conceitos são gerativos e servem não apenas para entender, mapear e analisar mas também para incitar, inventar, criar, modular processos. O conceito de complexidade, junto com a análise de Guattari de modos de subjetivação no capitalismo contemporâneo é muito útil para entender políticas de subjetivação (ROLNIK, 2010) implicadas em modos de produção contemporâneos, seja no campo das artes, da clínica, dos movimentos sociais e outros. Neste artigo eu discuto o trabalho de coletivos, grupos, projetos de pesquisa que têm usado a cartografia de complexidade para trabalhar processos na tensão micro-macropolítica. Eu argumento neste artigo como processos cartográficos são constitutivos dos cartógrafos-pesquisadores eles mesmos, interferindo portanto na dicotomia que separa pesquisador do objeto de pesquisa. A cartografia opera como ferramenta militante e micropolítica, realizando a análise dos fluxos do poder e do capital, ao mesmo tempo em que atua como ferramenta constitutiva de processos de subjetivação, em seus processos de singularização na resistência à diversas opressões.

{da introdução}

Ressalva

A cartografia de complexidade quando aplicada na composição de territórios, na apresentação de mapeamentos, na criação de planos diversos, na criação de novos signos que desviam das significações dominantes é também uma destruição. Quando dizemos cartografia funcionando como ferramenta de composição de lutas de resistência, devemos considerar também a função destruidora das cartografias. A “cognição criativa” (KASTRUP, 2008) trabalhada a partir dos métodos cartográficos não é, portanto, meramente acumulativa. Ela opera por meio de processos e modos de semiotização que além de seleção, edição, desenho, também realiza cortes, apagamentos, destruições.

Complexidade como um conceito

De que maneira a cartografia trabalha processos de singularização ao mesmo tempo em que realiza uma análise do sistema econômico e político que é necessário enfrentar? Neste texto investigo a noção de complexidade como conceito acessório para produzir e analisar processos e projetos que desenvolvem mapas e cartografias, sejam eles mais dedicados ao mapeamento dos fluxos do capital ou à emergência de resistências aos efeitos desses fluxos. Investigo então o trabalho da complexidade como conceito que corrobora nas políticas de subjetivação que os métodos cartográficos mobilizam. O campo teórico e prático são as cartografias esquizoanalíticas desenvolvidas por Felix Guattari1 como processos cartográficos operam processos de singularização ao mesmo tempo em que produzem uma análise dos contextos econômicos e políticos nos regimes de austeridade do capitalismo contemporâneo, aos quais é necessário resistir. São matéria deste texto o capitalismo contemporâneo, as lutas de resistência às subjetivações capitalísticas e as políticas de subjetivação e singularização das lutas elas mesmas.

A noção de complexidade emerge no trabalho de Felix Guattari relacionada à sua produção de cartografias esquizoanalíticas (GUATTARI, 2013). O conceito de complexidade pode ser pensado da mesma maneira que as cartografias esquizoanalíticas, ambos conceitos são gerativos e servem não apenas para entender, mapear e analisar mas também para incitar (unleash), inventar, criar, modular processos. A complexidade surge com as bifurcações incitadas pelos processos clínicos no seu encontro com a micropolítica, e faz parte da heterogênese ontológica de Guattari. Guattari define em Caosmose (1992) que “a esquizoanálise, mais do que ir no sentido de modelizações reducionistas que simplificam o complexo, trabalhará para sua complexificação”, o que ele chama de um “enriquecimento processual”. A esquizoanálise e a cartografia trabalham então de maneira a corroborar a “tomada de consistência de linhas virtuais de bifurcação e de diferenciação” (GUATTARI, 1992, pp. 90-91) em processos de subjetivação. Essa proposta diagramática (e não programática) de Guattari não quer levar sujeitos concretos a bloqueios reais, expondo suas vidas a um caos que os imobiliza, mas quer incitar “caosmoses”. Aquilo que nos imobiliza, por sua vez, são os processos de subjetivação capitalísticos, que exaurem nossa potência de desejo, pré-significando nossos fluxos produtivos dentro da normatividade do capital (subsunção da arte, subsunção da política, subsunção da clínica, subsunção da cartografia – tudo a serviço de uma reprodução social colada ao significante capitalístico). (…)

Para o texto completo baixe aqui

Publicado originalmente na Revista Indisciplinar (UFMG), 2015

duelos sobre a maternidade

sei não essa coisa da #maternidade ser tão polêmica é porque nos mostra simplesmente que todos saímos de uma xoxota arregaçada (ou de uma barriga cortada), depois de meses de um estado nada racional (que se extende à infância claro) em que tudo o que tínhamos era água pura, calor e o ritmo do batimento cardíaco, dos gases, dos movimentos dos corpos de nossas mães e daqueles que as rodeavam. o contraste do mundo da barriga com o mundo ‘de fora’ mostra que somos nem tanto humanos, mas que somos muito mais animais do que gostaríamos, e por tanto controlamos tanto, ou tentamos controlar isso que é assim mistério de multiplicação da vida. quanta prepotência há no duelo sobre a maternidade. é o seguimento do heterocapitalismo, do qual muitas mulheres também se iludem, de uma incompreensão em larga escala de que algo se perdeu. não falo de uma maternidade arcaica, nem só de mulheres, falo de maternagens, de jeitos de cuidar, e de sair desse controle absurdo sobre aquilo que expressamos e sentimos com o duelo que vivemos entre reprodução social e cuidado reprodutivo. é complicado porque nesse tema se separa muito a percepção da mãe-nova-mulher (na onda das novas maternidades super empoderadas) e a criança (e seus mundos sensíveis em construção, e por outro lado as infâncias idealizadas, etc etc). quem sabe uma pequena viagem à nossa própria vida quando embarrigados poderia mudar um pouco a perspectiva.

Processos de pesquisa, produção de conhecimento e criatividade processual /// sinopse

Processos de pesquisa, produção de conhecimento e criatividade processual:

Cartografias esquizoanalíticas no Brasil

A tese analisa o conceito de “cartografia esquizoanalítica” a partir do trabalho de Félix Guattari e seu desenvolvimento prático e teórico no Brasil. Práticas cartográficas vem sendo desenvolvidas extensivamente no Brasil desde os anos 1980, sobretudo a partir das teorias e práticas de Guattari e dos contextos da análise institucional francesa e psiquiatria institucional italiana. Cartografias esquizoanalíticas podem ser desenvolvidas como uma ferramenta ou como um dispositivo para analisar o agenciamento coletivo do desejo.

Cartografias mapeiam e criam: elas são realizadas por aqueles que querem produzir suas próprias vidas, ao mesmo tempo em que resistem à opressão e os diversos modos de subjetivação capitalista que levam à subsunção do desejo, do afeto e da criatividade. Em resposta a isto, essa tese traça cartografias esquizoanalíticas que desenvolvem novos processos de pesquisa e novas formas de organização, subjetivação e institucionalização no Brasil.

Explora termos centrais no trabalho de Guattari, como os conceitos de ‘transversalidade’ e ‘micropolítica’ para analisar práticas de processos de pesquisa na academia, como o grupo de pesquisa Subjetividade Contemporânea, e grupos de teatro trabalhando em transversal com saúde mental como a Companhia de Teatro Ueinzz. Analiso como esses processos trabalham através das instituições, das práticas teatrais da clínica e do corpo social. A tese analisa a relação entre ‘subjetividade processual’ e ‘criatividade processual’, propondo o ‘processual’ como a forma de acoplamento entre sujeitos, modos de expressão e instituições.

Esta tese argumenta contra noções redutivas de arte politicamente engajada que propõe oposições entre as práticas estética e política, e trabalha contra definições institucionalmente circunscritas de pesquisa baseada em prática. Ao contrário, esta tese propõe novos recortes e diferentes genealogias de práticas que transversalizam e radicalizam a produção estética, conectando tais práticas a suas bases políticas, por for a da agenda das grandes instituições culturais, dos mundos e mercados da arte. A partir da análise de práticas, esta tese argumenta que cartografias esquizoanalíticas trabalham conjuntamente a ‘criatividade processual’ e a ‘produção de subjetividade’ permitindo uma reorganização dos campos dapolítica, da estética e da produção do conhecimento.

* Tese aprovada em Dezembro de 2016 no Art Department, Goldsmiths College, University of London, UK. Bolsista Capes – Doutorado Pleno, 2012. Supervisão de Dra. Susan Kelly.

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magic surveillance

pretty magic, such as things are when we are being watched. I arrived at my mum’s house and the post men came with his yellow bike.  I said ‘you do have something for me’. and he hand delivered your purple letter to me. not that he knows me, but we had a quick chat the other day. are we being watched? when you mentioned a letter, it arrived! I played with my mum that the guy delivers letters randomly, each day he picks up one, so trying to predict when something will arrive or stamp date doesn’t make any sense. gracias. te escribo pronto

Adults traps

While our children sleep we set traps. Adults traps. Adults fall in love, get lost in plans, hassle, plan trips, come, laugh, are drunk. Adults swap gender, do make up, have their bodies naked, make themselves either big or small, sneak into each other, suffer and desire, piously. Adults dream that enter each others bodies, and do enter each other bodies. Adults dream in politics, and dream about a passage from one plane to another, as it would be more feaseble, that the military will fall, so they plan attacks, guns, black flags. Between boleros and dramas, bad beer and unfinished analysis, they scratch their bodies in the streets, in the dirty walls, they smoke what burns them inside out.
When our children are asleep, we fly away, and we run over each other, we fight. When our children wake up, they wake up our dry eyes, and a new journey starts. In the fresh morning the revolution of truth, libidinal from another era. In front of the nostalgic eyes of those dreams and comings, in front of the demolished bodies from the previous night, small bodies, subtle, and light. Filled up with plans. And we turn to them – absolutely – gigantic bodies in the morning. New trials and new tests to what ails us. Subtle and light bodies that ask for care, smaller than ours, they proof us that, maybe, we will fail. They bring challenges from another scale. Hangover in the adults eyes, attentive, however, to the marvellous dimension, fantasious, energetic of our children. Our eyes carry some sort of fear, fed by a small-big impression that we wont be able to hold the topsy-turvy dimension of our children’s semioticisations. Small child, its like: inventive present. In the body of the adult, on the other hand, a little bit of death, floating alcohol, unfinished lush, questions of order, greed for a longer night.
We wake up in another plane.

Attack plans from the previous night falter. The world of the adults traps gets lost in the porosity of the morning. Veridical and sweet eyes, usurpating. Usurpating the passage and the crossing plans, delaying for the next night that world of dramas, delirium, erroneous slut, a world of passions. Adults traps. We run over each other more and more seriously than in children’s battles. Of course. We are night gladiators. We have desiring bodies. But the other ones, the small morning gladiators, they put us in retaguard. Small bodies, not less transformative.
When our children wake up we are surrended. We leave behind the bed with its lakes and lascivious marks, we get out to the wilderness of the house, we cross by real obstacles, material, colourful, stockable, talkative, breakable, threatening. The direction of the adults passions is drained by the touch and the sight, for when our children wake up we realise we have gone far, to a world of fears, our smallness, and, in front of us we have an excess of tender, warmth, risk and pure passage.

When our children wake up we burn with longing, longing for the traps we have arranged, as if it would be easy to get rid of them, as if the night betrayals where fair play, as if we would be more equal in these battles, those that when we lose, we strieve even more. Adults create traps as a drift, they play with themselves, they get drunk in their gozos, they relief from pure room of something bigger.
Adults wake up in scorched land (and scorched themselves). But no, its another plane. Consistency by caress, consistency by breaking that sovereignity.

Adulticities. Adults traps get lost in the morning. Small bodies defeat and lead the retaguard. Surrended, adults bodies abandon their projects, and their traps. Navigated by silky affects, the small (gladiators, liders, revolutionaries…) are soliciting us in such a soft way. Even so they call us, they convoke us. They don’t know about our death-alive bodies, the chilly shivering, the sufferings with politics, the crossings of affect. They don’t know we wake up all of a sudden, and from delirium.
They look at our eyes, steady:
– Are we ready, are we?
– Or are we still trapped?

*

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Trampas de adultos

Enquanto nossas crianças dormem se armam trampas. Trampas de adultos. Adultos se enamoram, se perdem em planos, criam lios, e planejam viagens, gozam, riem, estão bêbados. Adultos trocam de gênero, maquiagens, corpos nus, se fazem grandes e pequenos, se inmiscuem uns nos outros, sofrem e desejam, piamente, mais do que podem. Sonham que entram e entram um no corpo do outro. E sonham políticas, e sonham que a passagem dum plano a outro é mais possível, que os militares cairão, e planejam ataques, armas, bandeiras negras. Entre boleros e dramas, cervejas ruins e análises inacabadas ralam os corpos nas ruas, paredes sujas, e fumam o que lhes queima.

Enquanto nossas crianças dormem voamos longe, fazemos atropelos, brigamos. Quando nossas crianças despertam, acordam nossos olhos secos, e começa uma jornada. Na manhã fresca a revolução da verdade, libidinal de outra era. Diante dos olhos nostálgicos daqueles sonhos e gozos, diante do corpo demolido da noite anterior, pequenos corpos, sutis, e leves. Cheios de planos. E nos tornamos para eles –  absolutamente – agigantados na manhã. Vem aí outras provas para as trampas que nos afligiam. Corpos sutis e leves que pedem cuidado, mais pequenos que os nossos, e nos provam, talvez, menos capazes para nossos planos. Os desafios que trazem são doutra escala. Nosso olhar de ressacas é atento, contudo, à sua dimensão maravilhosa, fantasiosa, energética. Nosso olhar carrega um pouco de temor, alimentado pela pequena-grande impressão de que não daremos conta da dimensão escalonada, às avessas, das semióticas infantis. Criança pequena, igual a: presente inventivo. No corpo do adulto, por outro lado, um pouco de morte, álcool flotando, questões de ordem, gozo que não cessa, ganância de uma noite mais longa.

Acordamos num outro plano.

Titubeiam os planos de ataque da noite anterior. O mundo das trampas adultas se perde na porosidade da manhã. Olhos verídicos e doces, a usurpar. Usurpar os planos de passagem, de travessia, a fazer tardar para a noite seguinte aquele mundo de dramas, de delírios, de errôneas sacanagens, aquele mundo de paixões. Trampas de adultos. Se atropelam muito mais e pior que nas batalhas infantis. Claro. Gladiadores da noite. Corpos de desejo. Mas os outros, gladiadores pequenos das manhãs, fazem de nós pura retaguarda. Corpos pequenos, não menos de transformação.

Quando nossas crianças acordam estamos rendidos. Deixando a cama dos lagos e gozos, saímos na selvageria da casa, atravessando obstáculos reais, materiais, coloridos, montáveis, falantes, quebráveis, ameaçadores. O rumo das paixões adultas é dragado no toque e no olhar. É que quando nossos filhos despertam nos damos conta de que viajamos longe, a um mundo de gozos e medos, nosso apequenamento, e temos agora, diante de nós ternura e calidez de sobra, risco e pura passagem.

Quando nossas crianças despertam ardemos de saudades das trampas que arrumamos, como se delas fosse mais fácil desvelar-se, como se as traições noturnas fossem o jogo limpo, aquele em que estamos em pé de igualdade, aqueles em que batalhas não vencidas acendem mais luta. Adultos criam trampas como desvio, brincam consigo mesmos, embebedam-se de seus gozos, aliviam-se por puro ensejo de coisa maior.

Acordam em terra arrasada (arrasados em si). Mas não, é outro plano. Consistência por carícia, consistência por quebra daquela aparente soberania. Adultices. Trampas de adultos se perdem na manhã. Corpos pequenos desafiam e lideram a retaguarda. Rendidos, corpos de adultos abandonam os projetos e as trampas. Navegam por afeto sedoso, pois os pequenos (gladiadores, líderes, revolucionários) nos solicitam da maneira mais suave. Ainda assim nos convocam. Eles não sabem dos nossos corpos meio morto-vivos, de gélidos arrepios, dos sofrimentos da política, dos atravessamentos do afeto. Não sabem que acordamos de súbito, e de delírio.

Nos olham, a postos:
–  Estamos prontos, estamos?
–  Ou ainda estamos atrapados?

*

Versão em inglês [aqui]

A vida pública de uma mulher

O Brasil passa por um momento em que binarismos estão sendo rasgados, a torto e a direito. O crescimento de mídias sociais, uma produção semiótica incontrolável e a tomada das ruas desde 2013 produzem um contraste com as capas dos jornais das grandes mídias que repetem formas e headlines de 30 anos atrás. Para aqueles que como eu nasceram ao final da ditadura de estado e nos politizamos precoces no #ForaCollor, estamos tendo a chance de viver o gostinho do que foram os anos de chumbo, ainda que sabemos que práticas implementadas na ditadura nunca desapareceram das periferias do Brasil. (1) Uma nota: o perigo que incorro neste texto na afirmação de um genérico conceito “mulher” (e ou nas variações que vou abrindo) é parte do espaço para que outras vozes respondam.

A vida das brasileiras e dos brasileiros induzidos ao binarismo do pró ou contra o golpe é atravessada por uma diversidade de discursos: são as minorias que multiplicam os pontos do debate, minorias achatadas pelas porções que se comportam de maneira majoritária. O bloco “de oposição” que tem tirado (ou já tirou) Dilma do poder enseja destruir direitos básicos constitucionais e muitos direitos adquiridos nos anos de governo liderados por Lula e Dilma. Mas o primeiro impacto desse embate têm se dado diretamente contra as lutas das mulheres, contra as lutas das minorias e recentemente, pela repressão aos movimentos que demandam o cumprimento da democracia como direito. A luta por direitos e espaços comuns para além de uma “vida pública” está num embate encurralado contra vidas privadas – vidas ainda mais voluntariamente entrelaçadas com o capital e seus modos de semiotização. Mas por outro lado, nada de novo. Aquele espaço transversal de relação entre a sociedade e o poder representado já vinha sendo anulado no governo do PT e seus aliados, antes mesmo do “golpe”. Sem falar do esgotamento da forma-partido, exposto pelas alianças que se produziram há anos de maneira a tornar primeiro elegível e depois governável uma coalizão. Dilma – primeira mulher presidenta eleita, foi afastada do poder por aqueles que agora se tornaram, no ponto de vista dos que sofreram o golpe, “traidores”. Avaliando o balanço do “pró impeachment” e “contra o golpe” o que é, de fato, que precisamos defender agora? Por onde se movem as lutas? De onde extraem sua força?

Em meio ao binarismo pró ou contra o golpe, a “democracia” virou um sujeito, e porque não melhor, uma sujeita – sujeita ao seu reclame, à pauta em geral de uma sociedade que precisava rever o que se passava no Planalto Central, que precisava colocar nas vias de fato as transversais que conectam (ou não) os cidadãos a seu governo, precisava olhar para a cara de cada deputada e deputado, precisava conferir a austeridade que se implementa pelas forças de um capitalismo neoliberal, cuja primeira plataforma a quebrar são direitos básicos. O debate está, portanto, para além do duplo crise econômica e/ou crise política – é a articulação entre ambas que estamos vendo, é a produção de “crises”, que são matéria mesma do capitalismo financeiro associado à corrupção dos governos e enriquecimento de atores políticos. O que está em jogo são possibilidades de manobra da(s) esquerda(s) no governo, de manutenção de direitos adquiridos e a continuidade da implementação de direitos por vir. Em meio a quebras de contrato, interpretações forçadas de brechas da constituição, pedaladas legais assinadas tanto por Dilma como por Temer, e em meio a defesas que não causam nenhum impacto, “Tchau, querida” se tornou a meme daqueles identificados com a destruição verde-amarelo do governo de Dilma. Outras posições simpatizantes mas não absortas pelo “contra o golpe” se perguntam se “Tchau!” se refere à Dilma diretamente, ou à democracia ela mesma. O bloqueio do PT para fora do planalto central não se concentrou em afastar Dilma mas, nas mãos do vice Michel Temer, se tornou um redesenho homo-orquestrado que tem excluído e fundido Ministérios, entre eles o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos – que eu sugeriria chamar de um “golpe ideológico”, patriarcal, heteronormativo.

No curso do pró impeachment e contra o golpe, entre “Tchau!” e “Fica, querida!”, nos últimos meses vimos no Brasil a destruição midiática da figura pública de Dilma, uma destruição política, que passa pelo machismo estrutural e pela intolerância que cada vez mais tomam espaço na Câmara e no Senado. Esse machismo estrutural aliado à economia foi nomeado pelas lutas femininas de heterocapitalismo (2). O heterocapitalismo é regra em geral não só da sociedade brasileira, mas o sistema de reprodução social que se sustenta no trabalho não pago dos cuidados e trabalhos reprodutivos – pensando os trabalhos reprodutivos e sua relação direta com a reprodução social – ou seja, a maneira como nos “multiplicamos” e somos criados para aderir a um sistema de produção. O heterocapitalismo se especializa na dominação de um sistema político e econômico em que mulheres, mulheres negras, negros, indígenas, gays, transexuais, quilombolas, favelados e muitas minorias são diretamente objetificadas e oprimidas, em favor de modos de vida normativos, urbanos, … consumistas, e na grade maioria dos casos, em crescente débito. No caso brasileiro, o machismo estrutural se manifesta explícita e desavergonhadamente no discurso de Eduardo Cunha, Jair Bolsonaro, Marcos Feliciano e outros tantos deputados. O heterocapitalismo produz a mulher como um imediato do macho produtivo, mulher configurada sem direito de voz, de opinião, de luta, de vida pública. Além disso, o heterocapitalismo, na destruição da vida das minorias (ou na redução da vida das minorias à condição de sobrevivência), concebe o racismo como questão já resolvida, em que o silenciamento (à diferença) é apontado como solução das diferenças.

 

A dimensão pública das lutas, a emergência de novas subjetividades

 

Dilma como mulher pública nunca esteve fora do jogo de especulações, julgamentos, acusações. Uma mulher que, eleita presidenta, tem a todo o tempo sua capacidade de governo diminuída por seu gênero: feminino – julgamento que desencadeia outros tantos preconceitos que são associados pelo senso comum à imagem da mulher, entre eles o descontrole, a loucura, a histeria. Dilma também é julgada por sua luta política, desqualificada por sua radicalidade nos anos de resistência à ditadura, cuja história é combatida dentro da Câmara ou do Senado pela nomeação e homenagem a militares que a torturaram. Que relação a destruição de Dilma como mulher pública tem com a vida pública das mulheres, das outras mulheres?

Em meio à reeleição de Dilma em 2014 as ruas ferviam com protestos que acordavam a maioria e o senso comum (afinal, há muito mais do que O Gigante). Os protestos do ciclo que iniciou em 2013 escancaravam nas ruas o posicionamento dos movimentos organizados e de novas constituições políticas com demandas claras. A tomada direta das ruas explicitava o laborioso cotidiano das lutas nas assembleias, nas comunidades, nos grupos de estudo. Uma multiplicação de enunciados surge: desde a tarifa zero, contra os machismos, a educação como direito, contra a destruição dos ecossistemas e das terras indígenas, contra a violência policial e pelo fim da precarização da vida. A resposta negativa de Dilma para enunciados que criticavam diretamente seu governo foi entre outras a aprovação da lei anti terrorismo, que facilita a criminalização de militantes e de movimentos sociais e à aplicação inúmeras vezes da Lei de Segurança Nacional. As manifestações verde-amarelo que se posicionavam “contra a corrupção”, por sua vez, não foram reprimidas. Por que?

A opressão aos protestos no ciclo 2013-2015, analisada por inúmeras e inúmeros militantes, sociólogas e sociólogos, filósofas e filósofos, foi um sintoma claro do fechamento da máquina do PT-no-governo. A não escuta das ruas e a invenção de inúmeras conspirações para desqualificar o movimento inaugurava a ruína da relação entre governabilidade e democracia de direitos – que requer, por sua vez, a maior quantidade possível de transversais entre a sociedade e o poder representado, uma questão que não se esgota na noção de “representação”, mas que se qualifica na promoção de fluxos, ressonâncias, co-emergências. Ao passo que muitos programas sociais foram criados, a vida pública das brasileiras e dos brasileiros já vinha sendo achatada pela condução a um crescimento do país a qualquer custo, um modo de crescimento que trabalhava por processos de subjetivação pautado na precarização das condições de trabalho, endividamento e desenvolvimento industrial destrutivo, tal como o caso da construção de Belo Monte, como o rompimento da barragem de Mariana e a consequente poluição do Rio Doce e do mar. E agora, o que estamos vendo com Michel Temer, o temível presidente interino?

No ciclo 2013-2015 mulheres complexificaram os espaços de protesto, tornando explícitas uma série de demandas e lutas que ficavam sorrateiramente escondidas sob discursos de demandas políticas majoritárias. Entre as lutas das mulheres viu-se uma multiplicação de subjetividades, enunciados e interseccionalidades: muito além de feminismos brancos, em direção a feminismos negros, queerismos, prostitutas, mães lactantes, transexuais. A luta pela legalização do aborto, contra o feminicídio, e as nuances e estatísticas que separam aquilo que ameaça mulheres brancas e negras em escalas abissais tomaram o espaço público mais e mais, implementando e diversificando pedagogias radicais. O privilégio branco se torna também sujeito de debate. Como então relacionar a vida pública de Dilma (e a perda de seu direito de governar) à vida pública das mulheres, das outras mulheres, que já estavam ‘lá’ no ciclo de manifestações, nas Marchas das Vadias, nas Paradas Gay, na luta pela legalização do aborto? Como resistir na defesa da democracia de direito sem conciliar achatando sob um significante (“luta pela democracia”) a singularidade das lutas que já se faziam públicas a partir do ciclo de 2013?

Pois bem, o que se vê na escala da macropolítica na condução do processo do impeachment e no governo interino de Temer é exatamente a conexão entre a emergência das minorias com o apagamento político de Dilma. O seguimento do processo de impeachment de Dilma enumera causas inconsistentes, contestadas por deputados, promotores, advogados, entre muitos. O processo de impeachment arrasta consigo as vidas das outras mulheres e das minorias, entre tais as que emergiram como subjetividades possíveis pelas lutas e pelas políticas de distribuição de renda. O impeachment associa uma considerada inabilidade de governar de Dilma (por ser mulher, por seu histórico de luta) ao achatamento de modos de vida que, na perspectiva heteropatriarcal, não deveriam adquirir autonomia. A emergência de novos modos de vida, por direitos adquiridos, pelo ensaio de estado de bem estar social não é desejada por aqueles que operam esse “golpe ideológico” – fato comprovado na fala dos deputados heteronormativos e fascistóides no andamento das votações para o seguimento do impeachment no Congresso Nacional. Tais atores da macropolítica não economizam em afirmar que fazem parte de um extrato privilegiado da sociedade, reproduzindo binarismos crassos tais como poder do opressor sobre o oprimido!

 

Nós, dondocas? #Sóquenão

 

Uma matéria na revista Veja sobre Marcela Temer, a mulher do vice Michel Temer, com o enunciado de “bela, recatada e do lar” foi lançada no dia seguinte da votação na Câmara pelo seguimento do processo de impeachment (Junho/2016). A matéria foi suficiente para expor a mentalidade machista que se apresentou na condução do processo de impeachment. O binarismo com o qual o heterocapitalismo rege a vida da mulher ali estava explícito: a orientação da mulher à vida do lar, e a política como “assunto de homens”; ao que “mulheres públicas” responderam prontamente. A mulher cuja vida é “apenas do lar” é tão somente a dondoca, esposa do político corrupto. Há, entretanto, outros binarismos para serem quebrados: (a) os trabalhos domésticos e de cuidado feito por outras mulheres negras e de cor, trabalhos que por sua vez sustentam a vida pública das mulheres que tem o privilégio de ter vida pública; e (b) a vida das mulheres negras, de cor e indígenas, sujeitas à opressão de muitas ordens, cujas vidas não foram representadas na hegemonia branca agrupada pela resistência à “bela, recatada, e do lar”, mas sim no “bela, guerreira e da luta” (e infinitas variações). Mulheres negras e trans se posicionaram em contraposição a esse enunciado, trazendo no seu lugar imagens de pessoas que lutam, de mulheres brancas e não brancas cujas vidas são ameaçadas nas diversas formas de machismo e feminicídio que diariamente as molesta e oprime.

No heterocapitalismo, os enunciados do mundo patriarcal replicam a realidade das mulheres atreladas à vida privada, em que a sexualidade das mulheres é a todo o tempo equiparada a uma escala de modos e valores dos homens – o que chamo de modos de semiotização do modo de vida das mulheres determinados pelos homens. Esses modos machistas, patriarcais, heteronormativos, escondem por sua vez diversos modos de semiotização que incluem submissão, violência, sexualização e evidentemente trabalho precarizado, e não remunerado.

Quem viu a imagem de uma mulher sem consciência após uma bomba de gás em Brasília no dia da votação do impeachment no Senado? Ela tinha cerca de 20 anos, tinha vindo do nordeste e fazia parte do protesto contra a votação do impeachment. A imagem de Marcela Temer (no “bela, recatada e do lar”), por sua vez, foi produzida para funcionar como uma espécie de espelho que pretende operar como um espelho binário, engolindo as mulheres na sua diversidade. Ela deixa evidente que o machismo não é coisa apenas de homens, mas também daquelas mulheres que lutam contra o feminismo, e das mulheres protagonistas do “feminismo” que sujeita a mulher ao modo da vida pública semiotizada por homens. Naquela lógica do espelho, a vida pública de uma mulher que luta não é possível. “Do outro lado” do espelho da dondoca cosmetizada há, contudo, uma variação incontrolável de mulheres e minorias que lutam, que à sua maneira sustentam um país, no trabalho, nas universidades, nas escolas, nas casas, nas lutas sociais.

Eu, como mulher, branca, como militante, como acadêmica, como mãe de uma menina, como pessoa que anda em busca e ou em defesa da democracia, tenho cultivado um olhar para a vida das mulheres que mais e mais perturbam a “vida da normalidade”, a vida heteronormativa. Cavando dentro de mim o privilégio branco ainda não muito analisado, tenho aprendido que as militâncias feministas não brancas e não transfóbicas são essas que transformam pelas ações, pela proliferação de sentidos de ser mulher, mãe, trabalhadora, militante, pelo fazer política e preservando uma ética de preservação da vida contra o capital. A vida persevera ainda que oprimida, ainda que o fôlego seja roubado a cada dia.

 

Análises, análises, análises

Se reclamo a imagem e a força de Dilma como mulher agora – e ao mesmo estendo a significação feminina para as subjetividades que emergem e para a democracia ela mesma – , é para compor com as resistências que se levantam – resistências de diversas ordens, não apenas que se aliam diretamente à defesa das mulheres ou do partido das trabalhadoras, ou dos partidos dos outros trabalhadores – não incluídos na problemática identidade partidária que o PT replica. Hoje vemos que a luta pela vida pública de uma mulher afastada de seu poder de governar (Dilma ela mesma) não pára nesse feito, pois afunda o exercício de uma democracia, e achata as subjetividades emergentes em seus processos de luta. Como disse acima, a força que tirou Dilma destrói paulatinamente os direitos constitucionais (educação, saúde, previdência … ) e os direitos adquiridos (Bolsa Família como ícone, e um sem número de benefícios (3) ). As forças fascistóides que tomam o Planalto Central, tomando o lugar de protagonistas centrais, literalmente, não economizam em oprimir aqueles corpos que se distinguem na multidão que protesta, não economizam em oprimir aqueles corpos e modos de vida que fogem da normalidade binarista e da servidão ao trabalho como o primeiro ponto para a civilidade de direitos.

O desafio que aquelas e aqueles que não abrem mão de falar como mulher, ou como vozes a partir de suas minorias, daquelas e daqueles que não se identificam no binarismo do pró e contra o golpe, e que não se aquietam sob a defesa de “Volta, querida!” – pedindo a volta de Dilma – , têm sido buscar entender se é necessário produzir uma demanda comum. Por hora a luta pela democracia pode ser o ponto onde se concentra a força que faz perseverar movimentos… Li no livro Undercommons que “adquirir ‘governabilidade’ é colocar a democracia a trabalhar. (…) A governabilidade é sempre gerada, sempre orgânica a uma situação. A democracia [por sua vez] não se encaixa em muitas situações, e deve ser trabalhada (…)” (4). Não teria sido a “governabilidade” aquilo que o PT perdeu nos últimos anos? Diante da afirmação do co-trabalho entre democracia e governabilidade, pensando na singularidade dos movimentos que já estão em curso, vou contra a conspiração que achata os sonhos de que diante de um preâmbulo de uma crise econômico-política ainda maior ainda não conseguimos definir a “pauta do dia.” Basta um olhar não histérico porém talvez um pouco histriônico para o dia a dia das lutas. Basta encontrar mais pontos de análise do que #ForaTemer e “volta democracia”.

Duas perguntas para complexificar essa análise: (a) diante do teatro das representações da política no planalto central que articula o impeachment/golpe, será que os movimentos, na escuta de suas singularidades, se fortalecem sob o enunciado comum da defesa da democracia? (b) na relação democracia/governabilidade não seria o chamado por eleições gerais o ponto de concentração – temporal, contingente – das lutas pela democracia?

 

Singularidades em luta

 

Para que servem enunciados, imagens, memes quando circulam? Para desprogramar o dito que se afirma como verdade. Para desmascarar o óbvio (a objetividade da macropolítica e do heterocapitalismo na sua relação com a corrupção econômica, com o corporativismo, com a meritocracia) e trazer dispositivos que disturbam. Mas como é que a replicação desses enunciados, nessa semiótica incontrolável, interfere na normalidade heteronormativa e machista que vemos replicada não só na mídia, cada vez mais assustadoramente no discurso dos “nossos” deputados, senadores, interinos, ministros, mas dos nossos primos, vizinhos, amigos, …? As redes sociais e seus memes operam muitos endogenismos – o fato que na grande maioria das vezes falamos entre nós mesmas e mesmos. Como modular esse trabalho semiótico para que não corrobore ainda mais na reterritorialização do outro a partir de suas formas já concretas (anti-feminazi, anti-esquerdistas, anti-socialistas, anti-transgeneristas, anti-bolsista, anti-cotista…); e para que não opere, portanto, na contuidade da endogenia dos enunciados?

O heteronormativismo gera apenas duplos, duplos negativos de uma vida pública, duplos que são opostos: vida do trabalho e vida do lar. A vida pública, gerida na dobra democracia /governabilidade, fica a cargo dos privilegiados corruptos e meritocratas – todos homens. Nos modos normativistas, sem dúvida, a vida é controlada e cosmetizada, e se move cada vez mais longe da potência da vida ela mesma (potência de criar, e diferir). Nos modos normativistas a vida se torna potência de expressão de semióticas pré-codificadas. Não há imagem mais radical para o heternormativismo do que a das mulheres com seus peitos de fora, amamentando, vadias, lúcidas e luxuriosas; não há imagem mais radical que as transgêneres diante do espelho binário heteronormativo. Vidas, por sua vez, semiotizadas pelo desejo, não pelo desejo de poder identificado ao capital patriarcal, corrupto, corporativista e meritocrático.

A dimensão pública da vida de uma mulher só pode ser a dimensão que acolhe e que desgarra a luta. A dimensão pública da vida de uma mulher é o embate direto ao machismo estrutural, e também ao heterocapitalismo que tenta destruir os direitos da minorias. A luta das mulheres vai além da luta pela democracia, uma luta que não se esgota em demandar, em replicar enunciados, mas gerar condições para a vida ela mesma, construindo diversos comuns além do binarismo público / privado. Não é à toa que vários movimentos falam há décadas do “comum das lutas”. A singularidade das lutas, por isso, vai contra o aparelhamento que sofrem vários movimentos, entre eles, a sobrecodificação da luta pela democracia como eco de governismo PTista. A singularidade das lutas, que está para além da luta pela democracia é aquela que não deixa esquecer a constante dobra entre o indivíduo e suas formas coletivas, em que o subjetivo e o político fazem parte da mesma matéria, o subjetivo e o objetivo da vida e das lutas.

O que a democracia/governabilidade pode aprender da singularidade das lutas, do modo de lutar das mulheres e das minorias, é a ética de proteção à vida, o que merge (mistura, promiscui) a democracia com correntes do feminismo contra-heterocapitalista propriamente dito. Portanto, a democracia/governabilidade não se torna possível apenas quando fomenta um “estado educador”, implementando e apoiando pedagogias diversas, auto organizadas, de proliferação de sentidos e de semióticas a partir de uma ética de variação da vida, mas quando há uma permeabilidade mínima com o poder representado, aquele co-trabalho democracia-governabilidade. Se a democracia garante a vida, ela deve ser defendida. Mas se aqueles que estão em poder das transversais que estendem o governo à democracia operam em favor de interesses corruptos, corporativistas, fascistóides e meritocráticos, heteronormativos, seu poder deve ser destituído. A democracia no atrito com a governabilidade, como espaço de gestão e cuidado da vida só é possível se pode garantir a tomada de voz a partir das diversas singularidades que nos constituem. A democracia, como mulher pública e que luta, é efetiva quando acompanha os percursos éticos das mulheres, das mulheres de cor, negras, indígenas, das minorias, das crianças, das velhas e dos velhos, dos homens, das estudantes e dos estudantes, das grevistas e dos grevistas, das trabalhadoras e dos trabalhadores, para além da dicotomia público e privado e dos modos heteronormativistas que semiotizam, oprimem e isolam nossos corpos. É preciso seguir o movimento em direção às lutas comuns, mas preservar a singularidade, para que possamos lutar para além da vida pública da democracia.

Agradeço a leitura e comentários de Barbara Lito, Luciana Knijnik, Giuliano ‘Djahjah’, Guilherme Reis e Valdiria Thorstenberg.

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Notas

(1) Não posso deixar de fazer uma ressalva aqui: o texto se refere ao embate macropolítico em âmbito federal, porém procura estabelecer transversais com lutas de minorias e lutas locais. Populações historicamente oprimidas tem colocado ‘antes’ da demanda pela resolução do pró ou contra o golpe a demanda pelo fim da repressão policial, substituindo o “Primeiramente #ForaTemer” por “Primeiramente #ForaUPP”. Como exemplo, o movimento organizado recentemente #FomedeViver, no Rio de Janeiro.

(2) Referências para leitura são Amaya Perez Orozco (Subversión feminista de la economia: aportes para un debate sobre el conflicto capital-vida. Madrid: Traficantes de Sueños, 2014.) e Silvia Federici (El Caliban y la Bruja, Mujeres, Cuerpo y Acumulación Originaria. Madrid: Traficantes de Sueños, 2010).

(3) Programas de distribuição de renda, criados ou mantidos pelo governo de Dilma: Bolsa Família, Bolsa Atleta, Bolsa Escola, Bolsa Estiagem, Bolsa Permanência (PBP), Bolsa Creche, Bolsa Verde entre outras.

(4) Stefano Harney e Fred Moten. The Undercommons. Autonomedia/Minor Compositions, 2013.

mundos inacabados (1)

a língua é uma coisa impressionante. li há pouco, e imediatamente absorvi o vocábulo ‘bostejar’ (ie naquela tragicômica crônica da mentalidade crasse média da barra – ‘há grupos mídias sociais etc para bostejarem’). a liberdade dentro de uma coisa entendida como língua é quase territorializante, não fosse a luta de classes sempre presente pra desbancar a mentalidade da classe média e abrir franca desterritorialização. ‪#‎mundosinacabados‬ ‪#‎lavaroupasuja‬ ‪#‎privilegiobranco‬

{ver https://medium.com/@dinhorio/dinho-o-preconceituoso-67ff85904f9a#.a96rv9w21 }

Loucura (Análise da,)

Loucura (Análise da,)
Cristina Ribas

Alguém imagina-se sem laterais. Sem classificações. Sem trilhos. Tudo o que tem a cuidar é o seu próprio corpo. Alimentado com café e muito açúcar. Alimentado com o que sobra de afeto dos outros que passam. Ou, cuidado bem de dentro de casa, ou bem cuidado numa casa-coletiva que lhe produz junto, como engrenagem macia. Vida que borda, vida que compartilha, vida que aprende a cuidar do outro. Vida que se separa de si mesma, que imagina outras realidades, mais materiais e mais imagéticas que essa convencionada aqui entre nossos corpos. Vida que não se separa da vida dos outros.

Uma das loucuras do Brasil é essa soltura de modos de gente que se acumulam nas calçadas ou que se escondem e se misturam nas instituições manicomiais e nas casas compartilhadas. Que cantam por aí. Que fazem teatro. E que dão discursos nos bancos corruptos.

A loucura não é só do Brasil, claro. Mas alguma razão há por que tem tanta loucura aqui. E há algo que faz essa loucura visível, muito visível. Ou são meus olhos que vêem demais a soltura da loucura.

Há modulações da loucura, assim como há modulações do cuidado da loucura.

A análise da loucura, por sua vez, não deve ser uma que a abafa. Ou moraliza. Não deve ser uma que medicaliza, uma que faz a loucura desaparecer. Nesse sentido, deve ser uma análise de cuidado ativo, produtivo, que não multiplica a loucura per se, mas que encontra com elas caminhos de efetuação da vida. A análise da loucura deve tornar-se análise do desejo.

A análise do desejo produz uma trama fluída, que compõe com a liberdade da loucura. Mas com o fim da  liberdade detecta-se a expressão de microfascismos. Ali a loucura ‘vira’, é outra loucura. Que nos chama aos nossos limites. Olha pra isso. Olha que loucura! Já não mais cremos no que vemos.

O que é que se concentrou no corpo daquele homem-policial? Que energia ou fraqueza foi transferida a seu gatilho que disparou e que matou o camelô na calçada da Lapa? (São Paulo) O homem é logo submetido a análises patologizantes – sua esquizofrenia, suas neuroses, suas psicoses, seus medos, suas nóias, seus crimes anteriores. Arrisco dizer: sua loucura primeira e última: ser policial. O mesmo se faz com aqueles que protestam, claro. Mas esses são classificados como loucos ou perigosos para que imediatamente seu potencial político seja apagado. Arriscam dizer: sua loucura: o desejo de protesto. A personificação dos casos não pode, contudo, interromper a compreensão de como os eventos são sintomáticos de modos sociais, de organizações e instituições que nos formalizam. Ou às quais resistimos.

É nesse ponto que a análise da loucura não pode descansar. Ela vai perceber as sutilezas, as especializações, as acoplações com o poder. A loucura higienista, que se torna controle da vida alheia. Que faz gente desaparecer, gente morrer de fome, gente vadiar sem casa, gente revirar-se em resistência. A análise da loucura vai tentar ler aquilo que autoriza a expressão das linhas mais e menos visíveis de microfascismos que, por sua vez, revelam sua relação intrínseca com uma superestrutura. O fascismo na sua dimensão macropolítica.

Loucura já conhecida, disfarçada de política. Loucura que não é o governo do navio dos malucos, daqueles soltos e libertos, daqueles exilados, e daqueles autonomizados, que criam e que diferem. Mas daqueles que marcham juntos diante de um altar, que desejam um porvir que não chegará em vida, que vendem suas almas.

Entre a loucura do fervor religioso, do fascismo e da homofobia não há muita diferença. Elas se associam ao discurso do poder e de uma moral normalizante que autoriza o massacre à luz do dia de casais gays, de povos indígenas, de velhos e de pobres negros, de mulheres fortes e de prostitutas, e dos loucos libertos por eles mesmos, que anunciam sair de um tipo de mundo, de um mundo estritamente normal e economicamente produtivo.

Eu olho para esse modo da loucura que produz uma moral maior sem ética. São loucuras higienizantes que operam nos tribunais, nos conluios econômicos, nos esquadrões policiais. Sua fraqueza é um desejo de poder. A loucura colada ao microfascismo e ao poder de estado produz uma realidade comum que se opõe a abrir qualquer negociação social. Bolsonaro. Cunha. E talvez seja errado analisar desejo de poder chamando-o de loucura. Talvez seja uma tentativa de captar e isolar ao modo da patologia aquilo que já não mais podemos aceitar.

A análise da loucura não é, então, detectar uma loucura boa e uma loucura má. Nem isolar a loucura como sintoma de uma pessoa só. A loucura, assim como o desejo, são produções sociais. Analisar a loucura é ir por outros lados: ir para além da domesticação da loucura e ao mesmo tempo estar atento a intervir na loucura da moral sem ética que se facializa com o poder, que se expressa como controle, que é esquadrinhada e cientificizada em planos de ordem e produtividade social.

Da análise da loucura, da loucura solta, que não tem medo de destruir a si, pode emergir por meio de um escrutínio incontrolável, da abertura de um diagrama complexo, o poder que centraliza o fascista, e ele, transparente, isolado, neurótico e fóbico, com medo da multidão promíscua.