mundos inacabados (1)

a língua é uma coisa impressionante. li há pouco, e imediatamente absorvi o vocábulo ‘bostejar’ (ie naquela tragicômica crônica da mentalidade crasse média da barra – ‘há grupos mídias sociais etc para bostejarem’). a liberdade dentro de uma coisa entendida como língua é quase territorializante, não fosse a luta de classes sempre presente pra desbancar a mentalidade da classe média e abrir franca desterritorialização. ‪#‎mundosinacabados‬ ‪#‎lavaroupasuja‬ ‪#‎privilegiobranco‬

{ver https://medium.com/@dinhorio/dinho-o-preconceituoso-67ff85904f9a#.a96rv9w21 }

Loucura (Análise da,)

Loucura (Análise da,)
Cristina Ribas

Alguém imagina-se sem laterais. Sem classificações. Sem trilhos. Tudo o que tem a cuidar é o seu próprio corpo. Alimentado com café e muito açúcar. Alimentado com o que sobra de afeto dos outros que passam. Ou, cuidado bem de dentro de casa, ou bem cuidado numa casa-coletiva que lhe produz junto, como engrenagem macia. Vida que borda, vida que compartilha, vida que aprende a cuidar do outro. Vida que se separa de si mesma, que imagina outras realidades, mais materiais e mais imagéticas que essa convencionada aqui entre nossos corpos. Vida que não se separa da vida dos outros.

Uma das loucuras do Brasil é essa soltura de modos de gente que se acumulam nas calçadas ou que se escondem e se misturam nas instituições manicomiais e nas casas compartilhadas. Que cantam por aí. Que fazem teatro. E que dão discursos nos bancos corruptos.

A loucura não é só do Brasil, claro. Mas alguma razão há por que tem tanta loucura aqui. E há algo que faz essa loucura visível, muito visível. Ou são meus olhos que vêem demais a soltura da loucura.

Há modulações da loucura, assim como há modulações do cuidado da loucura.

A análise da loucura, por sua vez, não deve ser uma que a abafa. Ou moraliza. Não deve ser uma que medicaliza, uma que faz a loucura desaparecer. Nesse sentido, deve ser uma análise de cuidado ativo, produtivo, que não multiplica a loucura per se, mas que encontra com elas caminhos de efetuação da vida. A análise da loucura deve tornar-se análise do desejo.

A análise do desejo produz uma trama fluída, que compõe com a liberdade da loucura. Mas com o fim da  liberdade detecta-se a expressão de microfascismos. Ali a loucura ‘vira’, é outra loucura. Que nos chama aos nossos limites. Olha pra isso. Olha que loucura! Já não mais cremos no que vemos.

O que é que se concentrou no corpo daquele homem-policial? Que energia ou fraqueza foi transferida a seu gatilho que disparou e que matou o camelô na calçada da Lapa? (São Paulo) O homem é logo submetido a análises patologizantes – sua esquizofrenia, suas neuroses, suas psicoses, seus medos, suas nóias, seus crimes anteriores. Arrisco dizer: sua loucura primeira e última: ser policial. O mesmo se faz com aqueles que protestam, claro. Mas esses são classificados como loucos ou perigosos para que imediatamente seu potencial político seja apagado. Arriscam dizer: sua loucura: o desejo de protesto. A personificação dos casos não pode, contudo, interromper a compreensão de como os eventos são sintomáticos de modos sociais, de organizações e instituições que nos formalizam. Ou às quais resistimos.

É nesse ponto que a análise da loucura não pode descansar. Ela vai perceber as sutilezas, as especializações, as acoplações com o poder. A loucura higienista, que se torna controle da vida alheia. Que faz gente desaparecer, gente morrer de fome, gente vadiar sem casa, gente revirar-se em resistência. A análise da loucura vai tentar ler aquilo que autoriza a expressão das linhas mais e menos visíveis de microfascismos que, por sua vez, revelam sua relação intrínseca com uma superestrutura. O fascismo na sua dimensão macropolítica.

Loucura já conhecida, disfarçada de política. Loucura que não é o governo do navio dos malucos, daqueles soltos e libertos, daqueles exilados, e daqueles autonomizados, que criam e que diferem. Mas daqueles que marcham juntos diante de um altar, que desejam um porvir que não chegará em vida, que vendem suas almas.

Entre a loucura do fervor religioso, do fascismo e da homofobia não há muita diferença. Elas se associam ao discurso do poder e de uma moral normalizante que autoriza o massacre à luz do dia de casais gays, de povos indígenas, de velhos e de pobres negros, de mulheres fortes e de prostitutas, e dos loucos libertos por eles mesmos, que anunciam sair de um tipo de mundo, de um mundo estritamente normal e economicamente produtivo.

Eu olho para esse modo da loucura que produz uma moral maior sem ética. São loucuras higienizantes que operam nos tribunais, nos conluios econômicos, nos esquadrões policiais. Sua fraqueza é um desejo de poder. A loucura colada ao microfascismo e ao poder de estado produz uma realidade comum que se opõe a abrir qualquer negociação social. Bolsonaro. Cunha. E talvez seja errado analisar desejo de poder chamando-o de loucura. Talvez seja uma tentativa de captar e isolar ao modo da patologia aquilo que já não mais podemos aceitar.

A análise da loucura não é, então, detectar uma loucura boa e uma loucura má. Nem isolar a loucura como sintoma de uma pessoa só. A loucura, assim como o desejo, são produções sociais. Analisar a loucura é ir por outros lados: ir para além da domesticação da loucura e ao mesmo tempo estar atento a intervir na loucura da moral sem ética que se facializa com o poder, que se expressa como controle, que é esquadrinhada e cientificizada em planos de ordem e produtividade social.

Da análise da loucura, da loucura solta, que não tem medo de destruir a si, pode emergir por meio de um escrutínio incontrolável, da abertura de um diagrama complexo, o poder que centraliza o fascista, e ele, transparente, isolado, neurótico e fóbico, com medo da multidão promíscua.

Processual Creativity /// synopsis

\\Research Processes, Knowledge Production and Processual Creativity:
//Schizoanalytic Cartographies in Brazil

Cristina Thorstenberg Ribas

Synopsis*

In this thesis I analyse Félix Guattari’s notion of schizoanalytic cartography in its theoretical and pragmatic development in Brazil. Cartographic practices have been developed extensively in Brazil since the 1980’s, stemming from the theories and practice of Guattari and from French and Italian institutional analysis. Schizoanalytic cartographies are broadly developed as a tool to work through collective processes, as a device to analyse the collective agency of desire. Cartographies both map and create: they are realised by those who want to produce their own lives, while resisting oppression, and modes of capitalist subjectivation subsuming desire, affect and creativity itself. This thesis therefore traces schizoanalytic cartographies that devise new research processes and new propositions of organisation, subjectivation and institutionalization in Brazil. It explores key Guattarian terms ‘transversality’ and ‘micropolitics’, to analyse the practices of research processes in academia, such as Contemporary Subjectivity Research Group, and theatre groups working in transversal with mental health care, such as Ueinzz Theatre Company. I focus on how these processes work across institutions, theatre practices, the clinic and the social field. The thesis traces their work on “processual subjectivation” and “processual creativity”, proposing the “processual” as the core form of assemblage between subjects, modes of expression and institutions. This thesis argues against reductive notions of politically engaged art that pose oppositions between aesthetics and political practice, and against institutionally circumscribed definitions of practice-based research. Instead, the thesis proposes new frameworks and different genealogies of practice that transversalise and radicalise aesthetic production, connecting it in new ways to political grounds, outside of the agenda of larger cultural institutions, art worlds and markets. Through the examples of practices analysed, it argues that schizoanalytic cartographies bring “processual creativity” and the “production of subjectivity” into relation, and allow us to reassemble the fields of politics, aesthetics and knowledge production.
 

* Thesis to be submitted by September 2016 @Art Department, Goldsmiths College, University of London, UK. Bolsista Capes – Doutorado Pleno, 2012.

Para ler em português clique [aqui]

variação semiótica

09/04/2016

#vaitervariaçãosemiótica sei não. dos complexos de subjetivação, daqueles bem cabeludos, daqueles que se multiplicam na gente, sem dúvida reside um de base católica branca (no meu caso), só pode ser, esse do moralismo e da impotência que se expressa em imediata impotência política, esse de que nada do que fazemos mudará o imediatamente ali, e de que só na unificação de enunciados nos encontramos em um movimento comum, que, ao ser devidamente representado, se tornará a ordem do dia, lá no planalto central. sei não. cada vez mais brigo com os complexos de transcendência, com os tons conspiratórios, com a repetição de enunciados impotentes. a variação semiótica é uma urgência, mas ela é complexa, ela requer mais troca, requer respeito, requer escuta, requer as ‘linhas quentes’. requer produção, não reprodução. requer ética, zé mané. agora como? bora fazê.

Talking about social reproduction from a feminist perspective

An essay from a displaced mother attempting to dialogue with those who don’t have children, and more…

Cristina Ribas*

This text aims for opening conversations with those who are not parents and those who are not involved in the direct care of young children. But of course, aims at talking to who are as well. As a mother of a 4 year old girl, I find it extremely difficult sometimes to address the issue of care of children to people who are not parents, willing or not to have children. Maybe its because of the way I talk? Probably because I have to withdraw talking from the place of a mother, so there is something about maternity itself to unravel? This text departs from the conflictual or productive space in which reproductive care and social reproduction meet and opens a few questions from what I take as a feminist perspective, following certain struggles and practices around the politicisation of reproductive care. I see that the conflictual or productive space between reproductive care and social reproduction is not always visible, as reproductive care tends to be dealt as an isolated fact, alienated from society. Privatised perhaps? Politicising the care of children and making it visible is very much the issue of the feminist movements that arise in Italy, North America and elsewhere in the 70s, in which the demand for wages for house work appears, exposing the site of profiting of capital itself – the precarised or non payed reproductive care made mostly by women. This is discussed in a problematic way in the referential text Wages against housework, by Silvia Federici (1). If labour in the Fordist era was heteronormative, it needed to guarantee that the home would be an extension of the productive system, and women (apart from them being workers themselves!) would be not just involved in the labour of care of their husbands, but also of reproduction and care of the little ones – the ‘future workers’.

Times have changed, drastically. The post-fordist era spreads out precarisation and the welfare state  falls apart, drastically or little by little, cut by cut. This is the European context, at least in most of the cities. In Brazil, where I come from and where I had my child, things are much different. In Brazil one can say that precarity is the underlying condition, and the appearance of a welfare state is still rising on the horizon, at least the recent possibility of a minimum welfare as an urgent measure to those under misery. (2) The rapid engulfing into a neoliberal society in the 80s and 90s, which happens together with the re setting of a democratic state after dictatorship, led to a general privatisation in several sectors, from public goods, communication, education, electricity, housing, whatever …  Under a neoliberal system the precarisation of public services induces the growth private health companies and the private schools. This increases differences of class, of course, that are endorsed in historical structures of the Brazilian society such as race, ethnicity, gender, sexuality, ruling the futures, the access to education, the future job one might get, the participation in politics, leisure or participation in cultural production etc. The Brazilian context around maternity and reproductive care varies as much as there are cultural and economic differences in the country, for sure, and it is impossible to bring them all to analysis. I write this text from a condition of militancy, which means investigating and creating possibilities, from my low middle class perception, looking at other levels, planes and strategies, without desiring to produce any ideal, but to open up problematics that multiply the voices addressing reproductive care and social reproduction from a feminist perspective.

Social reproduction from the perspective of finance capitalism reproduces life under deep social inequality in regimes of scarcity, precarisation, austerity, environmental destruction, alienation and consumption (!!!). To respond to that, and to increase the energies of those invested in micropolitical practices around care, this text is is very much moved by a call made by Silvia Federici when she says in the article Precarious Labour – A feminist viewpoint  that “we need to build a movement that puts on its agenda its own reproduction” (3). It would be necessary to work on definitions of both “we” and “movement”, which I do throughout the text. Federici calls for bringing to subject several dynamics that don’t destroy a notion of community, of struggle itself, not to place apart maternity and reproductive care, and reproductive care and social reproduction. This means taking the issue of social reproduction as a site of struggle (4). This calls for a scrutiny of several definitions that include reproductive labour, economy of care, care work, reproduction of itself as a movement, and several others.

In order to continue, my text calls the reader for a temporary imagination of a dynamic placing of such definitions, concepts, sites of struggle. Instructions are simple: imagine yourself in a space inhabited by concepts, definitions, sites of struggle that are being mentioned here. Now from your own body, and by placing yourself in this dynamic terrain, move towards what you have more intimacy with, towards what is closer to you, to your experiences, memories and sites of struggle. Then also move to what is more unknown, to what is more artificial to you and or difficult, to what is strange. Move towards what you desire and what is not created yet. You can write down or make a small diagram of how you move and what you desire… Lets see through the following text if our diagrams meet.

One of the first motivations in writing this text came from the desire of investigating what is common in maternity, thinking maternity as something common, ordinary, that is more or less politicised, visibilised, repressed, tried out, etc, and thinking from maternity and paternity as sites of commoning. This would be my first attempt to “transversalise” maternity and paternity, but later I saw I was wrong. As I said in the introduction, it is from an investigation of this “mother-in-me” that I allow myself to become “less-a-mother” in the way of opening new connections, new transversals, that could respond to that conflictual space I live in the everyday life: – how do reproductive care and social reproduction meet? A political response could start from a feminist perspective. What I mean by this becoming “less-a-mother” is an attempt of opening to an understanding that is not enough to become biologically a mother in order to politicise care and reproduction. But at the same time in this path of politicising care, the moving forward (towards struggle)  should happen without abandoning a certain “biology of maternity” for it possibly holds the very transformative, mutational aspects that we feel in the body when we are pregnant, and that might be coextensive to the addressing of a feminist perspective in itself. A certain hyper sensibility, a certain strength, a certain assertive intuition.

When attempting at opening a space to hold a conversation I cannot talk if not from a very personal and intimate experience, which could demand a space for narratives far too long, for there are major and minor differences between the Brazilian and the European contexts. The incapacity of exhausting theses differences can challenge the public situation of this text, which means, to whom and how it will talk. And this narrative is not at all one of an experience of success, but an experience full of intuition, fear, shifts, crying, error, and much laugh. As a white mother, that brought up a child in a heterosexual relationship, kilometers away from a my nuclear family, I wonder what do I have to say for non-brazilians or non-southerns about that problematic or productive space in which reproductive care and social reproduction meet. But this goes much beyond a determination of geography, class, race, relationship. Making visible maternity and reproductive care is a struggle in itself. No, not to essencialise maternity.  Making it visible, outside the isolation of the private spaces that capitalism insists we have to create for our children (family as the first one), holds a series of problems that need to be looked at. It depends on the sustaining of spaces for narratives, essays, experiments, emotions, and the actual collectivisation of care – which is not the care of our children solely, but of our own care – nothing new.

I have the impression it is from the singularity of lives around me that I first saw maternity possible (and not as I dealt with for many years – maternity as something to be avoided, irreconcilable with the life of a ‘productive’ and militant woman). So to situate this more, my contribution departs from the experience of working as an artist, often as a teacher in the university, and in self organised projects, from academic work, from being trained as a yoga teacher, from militancy and from a good dose of testing of structures, and also, of course, many times falling on the trap of the norm.

I consider that my mothering experience didn’t happen solely with having one child, but also with not being able to assume more children for several reasons and deciding making abortions. When I got pregnant for the third time, I gave birth to Hannah, her father living in the UK, where we moved to when she was one year old. The city of Rio de Janeiro, where I lived pregnancy and the first year of Hannah, had an amazing emerging context of queer and transgender performance, making me realise my pregnancy as a queering experience amid others, even if it was not seen like this by many – apart from me. And no, I didn’t transform the delivery of Hannah into any sort of artistic performance, even if I felt that it potentially was one of the most embodied experiences in my life so far. My daughter growing inside me was changing not just my body, but my rhythms and the perception of the immediate and larger world around me-becoming-us. In the context of arts production and queer performance there was not much space for women with big bellies and or small babies crying. At the same time, there was a growing community of midwives, doulas, doctors and mothers (and some fathers) that was setting the conditions for the spread of birth encouraging women to re empower themselves on the labour of birth itself – home or hospitalised ones – moving against the scary majority of c-section that dominates the private sector (95% of delivery). This would mean letting ourselves feeling doped with oxytocin. (5) “Humanised delivery” is the expression that transversalises low, middle and high class birth, producing different spaces between public hospitals, private clinics, health institutions, and prices, of course. Other expression used is “natural birth”. Both are approximate translations of “parto natural” or “parto humanizado”. In Rio de Janeiro, where I lived, as well as in other cities, the number of meetings of mothers around home or humanised labor was growing fast. Conversations were around concerns with the immediate care of our babies, free flow and long term breastfeeding, against vaccination, tying up our children to us in all sorts of slings (to set arms and domestic labour free) etc. At the time we didn’t envisage collectives of care of children, that emerged later on (6), and very slowly discussions about feminist perspectives, different family configurations, care work, unemployment, self managed entrepreneurship and precarisation would appear, breaking up the initial leading currency which could be seen very much as an attempt to reach a quite essentialist perspective on the feminine and maternity. (7)

Adopting silence, breaking silence

Arriving in the UK with my daughter and partner I felt deterritorialised, displaced, and lived through other adjectives that qualify an excess of estrangeness, for sure. Things that took me to a even more domestic life, divided between domestic and work life. The necessity of working immediately in my PhD and the arrival in a new place in which many things were to be adapted kind of took us to the incapacity of drawing situations in which me and my partner could share the care of our daughter outside the traditional scheme. I feel now this drove us to the normal: expensive nursery fees and the crash into another logics, the logics of “adaptation” through separation and crying. “She will get over it.” (I don’t think I did.) I felt I was silenced for what I was maybe fighting against. The normalisation of the separation of our children from us, this swallowing into a productive mode that “should be just as before having a child” took me as a lullaby. I did enjoy gaining time for myself, grasping whatever identity from the subjective displacement that having a baby is in itself means. We started slowly, twice a week, but later on one day more, trying to balance home care with nursery care. The nursery was extremely caring, but this sort of separation and alienated time from my daughter was not separated from re/entering into another alienated mode – the university as a space that segregates! Me in my studio, researching researching. Our closer friends in the UK where just about giving birth to their children, so Hannah was more or less the first child from her generation that was already there, moving around in gatherings as a little device attempting to make friends change their discursive positions to literally a more “grounded one”, ie. on the level of the ground. Later on Mae, Nina, Francis, Joana, Pip, Teo were born.

Thinking from the silences I allowed myself to inhabit, two events became very important to make me shift position from “the-mother-in-me”, displacing maternity to a space that could host other subjects (or processes of subjectivation). The first fact is that the friends Z. and B. who tried to have babies with insemination didn’t had success. Amid the things that “don’t happen” we could not address that difficult moment with them, a pain that somehow we felt was also transmitted by them avoiding seeing us, cause we “successfully” had Hannah. The second event that helped me get out of a supremacy about maternity was an abortion I did after having my child. Conception happen by chance in a over fertile period, and I did (un)consciously desired another child (my mind used to repeat to me, looking at the house “the house that has one child, is ready to have another one”). It was not the first abortion I did (I had two ten more then years ago), but since I am a mother, this time I would realise it from a different perception (and sense of loss). Talking to a Brazilian friend who lives in London for longer then me, E., I was indulging legal, free and safe abortion in the UK – which is the absolute opposite situation in Brazil, where abortion is prohibited and those who can afford a safe abortion can survive the statistics of death of women in worse conditions. My friend E. quickly replied that the “right to abortion” came with birth control (specially of migrants), which is no more then truth. From this moment on I could see myself as an ordinary woman fitting into biopolitics and social control, less victimized and oversensitive to the denial of a second child.

Looking back, from this complex emotional assemblages and the practicalities of everyday life, I could not manage to feed so far more organic collectivisations of mothering and collective care. I feel that the care I have been sharing with friends with children is much more based in a dynamics of the everyday life, of when we are available to each other squeezed from the working times and distances we face in big cities. There is care in this moments, and there is care when we are apart. Relies there a question about translation of context(s), of culture(s), of how long does it take to identify situations one is intimately connected to and how they actually depend on networks of affection, on possibilities and chance, on engaging moments – to say, on the rhythms that networks rely on. Guattari brings closer the definition of affection to that of duration from Bergson:

“affect does not arise from categories that are extensional, susceptible of being numbered, but from intensive and intentional categories, corresponding to an existential auto-positioning. (…) Affect is the process of existential appropriation by the continuous creation of heterogoneous durations of being.” (8)

The biology of maternity against the supermother generation

In this section I want to think through a complex and delicate issue… the becoming mother. I understand that the ways by which we build maternity in our lives is different. The trajectories we have, and how the event of a child is differential in the course of a life, for each one is different. So when I talk about it, the becoming a mother is very much reflected in my own experience. Becoming a mother can’t be seen as automatically submitting to a form of living, to a normotic way of being. Maternity is not a class, is not an immediate collectivisation, is not an identity. Sometimes is not a choice. The ‘biology of maternity’ is the way I found of provisionally calling the changes that happen in the perception of ones identity and body, which includes a large amount of discoveries, a huge change in the body’s perception, form, consistency and activity, and a certain openness to scatology. The micropolitics of maternity opens the possibility of seeing from very close very intimate aspects of the trajectory in each ones lives in the event of pregnancy, doubling, coupling, reproduction. The biology of maternity is not only the common condition of creating a child in a womb, which connects to that known sentence “a mother’s womb is the only starting point of all routes in the world”. This is a true biological condition, but still might play in an essentialist level or add to that supremacy of maternity connected to new waves of a supermother generation we see appearing today – because it isolates the mother as a generative being. The former sentence can’t be seen if not from an extreme pagan understanding of maternity, and one that considers the complexity of the life of a woman in relationship to other lives, to other bodies, realities and a reproductive society (or a society in constant reproduction!).

I remember the very good conversations we used to have in the home labour group in Rio de Janeiro which could vary around the perception of the baby moving inside your belly and the loss of control of your body, of your perceptions; the overflow of sexuality that nobody in your family would ever mention; stopping seeing certain bones in your body for everything is taken by flesh, blood, fat, or when you stop seeing your pubic hair; the role of sex in delivery; the ejection of breast milk and the smell of breast milk all over the house; and the loss of memory and incapacity of thinking certain subjects could have any importance! Some trivial, some intensive. The biological condition of maternity is a challenge for women, for maternity can be a terrifying state for many women may feel literally out of control for nine months. No doubt. Perceiving oneself as the very site of reproduction bounces between whatever magic, the power of making life and the existence of death. All stages that we pass by. But not non important. “The baby is a rebel organ inside you”, said B. But how to rebel against the stamps constantly imprinted into our mutating subjectivities, such as the forces that say we should hide away the breasts, the desire for breastfeeding, our sexuality, that we should not mention children we aborted, that we should work out our bellies to erase the marks of pregnancy, … ? Those more invested in the messy energy that a biology of maternity brings could find in a sort of scatology a good escape valve to live with singularity these conflicts. But this could not be a model to all.

I linger in talking about maternity for it will open to the collectives of care. The isolation of mothers is one of the determinant factors of depression and immobility. Arguing against an idealisation of maternity in a heterosexual normative society (and economy) should mean not only giving visibility to maternity (and paternity, and…). This produces very ideal spaces, and on the contrary, giving space to our children, with their very own expressions and mess, is very necessary. The subject of maternity is, in itself, a subject of reproductive care, of networks of care, of social reproduction in a feminist perspective. This means denying the capitalistic refrain that a new generation of super mothers is possible, for this super mothers rely on the work of other precarised women who take care of their children and do the house cleaning work – and mostly – women of colour who are alienated from their own children. By making play the child as a privatised being, the super mother effect might feed into an economy of maternity and childhood based in overconsumption (ps. which includes the larger economic system of ready food and waste disposal!). To work against this refrain means to break the commodities, hierarchies and norms that appear at all times in the care of children. This might seem to be possible by adopting a feminist perspective that is able to include sensitive analysis of life processes on the border of a general biopolitics of life, resisting the controls on life from the immediacy of its appearance (pre or after birth). To work against this refrain means working against that centrality of maternity, and therefore this means the opening of a community of those involved in the labor of care – friends, fathers, grandmas, grandpas, neighbors, carers, among others. Bringing focus to the act of care of babies and children itself and its powerful intempestive temporalities and how that conflicts with other temporalities seems a powerful place not just to take care of mothers but specially to actually re think social reproduction. From my experience, simple conversations were (and still are) the very site by which I could investigate and either displace or replace myself, encountering space to discuss that friction between the commonality of something but also the absolute ordinarity of it – of reproductive care. The presence of men, for example, in networks of conversation held mainly by women, is super important to de essentialise reproductive care from women, in the same way gay couples and poli amor defy the norm of heterosexual couples. The raising of co-children in non couple couplings, which defies the oedipal configuration, is also powerful to break the determinacy of the familial surrounding as the first immediate structure of care. All structures add, for sure. But the family becomes a profiting site, a basic productive unit, enclosed in itself.

How to open spaces for care amid the many situations of uncertainty, vulnerability, precarity gathering strength to confront the majority of the discourses that are spread out, that also block out maternity, reproductive care and care work from feminist perspectives? Maybe a response could start from the nurturing of this sort of biology of maternity as an attention to life itself, to an dynamic of affects, of what Guattari calls an ‘energetic semiotics’, inseparable from that conflictual border with the biopolitics of control (based not in the maintenance of life, but submitted to the interests of neoliberalism, heterosexism and westernalisation of the world, quoting Judith Butler). The subject of care is a subject for social reproduction as a site of struggle, in which children, women and mother (in its mutational identities and becomings), partners, fathers, carers aim for creating situations in which we can address our very personal perspectives and problems in their transversal with our continuing lives, work and militancy.

Tiqqun narrates the ‘human strike’ thought from the Italian feminist movement, in the 70s, which can be thought as an action coming out of forms of organisation that unprivileged the placement of the mum in the struggle in order to transversalise it:

“ ‘No more mothers, wives or daughters. Let’s destroy the family!’ Was an invitation to make the gesture of breaking the predictable chains of events, of liberating compressed possibilities. It targeted shitty affective exchanges, everyday prostitution. It was a call to get beyond the couple, the elementary unit of the management of alienation. (…) The women’s strike implicitly called for a strike by men and children, called to empty the factories, schools, offices and prisons, to reinvent for each situation under another way of being-another how.” (10)

“We are children, not commodity”

Years later I recover a sentence from the feminist movement in Latin America fighting hetero  capitalism who say “We are women, not commodity”. It is possible to say the same about our children, and we are willing them to say it: “We are children, not commodity”. This transduction is an attempt of resisting the affirmation that children will be the future workers, unavoidable truth – perhaps. The replication of institutions of care for children and the types of institution is not separated from the discussion around reproductive care and social reproduction, for sure.  If on the one hand I address my most intimate desires to the very small scale of networks of care, on the other hand, these circuits cannot be separated from the creation of spaces for children for their own invention of worlds, of relationships, of other networks of care.

Hence, yes this also refers to an institutionalised society, in which institutions for children, such as schools, as known, will make children adopt manners that will increase their working capacity in the future – an issue to address in another text – or conversation. To say, institutions that will work certain ways of reproducing society.  (10) In an institutionalised society and in a society in which profiles of consumption should fit certain products, there is an apparent opposition of sites appropriate to children and those which are not, as well as institutions  and or working sites where the appearance of a child is a disturbing factor, such as in offices building, university library, art symposiums, train wagons, and even certain political meetings (!!!). After having Hannah I understood that social spaces are not always ready to receive children, and on the same way I understood “the life of the adults” which became a very boring and normalising reality, for very clearly after having a child, working and meeting spaces became “adult spaces”. I could only see the absence of children from certain spaces as another normalisation of society: the fact, for example, that the ‘best productive feature’ is only reachable when we are separated from our children. This doesn’t mean I want to bond with my child in a 24/7 scale – this refers to a more delicate issue, to what again Silvia Federici raises with a powerful inversion:

“It was important for feminists to see, for example, that much housework and child rearing is work of policing our children, so that they will conform to a particular work discipline. We thus began to see that by refusing broad areas of work, we not only could liberate ourselves but could also liberate our children. We saw that our struggle was not at the expense of the people we cared for, though we may skip preparing some meals or cleaning the floor. Actually our refusal opened the way for their refusal and the process of their liberation.” (11)

The inversion I identify is the including of the children in the shifting of our perception which can be shared when opening up conversations, situations, creating networks, discussing politics. This should work towards feeding up the process of liberation of those involved in the actions of reproductive care, and being critical to class struggle, working against reproduction of privilege. The including of our children is possible when bringing into practice a feminist perspective that can foresee what sort of structures of care are necessary, working towards the emergency of a sensibility able to engage the new rhythms that the care of children brings. I have the strong  perception  that the arrival of my child brought up an interruption of the ways I used to work and a much more complex interception in the notion of time (already fragmented by precarious work and an over technological life) (12). In the precarious life of a self-employed, for example, an idea of productive time actually drives us into an never ending productivity. How is this time interrupted by the care of children? How to balance contradictions, possibilities, facilities? Fighting for the signification of time in reproductive care is a site of struggle as well. But no, not the assumption of the ever increasing precarisation while we ‘decide’ to spend more time with our children. This is still a site of struggle. Going back to the issue of how a certain ‘biology’ encompasses the composition of care (which is, again, not an essencialistic one) now I see how the ‘atomised time’ of bringing up a child can merge with a feminist perspective, for it encompasses a biology that acts by molecules, by an attention to productive affects, by the encountering of different couplings, symbiosis, choices. The ‘intempestive’ or atomised time breaks apart the capture of time, never linear but controlled. Intempestive time assembles and disassembles the complexities of a ever composing and de composing world. It is part of the ‘processes of liberation’ the allowance for the perception of the atomised times of reproductive care. They connect, with and within the networks of care with “heterogeneous durations of beings” (Guattari) (13).

A letter sent me, from A., a father living in the south of Spain:

“Loss of interest in love, in drinking, in adventures, in big plans, in the future. Wanting to be away, withdrawn, in the world of letters and thoughts, allow thinking without interlocutors to spring or come to realization that without exterior nothing can be found there. Content with slowness, with small routines, with little P’s laughs, cries, ideas and demands. Not more not less. Not interested much at the moment in life as it was lived, truly lived, or projections of live as it could be truly lived. Now is a concrete truth. Concrete life. And no comparisons or measures necessary. Intensity of non-intensity can be as much, or even more, intense than what we normally understand as intensity’s exceptionality.”

What has happened? With the everyday? How is the struggle here expressed? And the active connection with the times of an intempestive care, intempestive and intense, everyday care? The feminist perspective will fight for the care of life, that holds onto a perspective of life itself (Amaya Perez Orozco) (14). There relies the politicisation of the care of our children that extends itself to the everyday of care, relies on other modes of attention, participation and co creation of the lives that we build together with our children – and those are very much aesthetic processes that build up with our subjectivities. However, the politicisation of the lives of our children and our own cannot be one that jumps into the defence of an ideal way of living in terms of privileges and of over protected lives, those that survive by the “inevitable production of death for the others” (Silvia Federici), as does destructive capitalism. The reproduction of those who have conditions to reproduce is definitely a subject of scrutiny, for “better conditions” to reproduce demand reproducing modes of live, values, currency – the medicalisation and the privatisation of social reproduction, for example (Amaya Perez Orozco).

Speaking from a transversal feminist perspective that departs from maternity and non maternity, paternity, co-children, from direct care of children (professionalised or not), care work, or from the desire of taking care of children we should build comfortable spaces enough to make us estrange ourselves, by analysing the ways by which we reproduce. Maternity, reproductive care and care work as a site of militancy should be then a site in which we can bring together tensions that exist between individuation and collectivisation, subjectivation and politics, as in other social spaces and militant groups, from where we can address subjective transformations. In this sense, there could be an encounter of a differentiation potential that is inherent to life itself (maybe what I call the ‘biology of maternity’) and the differentiation potential that relies on reproductive care. Maybe maternity, paternity, co-children and reproductive care can work as said by Yvonne Rainer about a play that it “might lead you to homosexuality, trans, lesbian love, etc”. This changes for sure social reproduction from its minor scales, from the micropolitical work of our molecules to the modes by which we organise ourselves. Michel Odent, a men who is very important for the setting of the context of empowering women in Brazil in home labour and non hospitalisation – whose knowledge is spread mainly through Heloisa Lessa, who was my midwife – said that “to change the world is necessary to change the way we are born”. This means for sure a change in the structures and infrastructures of reproduction, and many of them are available already, to nurture very biologised and affective, not forgetting the scatological maternities, and feed into new configurations of reproductive care.

In the course of trying to feed a social ecology that has a feminist perspective in social reproduction I met a men who raises a child in a non-couple configuration. Nevertheless, I can say now I felt in love with a man for his way of reproducing himself, for the way he takes care of his son, for the way he lives his life. For the time I was lingering with the question of maternity as a sort of “commonality” – a perception that plays in the unconscious essentialisms and grinds itself with the infinite ways of mothering -, now I define an energetic semiotics of a biology of maternity, and from this, something speaks out from passion and love and ways of building care. Desire becomes a shared ethics after the shutting down into a silent displacement. In the course of a geographical and time-wise scale, from the initial states of being biologically a mother, to find again the body of a woman, to the new investigations I militantly merge myself with, I keep on asking: what do we create commonly beyond the intimacy and privacy of reproductive care? Does that respond to that desire of bringing together reproductive care and social reproduction from a feminist perspective?

*This text was written upon a presentation made in the seminar Feminist Duration in Art and Curating (Art Research and Curating Depts.), Goldsmiths College, London in 2015.

Notes

(1) Wages against Housework. Text by Silvia Federici. Published by The Power of Women Collective, 1975. A transcript of the original leaflet and a pdf can be found here https://caringlabor.wordpress.com/2010/09/15/silvia-federici-wages-against-housework/

(2) The program “Bolsa Família”, created in Lula’s government for example provides a basic income for the provision of basic needs such as food. Researchers have been analysing how the basic income provision is allowing women to be independent from her partners, and its been increasing she number of divorces, releasing women from relationships of oppression they were submitted. http://apublica.org/2013/08/severinas-novas-mulheres-sertao/

(3) Federici, Silvia. Precarious Labor: A Feminist Viewpoint. Precarious Variant 39. http://www.variant.org.uk/37_38texts/9PrecLab.html

(4) Hansen, Bue and Zechner, Manuela. Social reproduction and collective care. A horizon for struggles and practices. http://theoccupiedtimes.org/?p=14000#sthash.kTexz06c.dpuf

(5) Oxytocin: the hormone of love, of labor, of breastfeeding. https://en.wikipedia.org/wiki/Oxytocin

(6) A group of parents that had children same time as me in one district of the city of Rio de Janeiro organised shared care of their children.

(7) The networks and groups of midwifes, doulas and mothers, fathers and more around home labour or humanised labour has many names and adopts many profiles in social networks. Equipe Parto Ecológico brings together some practitioners in Rio de Janeiro.[ http://equipepartoecologico.blogspot.co.uk/ ] One of the one day events created in the last few years is the “Santa Mãe” (which makes reference to the district of Santa Teresa), in which workshops happen and mother also commercialise their products or trade several possibilities. [ https://saaantamae.wordpress.com/ ]

(8) Guattari, Felix. Refrains and Existential Affects. In: Schizoanalytical Cartographies. Bloomsbury Academic: New York/London, 2013. p. 203-214.

(9) How is it to be done? Tiqqun. London: Bandit Press, 2010. (p. 32)

(10) When living in Barcelona our child went to a self organised school that is part of the “free schools” network. Definitely an experience of transversality, in which we could learn that other possibilities of care work, parenting and relationship to the educational and learning processes of our children can happen. For more information: http://educaciolliure.org/

(11) Federici. Op. cit.

(12) I have discussed this issue in a text published in Portuguese here Infraestrutura: Maternidade / Paternidade / Economia do Cuidado / Trabalho. In: Vocabulário político para processos estéticos, Ribas, Cristina (et all), Rio de Janeiro, Editora Aplicação, 2014. [http://vocabpol.cristinaribas.org/infraestrutura/]

(13) Guattari. Op. Cit. p. 204

(14) Orozco, Amaia Perez. Subversión feminista de la economia: aportes para un debate sobre el conflicto capital-vida. Madrid: Traficantes de Sueños, 2014.

tai-pei noodle bar

tai-pei noddle bar em elephant & castle. foi um daqueles lugares em 2009 que eu senti que tava no meio do mundo. gente de todos os cantos, comida barata e budas dourados. a primeira vez que eu fui já sai com aquela nostagia de nunca mais ia voltar. afinal, no começo cada canto da cidade era um blur, e não sabia que ia voltar para cada canto conhecido, muito menos para londres, pra viver, tudo mais. voltei umas três vezes em 2009. e depois em 2011. e sempre sobrava um pouco do noodles vegetariano e eu pagava 50p mais pela embalagem e levava para casa pra comer no outro dia. agora não sobra nada! nos multiplicamos e comemos juntas o número 32. #sobretercrianças e dividir o prato de comida (ie a vida) com elas!

‘ler é uma loucura’

eu nunca sorri tanta para um livro. tenho certeza que sorri não só pelo caminho todo que ele fez para chegar. pelas mãos da querida amiga Monica atravessando todo o oceano. pela pint que circulava no meu corpo. mas tambem porque ele veio acompanhado de erva, cuia, bomba, sling, outros livros sobre cartografias e presentes para a Hannah da tia Anamalia. porque o livro faz parte do mundo das coisas e das formas, ainda que tenha seu modo peculiar de operar. sorri não só porque abri o pacote no ônibus rumo ao sul, depois da conversa deliciosa com as amigas. tanta conversa inacabada! tanto desejo de seguir conversando. não só porque ele é de 1988, e a fonte e impressa fazendo um sulco no papel. não só porque ele veio de um sebo de Manaus, para uma caixa postal em Florianópolis. nunca sorri tanto para diagramas em português que eu ainda estou tentando decifrar, que me afetam, e que vão revelando encontros com esse personagem real e fictício – Félix Guattari – que é uma espécie de guia na minha tese. mas também uma espécie de caça, que eu vou perseguindo na floresta do caos. sorri muito não só porque encontrar um livro que se deseja é como uma encruzilhada, uma bifurcação, ou o fim de uma trilha numa viagem. é como sair de um certo exilio, de um certo isolamento, abrindo um espaço desejado. nunca sorri tanto para um livro, e gargalhei quando abri a capa e ali dentro encontrei o pequeno lema da livraria e sebo O Alienista de Manaus. “ler é uma loucura.”

10 06 2015

Infraestrutura: maternidade, paternidade, economia do cuidado, trabalho

Infraestrutura: maternidade / paternidade / economia do cuidado / trabalho

Cristina Ribas | ((com parêntesis de Barbara Lito))

 

“Estamos dispostos a fazer algo pelas futuras gerações? Então resolvamos nossa dor infantil e coloquemos nosso corpo a disposição dos que são crianças hoje.”
Laura Gutman

 

A maternidade desacelera o mundo. Ensina ele que só há uma economia: a economia do cuidado.

Acordo num dia sem saber, que horas são? A contagem é do estômago pequeno daquele serzinho iluminado que ao lado me diz, tenho fome, ou é que foi perturbada por um sonho de monstro, de coruja noturna como já me disse uma vez. A hora é também equação: contagem das horas de sono, se é hora de acordar mesmo, ou se é hora de ficar, fazer estender o sono, aumentar a preguiça cair em sonho novamente. Acordar, posso tentar só eu, posso, preciso trabalhar (aquele tanto de coisas acumulado, a demanda constante), e arrisco 20 minutos nessa manhã silenciosa, quase segredo, só minha. 20 minutos às vezes me dão tempo para entrar, de novo, na trama do irresolvível (do que foi deixado na noite anterior, arquivos abertos, anotações esparsas). Ela acorda logo depois de mim, vem caminhando pessoa pequena, choraminga, mama no peito. Estamos juntas, colo e chamego. A contagem da hora enquanto olho para ela segue projetiva, planejando o dia por vir. Dia de quê? Dia de trabalho, dia de creche, dia de entrar na linha do tempo de fora, de um tempo grande e irresponsável com a nossa temporalidade pequena. I n t e r r o m p e r . Arriscar cortar e acelerar esse tempo da pessoa pequena, que não sabe das razões, e as quais lhe explico. É hora disso, de creche e de trabalho, de meias e de roupas, qual é o clima lá fora, de fazer caber o que se precisa na mochila, de conferir as coisas todas na bolsa, se há bilhete da creche, é fraldas que pedem. Preparar o café, alimentar, conversas, rimos juntas, nem sempre dá tempo. Não estamos sós, o pai está junto, dividimos tarefas, criamos um sistema. Temos, afinal, nossa estratégia (temos?). As manhãs são organizadas num tempo conciso, e tempo de despedida: deixo-a no portãozinho de sua sala catterpillar, abandonada saio eu para meu playground da vida adulta, vida essa a ser reinventada.

Eu sou daquelas que se permitiu estranhar ao máximo na gravidez, deslocar e ouvir as sensações de um corpo hormonoturbinado, hipersexualizado, e ao mesmo tempo que sensível e frágil, forte e mutante… E me permiti continuar, da maneira como a própria biologia do corpo continua, um estado de mutabilidade que se estende após parir, percebendo incorporar-se em todo espaço  atmosférico da casa a mudança molecular da chegada de uma nova pessoa. Como é que o mundo a recebe? Eu e seu pai acendemos a atenção extrema na sua dimensão pequena, na sua delicadeza e imprevisibilidade, uma atenção que é sobretudo i n t u i ç ã o. Com isso adentramos também a comunidade-de-todas-as-cores de pais e mães que se constitui ao nosso redor, e da qual passamos a ser como membros natos, aprendizes e consultores de amigos que vão entrando naquela mesma sensibilidade do mundo, eles também tiveram bebê. Na dimensão pequena e misteriosa, silenciosa e sem linguagem (são grunidos) daquele corpo e realidade pequenos, de potência molecular, o que vai ficando estranho, mesmo, são as relações de um “mundo adulto”. Contrastam as tarefas, as responsabilidades (?), os compromissos, os conteúdos.  Saltam aos olhos os sistemas de valoracão, comunicação e significação que criamos. Com a chegada de uma filha, de um filho, o mundo que reproduzimos nos percalços da vida como naturalidade primeira (ainda que cada um na sua cartografia particular), é subitamente freado, cortado, interrompido.

((… Essa semana que entra o Davi faz 38 semanas. Já tem o mesmo TEMPO do lado de fora que passou do lado de dentro. A questão do tempo é muito doida, porque eu não sinto que desacelerou… Eu me sinto teletransportada mesmo pra uma outra temporalidade, específica dessa nossa díade. Claro que a Hannah já ta maiorzinha, e a gente acaba tendo que fazer um rehab pra voltar pro tempo da vida da onde a gente foi radicalmente arrancada quando nasce a cria. Mas tenho a impressão de que nunca vou conseguir voltar com o CORPO todo…))

Algumas questões, dúvidas e enfrentamentos aparecem. Algumas que assumimos, e outras que não assumimos (para si ou para os outros ao nosso redor). A direção de  nossos movimentos no mundo anda tão concentrada nos fazeres do trabalho que viver com a filha e cuidá-la contrasta imediatamente com o que quer que tenhamos hoje por trabalho, visto que, num crescente, o trabalho se mistura ao tempo da vida. Trabalho imaterial, trabalho precário. Quando digo “trabalho” digo uma mistura de trabalho com militância, um tipo de produtividade que toma conta dos nossos dias, noites, afetos, emoções, e que gera renda, mas que muitas vezes também não gera renda. Quando falamos em trabalho hoje em dia necessariamente falamos em precariedade, visto que o emprego formal está em franca derrocada, e muitas vezes os contratos temporários, na verdade, se fazem valer da não regulação trabalhista, sem a garantia de muitos direitos, ou seja, na precariedade. Então aqui devemos levar em conta – para equacionar com os pensamentos sobre  c  u  i  d  a  d  o  que seguem no texto – sob quais condições trabalhamos, se somos auto empregados, se temos emprego, se somos bem remunerados, se esperamos um aumento, se tememos a demissão, se criamos uma instituição!

Quero embarcar aqui brevemente em duas questões ligadas a trabalho x cuidado. A primeira questão a perda da autonomia do tempo, ou de um tipo de tempo (tempo produtivo?), e a politização do trabalho doméstico; a segunda a perda da certeza, de algumas convicções em relação ao que se faz (relacionadas mais ou menos à noção de trabalho, militância, etc). No final faço um ensejo de como podemos pensar no cuidado dos adultos eles mesmos, aqueles que tiveram filhos, e como pensar na participação dessa assuntação nos nossos vocabulários cotidianos, e na reprodução de nós mesmos, de nós mesmos mais ou menos como movimento.

A perda do tempo, ou a ideia de… 

Embarcando na primeira questão: a dúvida se coloca assim: se tomar conta da filha toma meu tempo, como não opor a filha ao trabalho (aquilo que eu faço para ganhar dinheiro) visto que preciso seguir trabalhando? Essa oposição é simples demais, contudo, sobretudo porque ela separa em duas dinâmicas o trabalho e a vida com a filha. A inversão dessa oposição é exatamente a raiz da mudança… Visto que o tempo do cuidado da filha pode ser intensivamente lento, prazeiroso e imprevisível, posso pensar então que o tempo, no cuidado, é mais de ordem subjetiva. ( ( É porque o tempo é lento que essa entrada-vocábulo s a i demasiado devagar? ) ) E o tempo da produtividade do trabalho seria aquele que eu posso controlar? Mais objetivo? Será? Ou doutra maneira, da produção do tempo. Ou seja, o tempo atomizado da criança sempre vai contrastar e empurrar a ideia de produtividade requerida pelo tempo do capital, tempo esse que por sua vez, ao requerer uma implicação da vida num tempo produtivo, ele mesmo atomizado, por sua vez,  com a precariedade das condições de trabalho e pelas novas condições do trabalho imaterial que se torna toda uma questão de tempos descontínuos em cooperações virtuais. Cruzamentos… Ramificações… Desvios… Impossibilidades?

((… Nem sei se eu vou ter TEMPO de te responder como eu gostaria. Acabei de conseguir colocar o tourinho pra dormir (depois de 1h e 30), que agora resiste resiste, quer ganhar o mundo. Uma das primeiras impressões que tive foi que o Davi era um marcador temporal implacável, trazendo ele pra esse tempo cotidiano capitalista. Mas ele relativiza esse tempo o tempo todo, porque simultaneamente me leva pra eras e eras ancestrais (primitivas, genealógicas, genéticas…) e de salto eu já estou no futuro. Nesse primeiro ano, me pego vendo fotos antigas dos meus avós, tios, pais, minhas e de meus primos, e vejo o quanto de vida a nossa linhagem já caminhou, até chega no Davi, que carrega com ele coisas deles (e dos bisos, tataravós, etc) que eu desconheço. E pisco, ele já está com 8 meses, engatinhando, ontem mesmo tava com cólica, chorando… E começo a sentir nostalgia dele como tá agora. Agora sinto saudade dele como tá agora, porque não é possível frear esse tempo com ele, que às vezes passa arrastado, mas é implacavelmente veloz, que é próprio do espaço de maternar. Centrífugo e centrípeto. Tempo de átimo e não de cronos))

… E o trabalho doméstico

Essa questão do tempo traz consigo outra: a possibilidade de que uma remuneração – o fragmentário e temporalizado salário-maternidade, o salário social ou renda mínima, ou a bolsa família por exemplo – seja o reconhecimento da função social do cuidar, o que se chama mundialmente de “trabalho doméstico.”A remuneração é um aspecto político da economia do cuidado, imprescindível numa realidade contemporânea em que o cuidado ainda não tem o espaço devido junto aos fluxos econômicos da sociedade.

Essa remuneração não dá conta, contudo, e talvez nunca vai dar, de aquietar a questão da percepção e da produção do tempo no cuidado. Me refiro aqui não tanto ao cuidado como profissão, o trabalho feito pelos cuidadores, mas à percepção do cuidado como ocupação primeira dos pais e mães, nas relações familais. Será que receber algum tipo de remuneração (uma licença maternidade, por exemplo) acomoda de alguma maneira, por um tempo, o conflito que uma mãe e um pai podem passar, ao liberar seu tempo (de trabalho) para a rotina de intuição e cuidado?

Observando o aspecto subjetivo do tempo do cuidado, cada mãe e cada pai tem que encontrar a maneira suave como a passagem de um a outro se dá (do cuidado ao trabalho), a transição de cuidadores primários de seus filhos para (voltarem a ser) trabalhadores num mercado (ainda que precário) de trabalho. Há diferenças nessas temporalidades, e elas dependem também da situação econômica de cada configuração familiar.

(( … (pausa pra dar de mamar) Toda vez que eu tô acoplada no Davi, ou ele em mim, especialmente quando fico com o corpo ali e a cabeça nas trocentas outras coisas do tempo cronológico ordinário, eu escuto a voz que ele ainda não tem me dizendo: “vem mamãe, se entrega aqui comigo, olha como é gostoso e quentinho aqui, fica aqui, aqui e agora.” … Voltei a pensar no corpo. Nessa temporalidade outra da existência infante que em três meses cronológicos tem um corpo que dobra de tamanho (nunca mais nosso corpo passa por isso, olha só a Alice aí). Não é à toa que esse momento é muito aflitivo para as recém paridas, ainda com vestígios da temporalidade ordinária nesse corpo materno ainda deformado. Esse: “vem pro átimo que eu quero mamar, mamar e crescer, mamar sem pensar no amanhã, no ontem, ai que delícia”. … E esse discurso patriarcal, que separa a temporalidade trazida pela criança do corpo da mãe e do mundo ordinário, de onde ele vem? porque? pra que serve? … (Ai, tenho que fazer a mochila do Davi pra sair, tomar banho, separar a comida, etc) … ))

Então há a licença maternidade, e quando há, o trabalho doméstico remunerado regulamentados diferentemente em cada país (ou ausentes, no caso do segundo, no Brasil), e há tambem o trabalho “de rua”, o trabalho como instrumento/ferramenta de sociabilidade e participação em redes, relações, contratos, vínculos…

Mundialmente o cuidado é atividade relegada às mulheres, na grande maioria dos casos. Seja o cuidado dentro de relações parentais ou o cuidado como trabalho (cuidadores, enfermeiros, professoras, cuidadoras de crianças…). (Lá em casa é um pouco diferente…, ou seja viemos construindo uma relação em que o cuidar é tarefa amorosa de ambos, pai e mãe, mas isso é outro parêntese.)

O cuidado, a criação dos filhos, foi politizada enquanto trabalho por lutas feministas que apontaram: se o capitalismo se beneficia desse cuidado, dessa procriação e consequente criação, visto que eles serão também “força-trabalho”, o cuidado das filhas e dos filhos é também trabalho, porém não remunerado! Das lutas feministas por uma valoração social do cuidado surgem as demandas por uma remuneração direta, estatal e por benefícios por se ter filhos, e ponto. Aqui gostaria de separar o benefício da licença maternidade (depende no Brasil de contribuições já feitas à previdência social) por um (projeto de) salário social (não deveria depender de contribuições já feitas, *) ou ainda do benefício por filho. Na Inglaterra por exemplo o benefício por filho se chama “child care credit”, e pode ser recebido até 18 anos de idade. O benefício se destina à provisão de bens que a criança demande na sua pequena existência, até sua puberdade e adolescência, comida, fraldas, roupas, remédios, lazeres, …

No Brasil o Bolsa Família foi criado com o objetivo de beneficiar famílias abaixo do nível de pobreza e em nível de pobreza, cuja renda familiar não ultrapasse os R$ 154,00 por pessoa, provendo recursos mínimos para garantir a alimentação dessas famílias. (**) A contrapartida é que todas as crianças da família em idade escolar devam estar matriculadas e frequentando escola, recebam vacinação, tenham acompanhamento médico até 7 anos de idade, não trabalhem, e no caso de grávidas que façam acompanhamento pré-natal.

Ainda que uma perspectiva feminista não seja muito conferida nos benefícios do Bolsa Família, acredito que o programa deva ser compreendido também na perspectiva da luta das mulheres (e dos cuidadores), visto que é um benefício que incrementa a renda da família para cuidar dos seus filhos.  Segundo pesquisas recentes, o programa tem caráter emancipatório para muitas delas, que se sentem encorajadas a se libertarem da trama familiar, quando poderiam estar presas em relações que já não querem (muitas mulheres se divorciam, por exemplo), e são estimuladas a cuidarem mais de si. Ou seja, nos casos em que o homem representa a fonte de renda financeira primária, o incremento do Bolsa Família encoraja as mulheres a tomarem o rumo de suas vidas, quando antes poderiam depender da confusa relação amorosa misturada à dependência econômica. (***) Em outras situações, em que o homem já não está mais em casa complementando renda (porque muitos se separam e vivem sozinhos, sem a responsabilidade de cuidar das filhos e dos filhos) as mulheres também são beneficiadas pelo recurso, mas o valor do benefício não remunera, de nenhuma maneira, o tempo do cuidado dedicado por elas no crescimento dos filhos, visto que é um valor extremamente baixo, e não configura uma renda mínima.

A maternidade nos seus começos, é assistida, para aquelas que tem emprego formal, por uma curta licença maternidade de quatro meses.  (O pai tem licença de uma semana!) Esse seria o tempo para cuidar de nossos filhos, sem trabalhar, e preparar-se para a dolorosa transição de terceirizar o cuidado! Os quatro meses, por sua vez, não fecham com os seis meses de amamentação exclusiva recomendados pelo Ministério da Saúde. O que não faz muito sentido… Mas muitas mulheres conseguem negociar isso com seus empregadores, e ficam mais tempo em casa. Mas muitas, muitas mudam de planos… E colocam em questão o modelo anterior de trabalho que tinham.

((… Fiquei pensando também na questão do corpo nesse jogo, que é o espaço onde ele é jogado. Logo que a gente começou a passar os perrengues de cólica (acho que bem antes até, quando tava contraindo, antes de parir, e tive que ficar de repouso) eu me liguei que a dor trazia o corpo pra esse agora infinito. Lembrei da Laura Gutman nesse livro “Amor o dominación, los estragos del patriarcado”.  … Não sei bem se o trabalho não está englobado numa estratégia maior de dominação dos corpos, que evita mesmo o contato intimo entre pais e filhos (e velhos moribundos, e doentes, e loucos). Evita a presença deles no espaço cotidiano. Segrega. Fico pensando naquelas imagens antigas, algumas até recentes, das mães trabalhando com seus filhos pendurados, de boa, lavando, colhendo, plantando, aboiando… Acho que o corpo desvitalizado e congelado, moldado para um trabalho cada vez mais estático (no corpo, não na cabeça) é incompatível com a potência de vida de uma criança. Taí as milhões de vistas da galinha pintadinha comemorando não sei quantas crianças quietinhas. (****) O trabalho estático no corpo, mas não na mente, também é incompatível com essa temporalidade átmica da criança, sem passado nem futuro. pra gente é muito dfícil morar nesse eterno agora. … ))

Ora, sabemos que a falta de benefício para o cuidado ou a precária remuneração é reflexo de uma série de modos culturais arraigados e naturalizados, que se baseiam na divisão dos tipos de trabalho que homens e mulheres fazem (e o salários diferentes que recebem), na crença da naturalidade do cuidado como coisa feminina. Esse ponto é um dos mais importantes para as lutas pela legalização do aborto, visto que socialmente o cuidado é entendido como uma continuidade inquestionável do ato de gestar e parir. Quantas de nós já abortaram ou evitaram ter filhos pelo temor de não conseguir conciliar o cuidado com o trabalho? Pelo medo de não conseguir ou por não conseguir mesmo ter condições financeiras de cuidar de uma criança? Por temer reproduzir a sociedade machista enquanto tal em que o cuidado está relegado determinantemente às mulheres, e que portanto deixa a mulher em condições de trabalho menos favoráveis? Aliás: quantos abortos mal sucedidos são necessários para mudar as condições sociais do abortar? Para legalizar o aborto?

Silvia Federici, feminista italiana conta como as feministas dos anos 70 apreenderam que compreender o “trabalho reprodutivo” no regime da exploração (o capitalismo acumula também em cima disso) permitiu o reconhecimento de uma luta comum das mulheres:

“Uma vez vimos que ao invés de reproduzir vida nós estávamos expandindo a acumulação capitalista e começamos a definir trabalho reprodutivo como trabalho para o capital, nós também abrimos a possibilidade de um processo de recomposição entre as mulheres.”  (*****)

O cuidado reconhecido como um trabalho, como uma ocupação que serve à sua maneira à complexidade de um sistema de produção/reprodução, acaba se tornando o t e r r e n o   d e   l u t a , usando as palavras de Federici, e esse terreno de luta se estende às vidas daqueles que cuidamos. Ela pergunta: como lutar sem entrar em conflito com aqueles que amamos? (Falarei disso mais adiante.)

A perda do sentido. Havia um antes?

A outra coisa que pega que é: faz sentido? Fazer as coisas da maneira como se fazia?

Desde o começo eu resisti em não colocar a filha de um lado (a vida com ela, o cuidado), e o trabalho. Isso quer dizer que quando eu pensava em trabalho eu pensava em algum tipo de movimento, de fazer, que, menos do que pudesse incluí-la, pudesse se fazer  c o m  ela. Ou seja, em que ela estivesse presente, conferindo sentido àquilo. Mas não sabia bem o que nem como… Organizar uma residência-projeto para artistas-etc com filhos? Talvez…

É claro que quando se começa a questionar isso, se está questionando o que é que entendemos por trabalho e com o que é que nos comprometemos em um mundo capitalista-produtivista em que cada vez mais o produzir toma espaço. Então arrisco uma definição que expressa, na verdade, a raiz precária da minha experiência de trabalho: qualquer atividade que traga remuneração, não necessariamente que se tenha como profissão, que construa um comprometimento com algo que é ligado ao que se compreende como trabalho em si, mas que se conecta numa linhagem de ações e regularidades, que mantém aceso um certo vínculo, seja com as instituições com as quais nos associamos, as parcerias, a participação na atualidadede de um debate, os discursos e posições que adotamos. Pois bem, na mudança de sentido das coisas, é essa ideia de r e g u l a r i d a d e que se quebra quando um filho ou filha nasce (ou mais de um!). Essa é definitivamente uma quebra no sentido de um fazer que poderia estar muitas vezes automatizado, tecnicizado, dessubjetivado. Vou deixar umas perguntas soltas, sobre o sentido do trabalho: para quem e para o quê eu trabalhava? fazia? me mexia antes?;  ou com que velocidade, com que dedicação, com que efetividade, com quanto de mim?…

A noção de continuidade é quebrada pois a temporalidade do filho é caoticamente outra, e isso reflete os sentidos que ela ou ele forçosamente vem sacudir. Cada um ou uma de nós percebe isso distintamente, claro. Para quem se conhece de um jeito, a quebra vem destituir uma série de convicções. Acredito que essa quebra acontece porque o que aparece é  i n t u i ç ã o  como a chave do cuidado. A intuição como um tipo de escuta, um cuidar com, que requer tempo para entender modos e ritmos… Um imensamente-cuidado, essa aproximação-atenção e fusão quase-orgânica e por vezes quase-estrangeira que descobrimos quase-inata em nós, que tiramos da caixola, da cartola, que vestimos quando seguramos a filha no colo, quando sentimos seu cheiro que ativa nossos hormônios mamários. Para outros essa quebra não acontece tão claramente, e a filha ou filho entra mais rapidamente na composição de um mundo mais perto eu diria de um “como era, como eu fazia”. Ou é que aquela zona de atravessamento gravídico eu diria, de intensidades hormonais, dura menos e é enquadrada também na temporalidade da produção. (Ai!) Cada uma de nós vive uma configuração diferente, ora similar, de retorno ao ritmo de trabalho depois de parir.

A filha o filho ao desprogramarem o sentido das coisas, pedindo intuição e cuidado, demandam também o descobrir, o inventar, o brincar, … virar ao avesso, sujar, desfazer, rimar, mimar, molhar, montar, desmontar, destruir… E olhar bem bem de perto. Estressar ou intensificar o tempo do cuidado me parece que é parte da resistência ao nivelamento de nossas ações num tempo único e produtivista, é parte da pluralização dos tempos, e da recomposição, ou de uma inclusão, como diz Federici, na luta por uma libertação das amarras do mundo pré-concebido da produtividade do capital do qual as filhas e os filhos não precisam automaticamente fazer parte… Um arco grande, mas vamos lá.

((…E sim, acho que isso tudo tem muito a ver com o cuidado. E acho que trazer tudo isso de volta pro corpo, prum corpo hiperafetado e atravessado pela temporalidade infante é sim revolucionário. A micro-revolução que eu escolhi me engajar. No Mignolo(******) que eu te mandei, a simples existência infante já é por si só uma desobediência epistêmica radical.))

…  uma desobediência epistêmica radical

Individualidade e reprodução do movimento 

Voltando ao relato da minha experiência, nos primeiros tempos em que a coisa foi pegando, em que já não podia procrastinar o fato de que estava na hora de trabalhar (de recuperar algo dessas linhas de continuidade, de vínculo, que nunca se perderam, mas que definitivamente se enfraqueceram, era hora de fazer dinheiro) eu produzia uma espécie de estresse incontrolável. O estresse vinha de tentar evitar a sensação de negar, por não poder estar com a filha por ter que trabalhar, como se eu tivesse negando ela mesma… O estresse e o sofrimento que surgiu teve que assumir uma individualidade necessária. Afinal, na interrupção de um modo de ser em vias de recomposição nessa transmutação para uma mãe-que-trabalha ficamos pescando sapo, comendo mosca, movendo-se sem saber por onde. Aqui apareceu para mim algo importante: a recomposição da invidualidade faz parte da maternidade/paternidade, visto que não é um abandono da filha, e é o cuidado em si de si, que tampouco é diretamente um “voltar ao que se era” (como eu resisto a essa imagem!).

Exemplo disso: em Londres a artista Andrea Francke transformou, como parte de seu trabalho final de Mestrado, a galeria da faculdade de artes em uma creche. Um espaço aberto portanto aos pais e às crianças. Queria eu que essa creche seguisse disponível, como espaço de pesquisa e de produção, em que potencialmente pudéssemos compartilhar nossas questões maternais? (E materiais!) Preocupação: ainda que radical a proposta, eu não poderia, por exemplo ancorar naquela vivência a produção do que me cabe agora, minha responsabilidade, minha auto-exploração, minha “contribuição ao conhecimento”, meu doutorado. Eles dependem de um certo isolamento, e dessa ressignificação-recomposição em curso.

H a n n a h. Eu só escrevo porque ela está longe de mim, na creche, outro lado da rua (ou ali dormindo, sono bom de criança a crescer). Se escrevo junto com ela escrevo outro texto. Fazemos desenhos e desenhos, bolinhas, pontinhos, perseguimos linhas, e around e around. Se faço carinha, ela já completa com pernas e braços, e boca, se não tiver. E cabelos, como dizcabêêêlo!

Quando escrevo, escrevo junto com ela aqui, como parte da minha realidade, claro. Quero escrever junto com ela, com ela em mim, mas temo que escrevo para o mundo adulto, esse mundo estranho, esse mundo cuja seriedade me faz rir. A filha vem de um hiperíntimo, um hiperjunto, e ajuda a estranhar o mundo, com o qual copulo depois; mundo com o qual me identifico, e que também desejo. Voltando àquela recomposição, percebo que o cuidado, portanto, não é só com a filha, mas com a mãe e o pai nessa nova passagem de mundo, com o mundo que se recompõe. Da mãe se fala bastante da depressão pós-parto, esse mistério que não está nas calçadas, que é calcado aos espaços íntimos, e ao indizível, visto que se torna indecifrável se não assumimos a dimensão mágica e espiritual da maternidade. Mas e depois, como cuidamos uns dos outros, pais, mães, crianças? Seguimos… A economia do cuidado na luz do dia se torna um diagrama a puxar linhas e linhas de subjetivação, friccionando superfícies de singularidade, abrindo companheirismos num comum (aquela comunidade imprevisível de pais e mães, e avós, e tios, e cuidadores, claro).

A gravidez, assim como a maternidade e a paternidade são, afinal, coisas ordinárias. O comum, por sua vez, não pode ser o comum só-dos-que-tem-filho. Como informar, como passar, como recompor o mundo dos-que-tem-filho com o mundo dos-que-não-tem? Será que é dessa maneira que o problema se coloca? Ou é mais como fala Federici, uma capacidade de colocar em linhas de libertação e composição social um modo de reprodução social (todo movimento precisa encontrar a maneira de se reproduzir, diz ela). Politizar a maternidade e a paternidade, nesse sentido, é um trabalho vocabular, depende de muita conversa, depende de muita troca. Depende de abrir frentes com o mundos alheios vizinhos, as outras forma de copular e de familiar, de lesbicar, de prostituir e de multiplicar. Depende de fazer cuidar, de fazer pensar no cuidar. Mas como? Num estado de mundo em que tudo se acelera, não sei se é possível não se posicionar e dizer, olha, a temporalidade aqui é outra. E não só tempo linear (como dito antes, para que não sejamos escravos da produtividade), mas a função ou a significação. A filha muda molecularmente o mundo porque ela está junto também nessa nova forma de ver o mundo, ela é processo estético, estetizante, ela desacelera a produtividade de um por fazer, e repolizita outras urgências. Quando se diz que é tempo de cuidado, é tempo de para endereçar (e soltar) uma produção do mundo. Um chamado a recompor a estética de um mundo (político, sobretudo), do que faz parte fazer/trazer esse texto para cá: vocabular, brincar, vocavulvar, vocavular.

Vou buscá-la no final da tarde na creche. Meu corpo atravessado pelas leituras, pelos mundos que me desvelam e me desconstroem, fica meio desconcertado. Acho que vivemos como pais uma constante reintegração e desintegração da identidade… Na porosidade dos movimentos adultos que me constituem, o movimento de ir buscá-la acopla e desacopla pedaços sem nunca dar tempo de lavar tim tim por tim tim cada anotação feita. O dia faz-se fragmentado. O corpo também. E de alguma maneira essa emoção de tê-la silencia tantos outros atravessamentos! Já não me importo. Descortina-se de novo o mundo adulto… Encontro seu corpo pequeno e aparentemente frágil, ora mais feliz e suado, ora mais saudoso e manhoso. Ela me leva para o buraco do coelho (coisa que encontramos no gramado ao lado do jardim da creche). Enfia o pé no buraco. Eu evito não dizer o que me vem logo à boca: “cuidado com a cabeça do coelho!”, ela, afinal, não teme pisar nele ou numa minhoca. Ali mora a touperia, ela diz. Ela quer ver a toupeira! I wanna see the mole! E sorri.

Vou buscá-la no movimento integratório puzzle like que não consegue complementar uma coisa e outra, mas que vai me encontrando de novo com ela no caminho – eu me encontrando comigo e com ela – , diante de outras crianças, cuidores, pais. A filha puxa um fio terra-coração, e devires, e devires… Quantas das minhas inseguranças, das minhas dúvidas incompletas silenciam não porque perdem o sentido por completo, mas porque ganham outra configuração no cuidado que ela me traz, como parte da suavidade mesma de sua pequena existência?

(*) Situação do projeto do Renda Mínima Salário Social no Brasil hoje

(**) O programa Bolsa Família existe no Brasil há dez anos. Hoje em dia cerca de 20,6 bilhões (0,5% do PIB) de reais são pagos a 14,1 milhões de famílias (o Ministério do Desenvolvimento Social estima o benefício direto de cerca de 50 milhões de pessoas).

(***) Entrevista com Walkiria Leão Rego, que publicou um livro junto a Alesandro Pinzani sobre o Bolsa Família (“Vozes do Bolsa família”, 2013)

(*****) Silvia Federici, Precarious Labor: A Feminist Viewpoint.

(******) Walter D. Mignolo. Desobediência epistêmica. A opção decolonial e o significado da identidade em política.

Referências:

Federici, Silvia. Precarious Labor: A Feminist Viewpoint (2008). Variant e The Journal of Aesthetics and Protest. http://www.variant.org.uk/37_38texts/Variant37.html#L9

Federici, Silvia. Feminism And the Politics of the Commons. (2010) The Commoner.org

Hirata, Helena; Laborie, Françoise; le Doaré, Hélène; Senotier, Danièle. (org.) Dicionário Crítico do Feminismo. (2009)

La Célula Armada de Putas Histéricas. Primer comunicado de la Célula Armada de Putas Histéricas http://vimeo.com/91641696

https://www.diagonalperiodico.net/andalucia/23274-la-brigada-informacion-como-mortadelo-y-filemon.html

Precarias a La Deriva. A la deriva por los circuitos de la precariedad femenina. (2003) Madrid: Traficantes de Sueños

SOF – Sempreviva Organização Feminista, Cuidado, Trabalho e Autonomia das Mulheres (2010). Cadernos Semprevida.

Este texto é parte do livro-projeto Vocabulário político para processos estéticos. Para ver esse texto no Livro e para acessar o site do projeto clique [aqui]

I cannot evaluate jewelry (short)

(Another day) somebody called me. (Not that old men from the street.) He called me as something found out, scared with his own thing, that he was bringing to show me, straight from his past. Wanted because he wanted. My way would be the plot of the drama. He said he read me. He found the proper words. Briefly interpreted me, and told me what was his goal. Showed me his short tongue. Offered me a coffee. Smoking several cigars. One after the other, quicker then I could say anything about his hieroglyphs. Not even without headstone, nothing old as that old, it was just a fresh recovery, of a gesture I don’t recognize. Gestures over a silver matter, as if was a scrawl in an aluminum plaque, an old plate found in the dawn in the street. In the journey between the bar and home-and-studio. I don’t judge. First, I looked for the secrets. He was looking for the relevance of what he was carrying. The memory should be done, I said, for the same one whose secret he himself didn’t knew if existed. Then, it’s when no one knows if this secret has any bottom. I cannot evaluate jewelry. I told him.

I cannot evaluate jewelry (long)

I cannot evaluate jewelry

You want to write a text about not having the body of text. Write be a text without references measure placement – to be a text that opens up other texts (?). (Or enclose it? Deny the possibility of connecting with other ones?, as if it were denying all linearity.) Reduce each substantive to a sign. You want to deny it’s nature text and call it diagram (foundational diagram, functional diagram). You want to go back to it, to the diagram, and cut out a piece. Zoom in on it. You recognize that there are processes of destruction that you collect, that you look for to transform. The not so new, and shelter the new, but you cannot in your urgent time consider everything, the whole. (Complexities…) The edge of the whole that passes by you (along side, besides), is acknowledged as contingent, it’s a whole that is open by / in cracks. The metaphor of a passage, a world in which we are ourselves the cartographers, those freedoms they give you more world. Not the world but other ones to whom you, self delivered makes another piece.

You open a little more of the diagram, that besides perceptions and intuitions take you back to the sensation of slipping into a site. That’s how you realize connected connective possible worlds. There are spaces that encloses themselves as bubbles there are tear out spaces, they became interstitial, porous, as that rupture that dematerializes and disintegrate. You feel the disintegration with the world, the pleasure in your throat and that wants to come out. Comes out as a scream armed with human minds, all of them are possible to be loved.

(…)

This text is its own pornography. This text doesn’t have legs or manner. You don’t know from where to start. If you want, it might not be art. This text, anyhow, is not yours. But right now it became yours.

(…)

You don’t chew what I gave to you. And I take all of it with my hand. I told you brief things. I told you what I thought. Where does it take me to? When I say I don’t know who’s going anymore. That’s what I say. And the heat, the entropy, or the combustion that burns in front of you, and you take with. What I give to you is not me anymore. When I say “then” I already gave to you. So, o que eu dei para você se torna minha boneca por um tempo. (Mas são as minhasguts agora. Você consegue ver isso?) That’s why I chew up to show to you. How is it to you to eat your own guts.

(…)

(Another day) somebody called me. (Not that old men from the street.) He called me as something found out, scared with his own thing, that he was bringing to show me, straight from his past. Wanted because he wanted. My way would be the plot of the drama. He said he read me. He found the proper words. Briefly interpreted me, and told me what was his goal. Showed me his short tongue. Offered me a coffee. Smoking several cigars. One after the other, quicker then I could say anything about his hieroglyphs. Not even without headstone, nothing old as that old, it was just a fresh recovery, of a gesture I don’t recognize. Gestures over a silver matter, as if was a scrawl in an aluminum plaque, an old plate found in the dawn in the street. In the journey between the bar and home-and-studio. I don’t judge. First, I looked for the secrets. He was looking for the relevance of what he was carrying. The memory should be done, I said, for the same one whose secret he himself didn’t knew if existed. Then, it’s when no one knows if this secret has any bottom. I cannot evaluate jewelry. I told him.

(…)

Today I read a text full of “criticism”. Gush everywhere and slippery words, the text affirmed some uncompleteness not to need to defy itself, it alleged a certain independence from that production from the 70’s. It tried to build up its own independence by disconnecting from any and everything. Wanted to create its importance by drifting some experimental beginning that had anything radical at all, but took resource of empty and cheap signs from a tradition one century questioned. Yes, it could exist Rothko, De Kooning, Others, but not that that was supported by means of a simulacrum. And other concepts. The mistake of Baudrillard. The soup of words washing out a discourse without North (and chance). Radicating concepts. Claimed to be theirs. Opening up a terrain of exclusivity. And exclusion. Media by media exchanged anything by any other as if it was anything else, I was watching, and it melted the plastic but it wasn’t as Alphonsus does.

(…)

I’m not talking about controlled word. Not measured word also. I wanted to avoid the gush that is disguised as madness, as looseness, as ( ), I wanted to find the text that would be made of a continued meaning net, all of it opened as loose cunt, all of it straight upright as a pole. That’s why I went through again texts written by myself – I appeal to their holes that I couldn’t remember. If I find them after they became meaningless it is not because they can be reborn again. But it’s because they never had life. (Has life what wasn’t read?)

(…)

If the history would work through forms – and that’s not what is interesting here -, what is it that the concept of history potentializes? (…) Intensities networks. Potentiality maps, as affective insurgences, contamination modes. Makes me think: a historiography that doesn’t “capture”, but one that operates, before, its own abstract machine. Abstract history. Real history.

(…)

The memory of the text (of the talk)

The memory of the usurpation

The power of conservation

The desire of the uneditable

I’m strength against those strengths

I don’t even capture my self

(…)

The object destruction

destructed

—————

perversion

————–

art field

(…)

Make space for the new. Qualify the new. Find dialogue in my own generation.

(…)

They are so dirty. They don’t want to participate. They don’t want because they are ashamed, but because they have an alive nature filled up with re-uses and they built their own fictions by means of the delirious death matter, from the other. Detachment they are the ones who have, as I saw them dragging pipes five or six blocks down road, as I saw them arriving at the corner of the square with the cachaça and the cognac. (This a bit of gold!) And in the quick cataloguing of those drummings configuring instruments and drums, tamboretes and emptiness (you need some emptiness, inside, after all, to make it resound). Me and my belly in that crossing, of converging traffic lights, illuminated without knowing by the police, closest to the ground then anything else (even closer then that flying thing that scratches like nothing else the black dust of the streets), feeling the cracks between the pieces of granite, the sound comes up before to the inside, and after, to the outside. There is dread, there is hole in the t-shirt, there is symbol, anarcho-punk, there are signs that I don’t know. Noise. Scratched. I felt. I felt on my belly the sight without spectacle, see?

(…)

That debate was a meaningless recuperation, for some, of what happened in the 80’s. We saw a film, if it wasn’t embarassing to show, after all, so many of them had stubble, showing their regularity with the curve and the texture of the stone, the spirits rhythm, the sun in the fake canvas, there was no real painting. They took the boat, to that island, they took globo (television) and it was film globo, look at that, film!! The lipstick red, and she wasn’t the only one. Everything was a bit gross, irritable, it wasn’t because they were slowly outrageous, after all, we are in other times, and in such times, look at that sluggishness, of the dialogue! Different points of view. The vision of the fragmentation is that that acknowledges the differences. E as defende? But then what? Authority of the re-signification. To the other one was a historical position. His trunks. Discourse to break this and that. Now he has the same tenor, does he? To devour. How fresh is this memory of his own immeasurability! How fresh… But also, authority to model a discourse from a production, from their own production, or make it their own, also, from the discourse. Will to gather. Happiness, infantilism. Anyhow, after all, pleasure “is (was) imperative to the work”.

(…)

I am an industry. See how I produce a series of, a volcano of manifestos. Extracts, cuts, processes. Analysis. The other, about the other. They did, they said, or they didn’t said. I would call myself a culture industry, not if they didn’t do what they did with that, with the term. Co-opted. Wrong, unfair, anti-aesthetical. Not a person, not collectivity. Productivity, productivism, performativity, reproductivism, performativism, culturalism, classe cultural, capitalism, cognitivism, cognitive capitalism, … What I always wanted, truly, was built up a force against all conservativities. I made an uncertain line between clouds, conservation – experimentation; reproduction – differentiation; authorship, identity – dispersion. Since the beginning. Rupture events. I had in mind, but it wasn’t so clear at the time. A blurry and porous strategy, possible and impossible, invisible machine, truly, an errant diagrammatic body, a fatal doubt about a participation. Perceive and scream, in a short and fragile answer, program that pushes away outside of itself whatsoever creates a terrain of exclusivity, of property, of unequivocality. Sign control? Decoding. A lot I wanted to eradicate, and as a war mission, in the middle of the battle field, I would be able to remove the war-like powers and put in trenches, only trenches, to make think from above the earth, from the intensive struggles, from the ways of defending another thing, matter: expression.

(…)

Who is this you that placed yourself in front of the whole thing? From the extensive moment to your body, organs in reception, deserted in this place without subject or object. Who?

Who is this you that acts, that requires a close sight and places yourself as a sage just as the other one that elaborated the first concatenation? Who do you become, looked after by theory, who would be an archivist in the poiesis of the Archive?

You adopted a montage tool, adopted an open problem. You abandoned yourself in front of the incomplete thing, because you don’t know about other forms. Formalised. I try not to extinguish the possible relations between the times, what can be understood also as subjects of analysis. A decade selected to elaborate the doubts about it (1970). More hypothesis about the dynamics of an art field in Brazil (nowadays). Brazil big thing. Could select another way. I propose, then, to “signal”. (Procedure that no one ever understood.) (My sister said, that I like to say “understand”.) To approximate, to signal, strange affects to an action between the expressed matter, what I “should” do and the historiography incited by the events themselves. I pointed that they are not framable in that “institutional critique” (Fraser), comprehension that would eradicate the heterogeneity of a production that enacts, in other ways, the making-political of a field.

Analyzed events. Archive of emergency. The experience of the art thing (piece). Production, “effected”, assemblage. Investigation, conditions, epistemology (of the arts).

(…)

What happens in an art class? You wait to listen to it all, what the other teachers say. Its a Forum. Radical Education Forum. They have a common background, and then maybe me too. But here… I have to find again this common other, common ground, and think about Jorge and Lenha in a class room. What do they do to people? How they became more generous, they are much more generous, then the general researcher. The severe researcher, the analytical researcher, is itself the archivist acting and manufacturing, nominating fields, but rather, within the participants and interlocutors of their own (parts, parcels, strata). Desafio. I want to listen to. We, me and you, we make ourselves artists. Então você pensa em tudo o que já pensou em desconstruir sobre ser artista para dar suporte a esse território.

territory = meaning

(…)

Being an artist means to take risks. Not knowing what you are doing. Not knowing if the knowledge is applicable to that. Knowing that it is risk, yes. That is it a line of indetermination. Takes risks. And how did I took mines, less and less, since I started to write that way. (One truth, about systems.) I should forget. That’s it. Should invent less should. Said that, I said, I seat down to write manuscripts.

Without being this or that. Without capturing myself. Without wanting to be one body. Love yourself (also).

(…)

Cristina Ribas

*published in Escritos de Artista, Michel Zózimo (ed.) 2013. Porto Alegre.

Para exceder uma cidade, um corpo

*Inserções sobre a cidade de Guga Ferraz, que repete o homem
Pedaço de corpo. Este texto é uma parte – um pedaço de pensamento-sensação sobre a produção de um artista. Surge, existe, se escreve, a partir de um corpo (o meu). É lido em outro (o seu). Um texto é uma reação e um desnudamento. Escrito para você. Este texto é uma resposta à apresentação que Guga Ferraz fez de seu trabalho em conversa realizada na Escola de Artes Visuais do Parque Lage no Rio de Janeiro. [1] Retirei alguns pontos para seguir atirando palavras. O texto refere-se à parte do corpo (de produção) do artista – bem por isto peço licença para agregar camadas de terra aos homens nus. Fazer considerações às proposições críticas do artista a questões da cidade do Rio de Janeiro – território produtivo comum, onde vivo há alguns anos -, assim como aproveito para fazer observações à exposição propriamente dita e ao fato inalienável de que o lugar onde expõe agora é uma galeria comercial. O diálogo (do artista) extrapola a capacidade da cidade-da-arte, ou faz dela o limite da sua expulsão, e o texto duplica o debate sobre as contradições intensas que perfazem a cidade. O texto, como proposição, é só um fragmento do manifesto possível. Outras palavras ficam não ditas para que um próximo corpo fale.
Troquei momentaneamente homem por corpo. Na exposição “A cidade repete o homem” na Galeria A Gentil Carioca (onde estava exposto o trabalho de Guga Ferraz, entre Maio e Junho de 2007), há um índio com parte das pernas faltando – imagem apropriada. “Veste” arco, flecha e arma. Um índio é um homem. Mas é o mesmo que a cidade repete? São nove imagens de índios colados sobre uma superfície plana e rígida. A pele do índio é desenhada com retícula. Faz um índio extirpado de seu contexto, que é mais como um super-herói em vídeo-locadora. Corpo de índio é corpo de homem.
Repetição por repetição, você perguntou antes o que define um corpo e a cidade. O corpo não é a cidade. Porém tem relação com ela. E pode ser então que um corpo exista expulsando-se do corpo do outro, tomando espaço, ocupando. Expulsando-se do corpo da cidade. O corpo (humano) é uma superfície sensível, capaz de afetar e de sentir. Capaz de repetir e de diferir. Mas nunca existe na unidade. Existe contaminado, híbrido, modificado, incompleto. Corpos e territórios se mesclam, fazendo-se pela repetição e pela diferença na proximidade de outro corpo sensível, na dimensão de um poder ou do seu assujeitamento. Agora, sobre o corpo que se faz por fora do medo, me parece que sobrevive por que na confusão dinâmica produz uma estratégia (nem sempre artística). Esconde-se no escuro. Pula o muro.
Troquei, mas não sobrepus. O que define um homem e um corpo são perturbantes em aberto. Mensuráveis na medida da enunciação e da experiência. Na exposição há outras imagens de corpos: à esquerda há um exposto, desta vez o do artista. Transposto imenso foi feito para pisar em cima, emborrachado entregue, versão do “Rendido”. Ali se chama “Para saber onde se pisa”. E há outro corpo leve na segunda sala. A imagem de um corpo-menino, rodopiando, trampolim invisível (“Mortal”). Estas são as imagens diretas de homens, ou de corpos. São também o que se compra, mas não objetivamente. Digo melhor, sendo ela uma galeria comercial, não se compra apenas a materialidade (a imagem), mas a inteligência (do artista), e o interdito entre as imagens. É necessário ver de longe, remontar. Ver do alto como num salto lento.
Vi num sonho. Era como uma vista aérea. No topo de um morro – que era um parque – corpos-de-gente morta tinham sido descobertos, desfolhados de um embalsamado antigo. No sonho eu sabia que estavam sempre ali no parque, sob a grama, conservados em camadas finas de terra. Então helicópteros chegavam e, como uma cena de Antonioni amplificada (Blow up), revelavam cadáveres conservados de homens e mulheres em camadas de terra vermelha. Minha irmã do meio chegava assustada e chorava, fui abraçá-la, mas eu tinha as mãos sujas de terra. Depois, no meu apartamento, era dali que olhava o parque. Não podia abraçá-la e na minha casa descobrira também, assim como há nos parques, uma pequena porção de terra. Desconfiei da terra nas minhas mãos, era um pesadelo.
Corpos do tempo do sonho. Foi naquele tempo a ocupação criativa das ruas pelos estudantes em 1968 em todo o mundo, e também os montoneros, os MR, a fuga, o Araguaia (corpos escondidos, homens, mulheres e crianças). No aniversário de 40 anos da revolução muitos atores acordam, uma infinidade de narrativas necessárias emerge. Pode-se rever o trauma, analisar ações e devolver a potência aos corpos. São feitos descobertos – e porque não abertos – tal como os arquivos da ditadura. Para revelar um corpo pode-se dar a ele uma imagem. Contudo, é necessário gerenciar as novas imagens, fazer delas um contexto político menos do controle e mais de um espaço de interação comum, de contra-respostas, de perturbantes.
Um diálogo nunca se sabe onde começa. (Quem atirou a primeira pedra?) Sem palavra nua, na cidade complexa um emaranhado bruto de informações atravessa. Minha irmã mais velha disse que uma criança só formula uma pergunta quando está pronta para receber a resposta. Num paralelo viável, colocar um trabalho de arte na rua é abrir-se para um diálogo, mas é preciso pensar em como receber as respostas. Ele faz uma reação à realidade da cidade, ao que aqui é visível ou invisível, tolerado ou intolerável. Guga se coloca em reação, assim ele diz. A resposta, contudo, insurge na fusão àquilo que a engendra. Muito difícil separar ação e reação. A resposta é estratégia inerente à situação de periculosidade que a gera. A reação do artista que, antes no espaço público da cidade, aqui é modificada para o espaço da galeria (adaptação contextual e formal). A vulnerabilidade da superfície nas cidades, ao revés, não é o resguardo do espaço da galeria. Sem topar o todo da questão – separação considerável – sugiro posicionar seu corpo no espaço entre as imagens. Ali ou nas ruas. Ali ou nos ônibus.
Multifacetada em camadas, a cidade e seus equipamentos só podem ser medidos também na experiência do corpo. Traficar será movimentar por fora dos instrumentos de controle, de constituição da cidade funcional, maquinal, estado, poder. A arte pode ser uma linha de fuga, se souber mover-se. Assim também o texto em outra cidade-fluxo, não superfície (primado do visível). Deverão circular livres, traficados. Enunciar é posicionar-se entre demais. Dizer o não dito. Um texto. Um texto sai de um corpo vivo que se desnuda com a escrita, e talvez por aí se entregue. A cidade não tem lugar para um corpo nu. Tão logo ele respira, outro corpo sobre ele cai.
Expor um corpo. Na exposição percebo os homens e seus corpos nus. Expondo um corpo, não o dele mas pelo texto, vemos corpo-superfície e vida feitos nus. Assim ele os fez: vulneráveis. Retícula. Pixel. Recorte. Na fotografia (assim como na escultura) um tipo de poro dilatado revela uma estrutura sempre recoberta (grão de cocaína, representação nunca vista direta, sempre escondida no plástico preto – imagem pública da morte). Imagens sem fundo, imagens sem contexto. São corpos moldáveis. Frágeis não por sua imagem direta, sem sangue nem apelo, vitimizados pelos títulos: “Coleção Bala Perdida”, “Projeto para cadeado de vidro”, “Troco de arrego”, “Procon do pó”, “Drug Bible”. Perigo eminente, a bala perdida; perigo desejado, a “purpurina” (“C17H21No4”).
Você vê ali que um homem se camufla de outro. Um corpo pode ser um encosto para um homem. Um corpo é uma ferramenta na cidade. Usado sob a força do comando que o faz agenciar elementos, valores, mercadorias. Um corpo é como um mapa para uma cidade: só uma ferramenta. Da mesma forma, ao revés indissolúvel, o espaço da cidade é para um corpo o local de sua produção. São elementos de uma equação nunca repetível. Ou sim. Se assim se afirma. A cidade repete o homem porque suporta máquinas de fazer o corpo do homem dentro da proteção e do medo.
“Polícia / milícia / traficante / outros”. A indefinição dos atores é uma produção que significa o espaço da troca. A potência de diferir de alguns é a capacidade de camuflar-se um e outro, não um ou outro. Definir atores serve antes para defender do desconhecido. Produzir o medo. Do lado de fora, em excesso, sobra o civil – moeda de troca do jogo de adivinho. Civil para tudo o que é “outros”, e que nem é mais produto da cidade – utopia da arquitetura, que se desfaz. O corpo do civil é só superfície de bala, só se toma conhecimento porque a bala não perfurou o concreto da cidade (concreto em estado morto), mas um corpo vivo. A produção do medo justifica as ações da polícia, do estado, da imprensa (espécie de roleta russa em que a função circula sem parar). Não se dá fim à guerra porque o inimigo está em qualquer parte e se faltar também será produzido: dão lhe as balas, o pacote, o tiro na cabeça, quase sempre de costas. Para acabar a guerra só qualificando o inimigo, contradição de que, ao determinar publicamente as características do inimigo, aquilo que é polícia será capaz, por fim, de prender a si mesma.
E o traficante não é de sonhos. Seu corpo não se vê, a não ser como morto (jornais). Não tem voz, ora porque não quer ser visto, ora porque não pode falar. (Guerra intransmissível.) Poderiam falar o indizível, desnudar a guerra onde se encaixam. Silenciam a bala. À bala. Na cidade-do-asfalto, por outro lado, há corpos que se pronunciam. Retórica excessiva. Indeterminação proposital e irresolução de sua finalidade última. Mostram-se como afirmação de poder porque são o poder instituído. Defendem ou driblam? Suas vítimas são os corpos que, se forçados, se entregam. Estes não tem poder. Não respondem. Só repetem.
Nossos corpos. Indefinida atribuição na nudez da vida, uma ação só é realizada pela prática acoplada ao desejo do corpo. A nudez do corpo não é retórica. A sua vulnerabilidade contempla a inexatidão do seu uso. Para além da unidade de um corpo, são agências móveis que os modulam. São movimentos rápidos que desviam.
Partilha do mesmo (mundo) ou expulsão forçada dele. O ônibus em chamas é um coletivo: ali se partilha o medo, que é real (como disse Luis Andrade) [2]. O mapa em chamas mostra os pontos de conflito na cidade (“Roma de Nero”). Mapeia sobras do espaço nomeado e conhecido. “Ônibus incendiado” transbordou o desenho sobre as placas e penetrou na outra cidade, aquela das marcas e das capas, contradição daquilo que ora se instrumentaliza, ora diverge no caminho necessário do protesto, e que faz pensar: é possível confiar na fortaleza gráfica da imagem, ou é preciso sempre contextualizá-la? Esta é a mão dupla da multiplicação da imagem da intervenção, que o artista atualiza quando o ônibus vira “Limosine”. A gráfica imprime uma informação estrita. O medo é coletivo. Ou comum. Assim também sua produção. E o assalto a mão armada é repetido tal como os equipamentos da cidade. Guga imprimiu 100 adesivos para ônibus (“em caso de assalto, não reaja”). Na repetição pelo excesso pode ter lugar uma manifestação indireta: a multiplicidade de superfícies da cidade é ocupada densamente por imagens suavemente estranhas a seus sinais.
Fazer arte na rua é despertencer da arte. Cidade-da-arte que repete um homem. Mas o que se propõe? Plottar um corpo é dominá-lo? E a cidade? Mapeando, não oferece lugares aos corpos. Mostra na verdade a indefinição destes lugares, pela nudez dos corpos. No jogo da dissimulação importa perguntar que quer quem na cidade? Pergunta que trará a seguinte: a quem é possível se aliar na cidade? A cidade só existe com os usos que se produz sobre ela. Tal como os usos do corpo.
Para se reconhecer dois corpos gritam. Quando gritam entrevêem um território comum. Demoram a se entregar pode ser ora por que tardam a decifrar seus sinais, ora porque não querem entregar-se ao contexto comum (não te vejo, miragem, temo). A não ser que gritem antecipando a imagem. Se todos têm armas, como saber quem é aquele que defende? Gritar requer um corpo exposto, posicionado. É uma reação (não é a bala perdida, projétil no escuro). Em outro contexto, resposta se torna explícita, na (anti)tática da galeria de arte trata-se de fazer arte em certa medida periculosa. Entregar-se, para quem?
Em outros trabalhos do artista, o diálogo fora com a imprensa (produtor do contexto insensível, simultaneamente fábrica da imagem do medo, pronunciante da segurança comercializável no espaço da cidade). Naquele meio, em geral, a difusão da arte encontra mutismo e descontrole do discurso sobre a arte. Mas alguns aspectos são interessantes no caso de Guga, como a camuflagem na página policial e uma repotencialização do trabalho a partir do lugar de conversa desejado (forjar um discurso policial, ocupando seu espaço). A imprensa ora confunde, ora entrega, e se torna mais um discurso na diversidade de falas palpáveis da cidade. Mas, no caso do artista, como ele deixa em aberto um espaço para receber outras intervenções? Reações?
No espaço crítico de enunciação o que se deseja é uma difusão dispersiva – contaminar corpos. Não debelar. Na conversa no Parque Lage Guga fala a partir de um vocabulário estranho. Eventualmente policial. Eventualmente traficante. Palavras estranhas ao campo das artes, a não ser agora, onde entrevemos um espaço de resposta que não o senso comum da (in)segurança. Outras palavras revelam outros corpos. Periculosidade. Do que se protegem os corpos na cidade? Ser artista é desnudar a si. Diferente do trabalho na rua, na galeria tudo tem identidade, assinatura, autoria. Institui-se. Retira o artista do anonimato e insere sua produção numa resposta formalizada e por isso mesmo perigosa. Será que o desnudamento nomeado é uma entrega ao campo da arte? A comercialização de sua esperteza? Ali a nudez do artista é também toda sua vulnerabilidade. Mas a palavra é necessária. Ou mesmo o falso mutismo da imagem.
Entre a percepção do contexto sensível e a pertinência a um contexto político, jogo tornado explícito por Paolo Virno [3], um corpo que se pronuncia se torna um corpo sem medida. Pela via da arte, não retilínea estratégia ao estado da insegurança, um corpo-de-artista pode se tornar imprevisível se suas respostas são desvios aos medos hipócritas da cidade. Incendiar a limusine denuncia o já sabido: a partilha ao território comum da periculosidade e da incapacidade de ação, ou a afirmação de que não há segregação social que não seja resultado da manutenção de alguns controles. Guga desenha um mapa. Ninguém está “de fora” da guerra, seja porque esquiva-se dela, seja porque a consente. Mas, na galeria os patuás compráveis não defendem da cidade-sem-estado. Missão difusa. O desafio de fazer arte nos termos da objetividade de uma reação é a ousadia de destituir a finitude da vida mensurada pela mídia, pela polícia, tornando-a da mesma forma uma ferramenta coletiva, de muitos. Na unidade-multiplicidade da equação, está também o desafio de fazer do corpo do artista um corpo sem medida. Flexível tal como aquele jogo do erro para assinalar um colchete dado a cada personagem real: polícia, milícia, traficante, outros. Ao que adiciono: artista, público, você. Desafio desejado de não repetir a si como elemento na cidade mercadoria, mas encontrar o lugar da ação potente. Não da resposta reconhecível. Fazer-se corpo coletivo, corpo partido-com o corpo do outro. Entregar-se à incerteza da constituição política – imprevisível constituição indecente frente a um estado escuso.
A morte é indecente. (Palavras sem sentido. Palavras sem corpo voam como balas perdidas, caem onde?) Assim Guga disse ao final da fala no Parque Lage. A morte é indecente. Ao que eu respondo que o não comando sobre a vulnerabilidade da vida é que é indecente. (Ou esta é a condição última da vida e do vivo?) Para saber onde piso, tateio se aquele corpo exposto é realmente um corpo vulnerável. Um corpo, não uma unidade de corpo, só existe na medida da sua experiência. Daí que atos passionais excedem os corpos. Revoltas excedem corpos. Colocam-nos novamente em situação de vulnerabilidade. A violência os violenta. Você responde. Excede a um corpo. Doa-se a si disponível para sua desmesura. Ousa, esquiva-se. Improvisa. Salta no vazio. Mortal. O que é homem, e por contigüidade humano, vai se refazer de uma desordem. A dimensão da não-repetição de um corpo é a dimensão de sua potência – de diferir.
[1] A Conversa foi realizada dia 13 de Maio de 2008.
[2] Este texto estabele um diálogo com o texto de apresentação da exposição de autoria de Luis Andrade.
[3] Refiro-me aos textos de Virtuosismo e revolução, de Paolo Virno. Ed. DP&A, Rio de Janeiro, 2007.
Publicado na Revista ReDobra